Reportagem

Projectos agrícolas do Estado retomam trajectória de produção

André dos Anjos

Depois de um interregno de dois anos, a fazenda de Camacupa volta a produzir milho e a do Longa arroz. Numa e noutra unidade, as colheitas ainda não remetem para as capacidades instaladas, mas parecem agora menos distantes disso do que há três ou quatro anos.

 

Localizadas, a de Camacupa, bem no centro do país, no município com o mesmo nome, província do Bié, e outra, a do Longa, no extremo sudeste do país, mais concretamente no município do Cuito Cuanavale, no Cuando Cubango, os dois empreendimentos agrícolas custaram aos cofres públicos 150 milhões de dólares.
Entraram em funcionamento em 2014 e emitiram sinais de colapso dois anos depois, já com o país a braços com a crise financeira resultante da queda do preço do petróleo no mercado internacional, o que levou o Executivo a accionar o Fundo Soberano para salvar o que delas restava.
Hoje, nas duas unidades de produção há motivos para celebrar, mas não faltam outros para lamentar. Em Camacupa, o primeiro sinal de desconforto começa na picada que sai da sede do município e conduz à fazenda. Uma língua de estrada de terra batida salpicada de alcatrão a meio do troço mas, acidentada em quase toda a extensão.
Um vasto parque de máquinas e automóveis chama a atenção de quem chega à fazenda pela primeira vez. Plantadeiras, puverizadoras, ceifeiras-debulhadoras, tractores, enfim, todos os equipamentos que permitem fazer a chamada agricultura mecanizada, sem contar com viaturas de apoio ao pessoal. 
O estado dos meios rolantes, em alguns casos e não poucos, contrasta com a idade estampada nas chapas de matrículas. Todos com mais ou menos quatro anos, mas uns precocemente envelhecidos e outros simplesmente avariados. De um conjunto de oito semeadoras, por exemplo, apenas cinco funcionam, conta o director da fazenda, Fernando Lito, um engenheiro agrónomo de 29 de idade e um ano e meio de casa.
Mais abaixo, numa área alagadiça de 400 hectares, jazem dez pivôs de rega, que, segundo Fernando Lito, nunca chegaram a ser usados devido a falhas técnicas no processo de instalação.
 A montagem dos equipamentos, explica, devia ser precedida de trabalhos de drenagem, que não foram feitos pela empresa chinesa que procedeu à montagem. As comunidades envolventes, desconhecendo a utilidade dos pivôs, talvez por nunca os terem visto a funcionar, descobriu nos pneus matéria-prima para calçado.
Da descoberta resultou uma corrida desenfreada às rodas dos pivôs, conta Fernando Lito, que acusa os populares de terem “vandalizado os equipamentos”. Mas, segundo apurou o Jornal de Angola, não são apenas as rodas que foram sabotadas. Em alguns pivôs, o saque abrangeu dispositivos eléctricos determinantes para o seu funcionamento.
No complexo habitacional, onde a sumptuosidade dos escritórios remete para fazendas do “primeiro mundo”, são notórias as evidências de que se apostou excessivamente no secundário em dtrimento do primário.
Aqui, sobressaem seis torres de silos, sendo quatro com capacidade para cinco mil toneladas cada e duas para 1.500 toneladas, perfazendo 23 mil toneladas.
Ainda no interior do recinto, a escassos metros dos silos, que nunca chegaram a ser preenchidos em pelo menos um quarto da sua capacidade, está outro gigante adormecido, uma fábrica de farinha de milho com capacidade para triturar 120 toneladas de grãos por dia. 
No meio de tantos equipamentos, dos melhores que há para lavoura, a fazer fé em Fernando Lito, que serviu de cicerone à reportagem do Jornal de Angola, um grupo de jovens junta esforços e saber na reparação de uma ceifeira-debulhadora de última geração. Não muito longe da oficina, na área de plantio, uma máquina igual colhe milho. A operação demora pouco mais de 40 minutos, o tempo necessário para ceifar sete toneladas.
À ceifeira-debulhadora junta-se outra máquina, um tractor que transporta o milho para os silos, com escala a uma balança industrial, cujos registos suportam as estatísticas do produto em armazenamento.
Fernando Lito não é o único jovem no meio dos 64 trabalhadores que constituem o quadro de pessoal da fazenda. A maior parte deles, para não dizer todos, está na faixa etária dos 20 aos 35 anos.
A proeza de repor a fazenda em funcionamento, dois anos depois de um período de paralisação, é, na verdade, deste punhado de jovens, que na primeira campanha agrícola duplicou de duas para quatro o número de toneladas por hectares, como faz questão de sublinhar o engenheiro Fernando Lito.

Campanha experimental

Não fossem os constrangimentos que conduziram à paralisação da fazenda, em 2016, o Longa estaria hoje a meio, se não mesmo à beira da capacidade instalada. Com uma área global de 9.929 hectares, a unidade de produção nunca passou dos 30 por cento do seu potencial, de acordo com dados a que o Jornal de Angola teve acesso.
Com uma área desbravada de 3.000 hectares, na campanha agrícola 2017-2018, cujas colheitas prosseguem, a superfície cultivada foi de 1.524 hectares, sendo 1.500 de milho e 24 hectares de soja.
Em relação ao milho, as colheitas esperadas, de acordo com o director da fazenda, rondam as seis mil toneladas, duas vezes mais que as safras anuais registadas nas primeiras campanhas.
 Fernando Lito celebra os resultados do que chama campanha experimental, à base dos quais traça novas metas para os próximos tempos. Para o ano agrícola, que começa em Setembro, adianta o agrónomo, a área de produção de milho deve passar de 1.500 para 2.000 hectares, a de soja de 24 para 500 hectares, ao mesmo tempo que se introduzem culturas experimentais de batata-doce.
Na visita guiada à área cultivada, onde o milheiral se estende pelo campo  dentro até perder de vista, o cruzamento com populares é uma constante. São no total 21 aldeias que ladeiam a fazenda.

