Produção de legumes por hidroponia

Edivaldo Cristóvão |
24 de Março, 2017

Fotografia: Vigas da Purificação | Edições Novembro

Numa altura em que as alterações climáticas começam a ter grande influência na produção alimentar, surge da ciência uma solução que reduz ao mínimo possível a exposição do produtor às indefinições ligadas a fenómenos como a falta de chuvas, pragas ou outro tipo de situações susceptíveis de condicionar a lavoura.

Poucos dias atrás, entrou em actividade na zona do Kikuxi, em Luanda, o primeiro pólo de hidroponia. Pelo nome (hidro…) percebe-se logo que tem a ver com água, mas a novidade mesmo é que se trata de uma técnica moderna que melhora o abastecimento e a qualidade dos produtos do campo.
Os promotores do projecto não têm dúvidas quanto ao impacto dessa técnica no mercado nacional. É garantido o fomento do agronegócio e é  quase certo que aos poucos deixa de existir a necessidade de importação de alguns produtos como alface, salsa, manjericão, camomila, coentros, hortelã, rúcula, orégãos, poejo, erva-cidreira, agrião e cebolinho. Resultado de um investimento de 176 milhões de kwanzas, o primeiro pólo em hidroponia utiliza uma técnica de implantação feita através da água sem recurso ao solo. São 25 postos de trabalho directos. Com a segunda fase em perspectiva, para o mês de Abril, o número de empregos pode duplicar.
A produção agrícola por hidroponia é uma técnica que não está dependente da qualidade da exploração do solo e de fertilizantes. Faz a diferença porque permite a produção durante todo o ano, normalmente a colheita é feita em 20 dias, não depende do clima. É uma produção que está protegida de pragas e doenças.
A aposta na “Agricultura Verde” no mundo é considerada devido ao baixo consumo de água e à não deposição de adubos no solo. Inaugurado na quarta-feira, o Pólo de Hidroponia de Angola é uma iniciativa do grupo empresarial Kibabo, através da empresa Hidrobem em parceria com o Executivo e investidores angolanos.
A primeira fase do projecto foi implantada numa área de dois hectares, com uma exploração de 1.000 metros quadrados por cada estufa. A segunda fase deve ocupar  6.000 metros quadrados de estufas e vai fazer aumentar a produção dos produtos. Nesta altura, por semana, é tirada de cada estufa meia tonelada de cada produto. O projecto, futuramente, vai ser lançado em outros pontos do país.
A empresa pretende montar no local uma escola de formação, um pólo de agro-indústria com a implementação da quarta gama. A distribuição dos produtos é feita através da cadeia de restaurantes, supermercados e hotéis de Luanda.
A inauguração do projecto foi testemunhada pelo secretário de Estado da Agricultura para o sector empresarial agrícola, Carlos Aberto Jaime Pinto “Calabeto”, numa cerimónia que contou também com a presença da secretária de Estado das Relações Exteriores para a Cooperação, Ângela Bragança, e outros membros do Executivo.
O próprio secretário de Estado para a Agricultura reconheceu que a hidroponia é uma técnica pouco experimentada em Angola, mas intensifica o sector agrícola, porque permite maior rapidez na produção dos artigos. “É uma boa aposta que certamente vai contribuir para a diversificação da economia”, salienta o secretário de Estado, antes de se referir aos custos da produção, a geração de postos de trabalho e ao impacto do projecto no combate à pobreza no seio familiar.
O secretário de Estado estimou que o mercado de Luanda é consumido em bens alimentares por oito milhões de pessoas todos os dias. Por isso, este projecto serve para se encontrar outras alternativas para gerar riqueza para as famílias. Do ponto de vista financeiro, o investimento do projecto não é alto, mas o seu retorno pode atingir níveis altíssimos tendo em conta o volume e a velocidade da produção.
O Executivo tem implementado e garante apoio incondicional às iniciativas desta natureza. “Por estes motivos, esperamos que o grupo empresarial Kibabo atinja a segunda etapa do projecto.”
A directora-geral da Hidrobem, Carla Paulino, destaca o facto de ser um investimento “praticamente sem riscos” e que agrega qualidade, durabilidade e quantidade. Para produção, é utilizado o chamado  ‘NFT’ (nutrient film techinique), um sistema de sacos gota-a-gota que resulta em produtos como tomate e ainda beringela, gourjete, pimento, pepino e fizális.

