Reportagem

Produção agrícola na Huíla com jovens

Arão Martins | Mema

Contribuir para a prossecução da maioria das políticas de desenvolvimento do sector agrícola e a diminuição da dependência externa de bens alimentares constitui o objectivo primordial do projecto agrícola, instalado na localidade da Mema, município do Cuvango, província da Huíla, que tem concentrado a utilização das mais modernas técnicas de produção e cultivo do milho.

Criação de solos mais aráveis tem sido um dos desafios dos produtores locais
Fotografia: Arão Martins | Edições Novembro | Lubango

Inserido numa área de cinco mil hectares, o projecto, uma iniciativa privada, mas com pendor patriótico, tem ainda como foco, ajudar no programa de combate à fome e à pobreza e na diversificação da economia.
A implementação do projecto iniciou em Abril do ano em curso. A reportagem do Jornal de Angola constatou, no local, que a execução do projecto está numa fase avançada de implantação.
O projecto, uma iniciativa privada, incorpora na sua actividade, a produção de mais de 30 mil toneladas de cereais diversos, mas o director técnico do projecto, Jorge Rodrigo, disse que, numa primeira fase, se vai privilegiar a produção de milho, para cobrir 600 hectares, e que a primeira colheita acontece no final da campanha agrícola 2017/2018.
Jorge Rodrigo reconhece que a localidade da Mema, a 32 quilométricos da sede municipal do Cuvango, tem características inatas e tem benefícios privilegiados com solos aráveis adequados à produção de alimentos.
Por forma a incrementar as qualidades existentes na região e de maneira a produzir milho durante todo o ano, foram já instalados seis pivôs, dos 10 previstos nesta primeira fase, que vão regar, cada, uma área superior a 50 hectares.
Numa fase avançada, está também a construção da represa, que vai ter a capacidade de armazenar cerca de 280 milhões de litros de água, que vai garantir  água, mesmo na fase seca, de cinco a seis dias, sem sobressaltos.
As obras da represa, disse o responsável, que está a ser instalada numa área útil de dois hectares e já em fase avançada, terminam no princípio do mês de Novembro. O director técnico do projecto, Jorge Rodrigo, disse que o contributo das empresas, na produção de alimentos em grande escala, é uma preocupação constante.
Aliás, as empresas que operam na área da construção civil têm sido, várias vezes, incentivadas pelo Executivo a optarem também pelo processo produtivo angolano. A acção do grupo RTK, que implementa com sucesso o projecto da mesma, encaixa-se perfeitamente na preocupação do Executivo, de modo a diminuir as importações.
Dispondo de uma área de cerca de 1.500 hectares regados por um pivô (com duas culturas
anuais), o milho vai ser cultivado numa área superior a 900 hectares, com previsões anuais de colher cerca de 10 a 12 mil toneladas por época.
Dos cinco mil hectares, já estão desmatados cerca de 850, foi criada uma base de vida e foram abertos cerca de 58 quilómetros de acessos no interior da fazenda, que conta na sua maioria com mão-de-obra nacional. Para as zonas de cultivo, a topografia determina a criação de 90 quilómetros de estrada.
No projecto, todo o processo de produção e regadio está assegurado. Máquinas e homens empenham-se para que nada falta, garantiu o responsável do projecto, acrescentando que  está a ser colocada na primeira fase uma conduta de 17.500 metros, o que corresponde a 17. 500 quilómetros, com uma tubagem, cujo diâmetro, varia de 200 a 500 milímetros.
Na fazenda, foram instalados dois geradores um de 346 kva e outro de 700, um para a bombagem principal que alimenta a represa e o de maior capacidade destina-se ao fornecimento de energia às bombas das duas estações de bombagem que vão alimentar os 12 pivôs.
As manilhas para a construção das diversas pontes que vão garantir uma circulação adequada no interior do projecto estão asseguradas, bem como a vedação total do projecto exclusivamente nacional com investimento privado, mas com ganhos para o país.

