Reportagem

Projecto Biocom dá cartas na responsabilidade social

Luísa Rogério |

A jornada começa muito cedo. Às seis da manhã já se regista intenso movimento no refeitório do alojamento construído de raiz. Os carros saem antes das sete, altura em que  acontece, pontualmente, a mudança de turnos dentro da gigantesca fábrica situada no troço entre Cacuso e Capanda.

Prática do desporto é orientada por profissionais contratados no âmbito da responsabilidade social da Biocom
Fotografia: Paulino Damião

No pátio da Biocom, maior projecto privado de Angola fora do sector petrolífero, tudo funciona de modo sincronizado com base em regras de cumprimento rigoroso.Ao princípio da tarde homens e mulheres, trajados incondicionalmente com camisas verdes, usam o refeitório onde é servido a todos o mesmo cardápio. Impossível distinguir categorias profissionais. Ao fim da jornada laboral alguns deles ainda acumulam energias para, de modo voluntário, ajudarem a materializar os compromissos da empresa no âmbito da responsabilidade social.
Acompanhar os meandros do processo de produção de açúcar desde o plantio da cana à transformação desta em pó granulado fica para ocasião posterior. A equipa de reportagem do Jornal de Angola regressa ao município de Cacuso, a 64 quilómetros da sede provincial de Malange. Numa nave minúscula, comparativamente à mega estrutura da Biocom, a empresa desenvolve o projecto “Tualeto Kumoxi”. Em quimbundo, “sempre juntos”. No espaço arrendado pela companhia funciona também a escola Palanca Negra onde decorrem as aulas de alfabetização que contabilizam 240 alunos matriculados no presente ano lectivo. Congrega os espaços de judo e jiu-jitsu, com mais de 150 alunos. Na capoeira estão inscritos 80crianças e adolescentes. Cabe a três mestres, um dos quais de nacionalidade brasileira, orientar os potenciais desportistas.
Perto do fim do corredor, encontramos a pequena fábrica artesanal de sabão neutro, principal ganha-pão de20 mulheres. Rebeca André, de 19 anos de idade, lidera a equipa. Confirma se todas têm as máscaras e luvas bem colocadas. A jovem mãe de um rapaz de dois anos faz uma pausa na produção para dar as explicações. Depois ela e as colegas juntam óleo de cozinha usado, soda e água morna nos respectivosrecipientes. Exalam um forte odor. “Temos que usar sempre máscaras”, justifica. Mexem vigorosamente com um pau maçarico durante trinta minutos. Por último,despejam a massa num tabuleiro. Está pronto. Dentro de quinze dias sairão daqui 48 barras de sabão vendidas no mercado ao preço de cem kwanzas cada uma. No fim do mês, repartem os lucros.
Na primeira fase do empreendimento, iniciado em Junho do ano passado, a Biocom assistia as beneficiárias. Antonica Koque, uma filha da terra que viveu 17 dos seus 45 anos de idade em Portugal, serve de cicerone. A funcionária dafábrica acompanha regularmente as trabalhadoras que já estão em condições de comprar os produtos que servem de matéria-prima.
Antonica orienta-as em relação à feitura de cálculos gerais, repartição de lucros e outras questões correntes.
À noite, ela ainda lá está. Conhece todas as participantes no curso de alfabetização. Interage com os miúdos das escolas.Acompanha os movimentos graciosos das crianças envolvidas na capoeira. Têm um vigor insuspeito para os corpos franzinos. No salão, Paula, de 14 anos, medalhada em vários campeonatos, fascina os presentes. Com quatro movimentos leva ao tapete o parceiro de treino. A miúda tem garra, afirmaJoão Bernardo dos Santos. É assistente social afecto àárea de Pessoas e Organizações da Biocom. Psicólogo social, pós-graduado na especialidade em França, discorre sobre “a empresa socialmente comprometida”.

"Projecto Formar"