Casa para os trabalhadores

A empresa Hidrobem aposta na formação e no bem-estar social dos seus trabalhadores. Além do espaço de cultivo, tem também uma área residencial para alguns funcionários viverem com as suas famílias.
Clementino Mariano tem 28 anos, é o responsável pelos trabalhadores agrícolas da empresa, onde está desde Novembro. Vive com a esposa e três filhos no local e revelou à nossa reportagem que gosta das condições de trabalho, porque lhe foi atribuída uma casa com dois quartos.
Livre das rendas, Clementino disse que o que ganha serve apenas para sustentar a família e pagar os seus estudos e dos filhos. “Estou muito feliz por esta oportunidade de emprego, espero que outros jovens passem a acreditar mais no futuro de Angola.”
Ernesto Wkwahamba de 25 anos, natural da província do Huambo, vive no Zango I com os pais. Disse que sempre gostou de cuidar de plantações. Por isso, este trabalho veio a calhar.
O trabalho de Ernesto é cuidar da plantação na estufa. Com um sorriso, ele explica quão fácil e até divertido é o seu trabalho. “As novas tecnologias vieram tornar tudo mais fácil. Não precisamos de ter o contacto com areia, nem outros desconfortos que somos obrigados a ter no campo. Neste momento, o meu salário serve para ajudar nas despesas de casa e pagar os meus estudos”, disse.

Vantagens do sistema

A hidroponia tem uma grande densidade de produção, cerca de 30 plantas por metro quadrado. Permite produzir em qualquer local, porque não está dependente da qualidade da terra nem do clima.
A nova tecnologia reduz os custos de transporte por ser possível produzir junto dos centros urbanos e em qualquer altura do ano, porque não está condicionada ao clima. Tem uma ocupação permanente de todo o espaço, permitindo mais ciclos anuais.
É uma agricultura verde, amiga do ambiente, porque tem um baixo consumo de água e não deposita adubos no solo. Tem menor risco por ser desenvolvida num ambiente controlado (estufa), protegido contra pragas e doenças.
É um sistema que não contém pesticidas e tem uma maior durabilidade por ser colhido com raiz, o que permite que a planta continue viva durante mais tempo.
A hidroponia pode colmatar uma boa parte dos riscos de um investimento agrícola, com pequenas unidades de exploração. Sem elevados requisitos de “know-how”, consegue-se quantidades consideráveis de produção de produto de alta qualidade e durabilidade, com a possibilidade de estar mais perto e chegar mais rápido ao cliente com menos custos.
O sistema é adequado para ser instalado próximo dos grandes centros urbanos, por ser amigo do ambiente e poupar 70 por cento de água comparável a uma plantação normal.
A hidroponia apresenta menor risco de perdas, porque é controlada pela estufa e permite uma acção mais rápida sobre pragas e doenças.
Uma das grandes vantagens é a sua produção em contra ciclo porque não está sujeita às intempéries. Isto permite que o produto esteja disponível para o mercado fora da época habitual.
Em mil metros quadrados de implantação com o sistema de hidroponia em NFT, com cerca de 40.000 buracos, é possível produzir uma tonelada de alface por mês e 60 mil molhos de ervas aromáticas. Já no sistema sacos gota-a-gota, em mil metros quadrados, com cerca de 1.080 buracos, pode ser produzida uma tonelada de tomate por mês. Mas estes números podem aumentar ainda este ano com a conclusão da segunda fase do projecto.

Oportunidades de negócio

Cremildo Paca, um dos responsáveis da Hidrobem, considera a hidroponia uma agricultura do futuro, que já “deu provas de sucesso” a nível internacional. “Essa é a nossa contribuição para que se diminua a necessidade de se importar alimentos, que tem sido uma preocupação do Executivo.”
O investidor referiu que o grupo empresarial, através do programa Projovem (linha de crédito de apoio ao empreendedor jovem), pretende fornecer um serviço de consultoria, para os instruir como fazer a instalação e a manutenção de estufas, para que possam caminhar quando criarem o seu próprio negócio.
O objectivo da Hidrobem é criar condições para que os jovens empresários possam dedicar-se ao agronegócio. “Vamos mostrar o potencial deste negócio, ensiná-los e dar as ferramentas necessárias, que consiste na formação contínua sobre os negócios no sector da Agricultura”, disse.
Além de produzir produtores agrícolas, através de sistemas hidropónicos e da agricultura tradicional, a Hidrobem pretende, futuramente, fazer consultorias, fornecimento e montagem de “chave-na-mão” de estufas agrícolas, regas, dar formação necessária para a implementação de sistemas hidropónicos, com a garantia de apoio técnico, manutenção dos sistemas, bem como no fornecimento de insumos.