Zona industrial

Amplamente consumida em Angola, a farinha obtida pela moagem fina do milho seco, após a extracção do glúten (gérmen), vai ser vendida para a indústria de alimentos compostos para animais.
O director do projecto afirmou que o projecto da fazenda contempla ainda a instalação de dois silos, com capacidade de armazenar 1.500 toneladas cada um, que começam a ser instalados dentro de dias.
A colheita, o armazenamento e a transformação são outras valências que o programa privilegia na zona rural, onde está implantada a fazenda.
Jorge Rodrigo disse que é preciso incentivar também o consumo interno.
“O produtor deve olhar, não só para o preço, mas também para as agro-indústrias que mantêm o mercado interno e promovem o equilíbrio entre a produção e o consumo do produto. Reconheceu ainda haver uma demanda forte dentro do país.”
O rolão do milho, particularizou, é constituído da palhada do milho e, depois de feita a colheita das espigas, é outro condimento a ser amplamente aproveitado na Mema.
No início do seu cultivo era utilizado basicamente para a subsistência humana. Com o decorrer do tempo, foi ganhando importância e transformou-se no principal insumo para a produção de aves e suínos, além da sua importância estratégica para a segurança alimentar ao longo dos anos.
No Cuvango, disse o administrador municipal local, Miguel Luís, o milho está na dieta de vários pratos da culinária típica, como a canjica e a polenta, entre outros.
Com o milho, pode-se ainda confeccionar milho cozido ou assado, sendo um alimento com alto potencial energético devido ao seu importante teor de amido. Os estudos de impacto ambiental e a correcção dos solos são duas vertentes privilegiadas pelo grupo, com vista à produção efectiva de alimentos.

Emprego directo e apoios do Executivo beneficiam várias famílias na Mema


A oportunidade
de trabalhar numa fazenda é o sonho de muitos jovens que se tornou realidade com a implementação da fazenda Agrikuvango.
O projecto, até à sua fase final, prevê a criação de mais de dois mil postos de trabalho para os jovens locais. Numa primeira fase, foram recrutados 400, dos quais 200 já funcionam em pleno na fazenda.
Victorino Tchimuco, 33 anos, pai de seis filhos, é operador de caterpillar. A ele, cabe a responsabilidade de abrir as vias de acesso e abertura das valas onde são colocadas as condutas de água para irrigar os campos de cultivo.
O jovem reconhece as técnicas, máquinas e a tecnologia que está a ser utilizada na fazenda, que proporciona a entrada de forma sustentável de jovens no emprego no meio rural. Com o dinheiro que aufere, disse, adquiriu um terreno de mil metros quadrados e projecta erguer a sua moradia com o seu rendimento.
Natural do município de Caconda (230 quilómetros a norte da cidade do Lubango), Victorino Tchimuco afirmou que a fazenda é prova inequívoca do seu contributo nas acções de combate à fome e à pobreza, porque promove o emprego, estimula o desenvolvimento dos membros das comunidades e gera também rendimento para as famílias. O trabalho mudou a sua vida e a da família. “Ao participar no projecto que vai produzir comida para o país constitui orgulho, não só para mim, como da minha família também”, disse, acrescentando, que "a população do Cuvango está de parabéns. Durante a guerra, não vimos nada e no país muita coisa boa está a surgir. Espero que as pessoas trabalhem com amor.”
Alberto Isaías, natural do Moxico, é motorista de um camião basculante e tem a responsabilidade de transportar os inertes e outros equipamentos necessários para a instalação da base de vida e outros equipamentos na fazenda.
Trabalha na empresa há 10 anos. Testemunhou as várias fases de desenvolvimento de projectos e é motivo de orgulho, para ele e os seus companheiros, participar nas acções para produção de alimentos para o país.
A formação de jovens locais, em função da sua área de colocação, é a vertente que está a ser encarada com satisfação por Alberto Isaías, 54 anos.
“O gosto de trabalhar no campo é antigo e vem da família. Vivemos da agricultura e, ao conseguir emprego no projecto, estou satisfeito”, disse, com uma certa satisfação.

Apoios do Executivo

O projecto Agrikuvango está-se a desenvolver devido aos apoios que o Executivo proporciona aos produtores nacionais, reconheceu o presidente do Conselho de Administração do grupo RTK, Rui Tchipongo Kaposse. Depois de receber o título de concessão de superfície ao grupo, do governador província da Huíla, João Marcelino Tyipinge, deu-se um avanço, rumo à produção efectiva.
O projecto Agrikuvango tem como objecto a produção, processamento e comercialização de bens alimentares de consumo primário como arroz, trigo, milho, jinguba, bem como derivados de produção sustentável, como fuba de milho, farinha, rações e biocombustível, que são utilizados de forma integrada e sustentável.
O pontapé de saída coincidiu com o lançamento do perímetro irrigado do Cuvango.

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