   
Estar matriculado e ter boas notas é o primeiro requisito para que uma criança frequente qualquer das escolas citadas. “Estou a desenvolver uma actividade que consiste em visitar as crianças nas escolas. O acompanhamento visa estimular os miúdos a estudar”, explica João dos Santos. Têm acesso às aulas filhos de trabalhadores com idades entre os quatroe os 16 anos e outros das redondezas, desde que se apliquem nos estudos.
“Dentro do seu programa empresarial,há um braço social que realiza várias acções dentro da empresa e nas comunidades da região”. João realça o “Projecto Formar” iniciado há quatro anos. Anualmente, cerca de 150 pessoas terminam com êxito a formação. Vocacionado para aeducação de adultos, surgiu da necessidade interna de recrutar localmente pessoal preparado.
“Estamos a falar de uma fábrica modernizada. Quem trabalha nela deve agregar certas capacidades”, precisa João dos Santos. Assim, estabeleceram umacordo com a escola Dom Bosco, do Cuanza Norte, “onde os nossos professores fizeram formação”. Adoptaram, então,o método Dom Bosco, mediante o qual é possível estudar duas classes no espaço de um ano.
A escola abriu portas aos membros das comunidades.As aulas são ministradas por quatro professores e um coordenador. Oaperfeiçoamento da capacidade de aprendizagem através da leitura e da escrita concorre para acelerar mudanças positivas. “São melhorias significativas. A maior parte dos moradores daqui conseguiu o primeiro emprego na Biocom. Fizemos corredores junto da Administração municipal com vista a registar alguns adultos e crianças que não tinham documentos”, salienta João Bernardo. A alfabetização acelerou também transformações ao nível do comportamento, pois, “além de aulas, temos realizado palestras educacionais sobre saúde e ambiente que contribuem para melhorar a convivência entre trabalhadores”.
O psicólogo realça a singularidade de a Biocom empregar várias pessoas da mesma família. Por exemplo, Antonica Koque é colega de dois dos seus filhos recrutados depois dela. Ter trabalhadores de uma família na empresa significa igualmente o aumento do rendimento. Existe, por outro lado, “um certo comprometimento, diria até um espírito de pertença, em relação ao empregador. As pessoas sentem-se motivadas a empenhar-se no trabalho, porque daí vêm os rendimentos”.
A Biocom emprega cidadãos de todas as províncias de Angola. Essa mobilidade, até certo ponto, está a contribuir para o crescimento de Cacuso, município relativamente pequeno. “Se a esposa de um integrante for cabeleira, terá a tendência de montar um salão aqui. Se a de outro for pasteleira, teremos uma pastelaria. Ao trazerem os filhos, as escolas ganham novos alunos”, acrescenta João Bernardo. O facto de jovens finalistas do Ensino Superior provenientes de Luanda terem encontrado o primeiro emprego na fábrica “incentiva a Administração municipala criar projectos para cativar esses cidadãos a se manterem na localidade”. Em suma, encaixa a realidade naideia de que “desenvolvimento gera desenvolvimento”.

"Projectos entrelaçados"

A Biocom tem parceiras com instituições como a Sociedade de Desenvolvimento do Polo Agro-Industrial de Capanda (SODEPAC) no âmbito do programa de agricultura familiar “Kukula Kumoxi”, formação de parteiras e disponibilização de meios de transporte.A doação de bens ao orfanato do Lombe, a oferta de uma moagem à Missão Católica, com vista a ajudar as senhoras a moer bombó e milho,são exemplos de actividades realizadas. As doações abrangem o município de Calandula, que vai para além da zona de acção da Biocom, que começou a executar projectos sociais na empresa em 2012. No ano seguinte alastrou-os às comunidades.
“O nosso sector de saúde ajuda a fazer testes de malária nas comunidades. Recebemos recentemente, de parceiros no Brasil, contentores de quarenta pés com produtos diversos, roupa usada, calçado, brinquedos e utensílios domésticos, que distribuímos à população”, precisou João Bernardo dos Santos, indicando ainda que a acção social da empresa se estendeà realização de palestrassobre temas que vão da violência doméstica aos cuidados a observar com a água.
“Se o trabalhador consumir água imprópria,isso terá impacto negativo na produção. Se perder uma criança, não vai trabalhar. Se a saúde da sua base familiar estiver abalada,ele ou elatambém estarão abalados” realça o psicólogo social.
Há uma verdadeira política de formação diária levada a cabo no consórcio em todos sectores e a diferentes níveis. Há trabalhadores que entraram para a Biocom como trabalhadores rurais. Hoje estão integrados noutros departamentos técnicos e administrativos, após receberem formação ao abrigo da parceria com o Instituto Nacional de Formação Profissional (INEFOP) de Malanje. Este órgão do MAPETSS homologa certificados. Os programas de integração de portadores de deficiências acentuadas e moderadas merecem destaque especial.
“Temos colegas sem uma perna ou sem braço”, diz João Bernardo dos Santos evocando o caso paradigmático do trabalhador surdo-mudo colocado no sector de biomassa, “que produz matéria-prima” para produção de energia. “O nosso Código de Conduta promove a inclusão de trabalhadores. Assim se aprende, igualmente,a negar a discriminação”, sustenta o gestor.

"Biocom por dentro"