Processo de produção

A palavra hidroponia é originária de dois radicais gregos: hidro, que significa água e ponos-trabalho. O conceito nasceu na Califórnia, nos EUA. Actualmente, está inserida no Canadá, Europa, Brasil e África do Sul.
As raízes das plantas ficam dentro da água e os minerais essenciais para o seu crescimento e desenvolvimento são fornecidos através de uma solução nutritiva, transmitindo na medida exacta e de forma constante todos os nutrientes que os vegetais cultivados necessitam.
A solução nutritiva tem um controlo rigoroso para manter as suas características nutritivas. Desta forma, é efectuado uma monitorização de PH e de concentração de nutrientes, para que as plantas cresçam sob as melhores condições.
O sistema tem uma grande densidade de produção, onde cerca de 30 plantas podem ser produzidas por metro quadrado.O cultivo hidropónico é antigo e,  curiosamente, a primeira produção de alimentos em grande volume ocorreu durante a II Guerra Mundial.
Os EUA estabeleceram um sistema de hidroponia por inundação e drenagem em várias ilhas áridas dos Oceanos Pacífico e Atlântico. Ainda foi criada em Chofu, no Japão, uma unidade com mais de 22 hectares de hortaliças hidropónicas para alimentar o exército. Entretanto, o uso da hidroponia em circunstâncias normais ainda não era economicamente viável. Após a guerra, em todo o mundo não havia mais de dez hectares com cultivo hidropónico. Este cenário começou a mudar durante a década de 60, porque o Canadá, um dos maiores produtores de tomate em estufa, começou a ter problemas com o cultivo devido à alta incidência e à severidade de doenças provenientes do solo. Então, a solução foi evitar o uso do solo, empregando o cultivo em hidroponia. Com isso, no decorrer dos próximos anos, aumentaram os estudos científicos e investimentos financeiros com o objectivo de aprimorar o cultivo hidropónico.
O passo seguinte da evolução da hidroponia aconteceu devido à crise e ao aumento do preço do petróleo na década de 70. O custo do combustível tinha influência directa sobre o ganho dos produtores, pois eles usavam calefação nas suas estufas. Com isso, mais pesquisas foram direccionadas ao campo da hidroponia, visando a diminuição dos custos de produção. No final dos anos 70, a hidroponia estava em expansão, mas contava com apenas cerca de 300 hectares em todo o mundo.
Talvez o maior avanço tenha ocorrido a partir da Holanda na década de 80. Com o uso contínuo durante muitos anos de adubação e de agrotóxicos, directamente no solo, nas estufas de cultivo, houve contaminação das águas subterrâneas naquele país. Culminando com a proibição do uso dessas técnicas, para evitar a contaminação do solo e da água, a hidroponia consolidou-se como uma técnica de cultivo viável. A técnica de hidroponia mais utilizada foi a lã de rocha alimentada por regas por gotejamento.
Com o sucesso dos cultivos hidropónicos na Holanda, houve uma rápida expansão nos cultivos em vários países. No final da década de 80, a área mundial cultivada em hidroponia já ultrapassava os 6.000 hectares. A técnica continua em expansão, evidentemente, com uma taxa de crescimento menor do que a vista entre as décadas de 60 e 80.

Qualidade da água

A qualidade da água é fundamental para o pleno desenvolvimento das plantas, pois nela estão dissolvidos os minerais essenciais, formando a solução nutritiva que será a única forma de alimentação das plantas.
Para a hidroponia, é recomendada a utilização de água potável de poços artesianos ou recolhida das chuvas. Em cultivos comerciais, é recomendado a realização de análise química para saber a quantidade de nutrientes presentes e a salinidade.
Além disso, a análise pode detectar a presença de coliformes fecais e de patógenos que podem ser prejudiciais para o cultivo. Devem ser analisados os seguintes parâmetros na água: carbonatos, sulfatos, cloretos, sódio, ferro, cálcio, magnésio e micronutrientes (Cl activo, Mn, Mo, B, Zn e Cu).

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