Localizada no Polo Agro-industrial de Capanda (PAC), a Biocom representa o maior investimento privado de Angola à margem do sector petrolífero. É considerado um importante activo de desenvolvimento nacional, cujo processo de produção emprega tecnologia de ponta altamente moderna.
A Biocom ocupa uma área total de 81.201 hectares. Destes, 70.106 são cultiváveis e 11.095 destinam-se à preservação permanente da fauna e da flora ambiental. As actividades da agricultura e da indústria englobam as duas grandes áreas de actuação.
Dados oficiais disponibilizados pela empresa indicam que as tarefas agrícolas funcionam durante todo o ano. Incluem trabalhos de preparação do solo, plantação e colheita da cana-de-açúcar. No presente ano,a colheita da cana-de-açúcar decorre entre os meses de Junho e Outubro. A produção industrial funciona em tempo integral durante todo o período de colheita, resultando da mesma açúcar, etanol e energia.
Na colheita 2016-2017 a Biocom vai produzir 47 mil toneladas de açúcar, 16 mil metros cúbicos de etanol e 155 mil megawatts de energia eléctrica. O açúcar vai ser encaminhado para o mercado interno, ao passo que o etanol hidratado deve atender àprocura da indústria nacional de produtos de limpeza e de bebidas espirituosas. Quanto a energia eléctrica, eladeve ser comercializada junto da Empresa Nacional de Energia de Angola (ENDE).
Do total de 2.125 trabalhadores do Biocom, 195 são expatriados, principalmente do Brasil.
A Biocom dispõe de programas estruturados de qualificação e aperfeiçoamento dos trabalhadores. A valorização do talento angolano, visando maior capacitação na busca de maior produtividade para poder competir no mercado internacional, merece grande destaque. A empresa desenvolve programas de desporto, educação, cultura e lazer no âmbito da sua componente de responsabilidade social.

Notas de viagem

A azáfama típica de Viana ficou para trás. Catete é já ali. Os vendedores de produtos agrícolas amontoam-se à beira da estrada. As barracas com os famosos cacussos também lá estão. Prosseguimos a caminhada. É cedo demais para pararmos. Não se vêem palmeiras, mas o verde das paisagens continua a ser o mesmo da mocidade de Agostinho Neto reflectida num poema que exalta a beleza da sua terra natal. Há grandes lotes de terra com placas que as identificam como reservas fundiárias do Estado. Ao longo da estrada vê-se o pulsar da vida nas aldeias de Tari, Domingos João, Inácio Francisco, Passos, Botomona e Calomboloca. Nesta última repousam os restos mortais de Agostinho Mendes de Carvalho, o político celebrizado na pele do escritor Uanhenga Xitu.
A viagem no tempo remete-nos para os ambientes que inspiraram “Kahitu”, “Bola com Feitiço” ou os “Discursos do Mestre Tamoda”. Os personagens que deram corpo às “Vozes na Sanzala” desafiam a imaginação até chegarmos a Maria Teresa, onde o posto policial sinaliza o fim das terras de Icolo e Bengo. A partir de Zenza do Itombe é território da província do Cuanza Norte. A viagem prossegue tranquila. Notam-se algumas benfeitorias na estrada, apesar de haver um ou outro buraco contornável. Desviamo-nos da via que, passando pelo Dondo, liga a capital do país ao Huambo. Autocarros, muitos camiões e menos turismos cruzam as mesmas rotas.
Durante o percurso é possível abastecer em várias bombas de combustível. A maior parte delas oferece lojas de conveniência para compras básicas e casas de banho. Passamos por aldeias e localidades como Lucala que retratam, cada uma a seu modo, episódios ligados à reconstrução do país. Impossível não reparar em bancos comerciais praticamente vazios, se comparados com outras localidades. Nada tem a ver com a desafiadora missão que a ida a determinados bancos representa nas grandes cidades.
Mais adiante, a vila construída num ponto alto não deixa margem para dúvidas. Golungo Alto, a terra de António Jacinto, merece um postal à parte. Aqueles casarões coloniais e os prédios desbotados contam estórias que misturam poesia e produtos agrícolas em que predomina o sabor do café. Transmitem relatos subentendidos de contratados por míseros tostões que ajudaram a construir prosperidades, mas também resistências. Olhares atentos aos detalhes mal registados devido à necessidade de atingir o objectivo motivam a promessa de regressar com vagar porque a viagem ainda não chegou ao fim. O percurso dá a ver paisagens, rios e aldeias que insistem em desafiar a imaginação. Pouco mais de 300 quilómetros foram percorridos. Cerca de três horas e meia depois de sairmos de Luanda vemos os primeiros bairros periféricos. Continuamos na Estrada Nacional 230, que atravessa a vila de Cacuso que, por causa da posição estratégica, é um dos quatro municípios satélites de Malanje.
De acordo com as autoridades provinciais, tem registado elevado índice desordenado de crescimento populacional. Integrado pelas comunas de Quizenga, Pungo Andongo e Lombe, o município alberga empreendimentos de vulto, com destaque para a Barragem Hidroeléctrica de Capanda que abastece de energia Luanda e Malanje, bem como a Biocom e as fazendas Pedras Negras.
Nestas terras férteis, abençoadas com diversos atractivos turísticos, pontificados pelas enigmáticas pedras Negras de Pungo Andongo, na comuna com o mesmo nome, a trajectória de pessoas comuns que, dia após dia, somam vitórias no combate à pobreza se mistura com a estruturação de projectos gigantescos. Aqui, onde as marcas das peugadas de Njinga Mbande testemunham o legado da rainha que não nasceu de um conto de fadas, desenvolvem-se projectos inovadores. Apesar de insuficientes para mudarem o mundo, contribuem para transformarem a perspectiva de vida de milhares de pessoas.

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