Fazenda Longa

Na fazenda Longa, o quadro não difere muito de Camacupa. As primeiras coisas que chamam a atenção do visitante é o parque de máquinas e automóveis constituído, também aqui, por plantadeiras, puverizadoras, ceifeiras-debulhadoras, tractores, enfim, do melhor que há em termos equipamentos agrícolas.
Tal como em Camacupa, aqui também o estado dos meios rolantes, de um modo geral, contrasta com a idade estampada nas chapas de matrículas. Uns precocemente envelhecidos e outros simplesmente avariados.
Mas, as semelhanças não se esgotam nos detalhes materiais. Também aqui, os 86 trabalhadores que constituem o quadro de pessoal é maioritariamente jovem.
No Longa, o cicerone chama-se Alberto Jacinto, o chefe das oficinas. São dele as revelações sobre o estado dos equipamentos. Conta que de um conjunto de 29 tractores agrícolas com pneus, quatro estão sem hipótese de recuperação, 13 estão em vias de reparação e apenas 12 funcionam.
Das sete ceifeiras-debulhadoras, uma está fora de serviço, dos cinco tractores agrários de esteira apenas três funcionam e de um total de dez caminhões apenas três resistiram ao mau uso. A lista de equipamento danificado inclui um pouco de tudo, inclusive os pivôs de rega, explica.
Aqui, o maior esforço da empresa que gere a fazenda incidiu, fundamentalmente, na reparação dos pivôs. Na campanha agrícola que corre, de acordo com o chefe de produção da fazenda, João Brotas, foram colhidas 350 toneladas de arroz, distante das 700 toneladas previstas, facto, no entanto, explicado pelo tempo empregue na drenagem dos solos, que levou a que os trabalhos de plantio começassem tardiamente.
João Brotas fala em sobredimensionamento da fazenda, cuja área industrial é desproporcional á área agrícola. “Ainda que a fazenda atinja, um dia, os limites de produção, as colheitas não garantiriam o funcionamento da indústria local por mais de um mês”, explicou, referindo-se a uma fábrica de processamento de arroz, com capacidade para sete toneladas por hora, o equivalente a 168 toneladas por dia.
Para rentabilizar a área industrial, o também regente agrícola afirma ser necessário mais espaço de plantio do que os cerca de 1.500 hectares disponíveis em toda a fazenda. “Era preciso o dobro da superfície agricultável”, diz João Brotas, sempre reticente em relação à possibilidade de o Estado vir a recuperar o capital aplicado, que já ascende os 80 milhões de dólares. 
Longa e Camacupa fazem parte de um conjunto de fazendas criadas com fundos públicos, por meio da Linha de Crédito da China, que entraram em funcionamento  há pouco mais de cinco anos, para aumentar a produção interna e reduzir as importações de bens de primeira necessidade,  sobretudo cereais. Em 2016, dois anos depois de entrarem em funcionamento, o Executivo transferiu para o Fundo Soberano a gestão de algumas unidades a braços com problemas de vária ordem.
O Fundo Soberano, por sua vez, criou alguns veículos para gestão das fazendas que lhe foram confiadas. É neste contexto que cinco destas unidades de produção, nomeadamente  a fazenda Sanza Pombo, Camacupa, Longa, Camaiangala e Cuimba, vão parar “às mãos” da  Cofergepo, empresa de gestão de terras.
Não obstante a decisão de transferência da gestão das fazendas remontar a 2016, segundo a direcção da Cofergepo, o processo só ficou concluído há pouco menos de oito meses, revela João Brotas.
Para reactivar as cinco fazendas, a Cofergepo diz ter gasto, até ao momento, cerca de 24 milhões de dólares. Em relação ao Longa, a empresa admite que, pelo “grau de destruição que apresenta”, a recuperação vai levar entre três e quatros anos.
Os investimentos estruturantes que Angola fez na agricultura, desde que alcançou a paz, em 2002, permitiram ao país reduzir o fosso entre as necessidades anuais de creiais e a capacidade de produção.
Estimativas oficiais indicam que o país consome anualmente mais de dois milhões de toneladas de cereais. Em 2015 reduziu o défice para menos de metade, ao produzir 1.800 mil toneladas.
Há pouco mais de uma década, os actuais níveis de produção não passavam de uma miragem. É preciso recuar até 2002, ano em que o país alcançou a paz, para perceber a dimensão dos esforços empreendidos e ter noção do que temos hoje, efectivamente. Nessa altura, Angola dependia praticamente de importações.

Breve historial

Angola viu o seu potencial agrícola, muito produtivo, aniquilado por 27 anos de guerra civil. O relançamento da agricultura, que começa exactamente em 2002, teve como primeira etapa a remoção de minas antipessoais e outros engenhos explosivos dispersos pelo país, em número que a comunidade internacional chegou a comparar com o da população do país. 
O que se seguiu foi a recuperação e criação de infra-estruturas de apoio à produção, e neste caso em particular destacam-se os perímetros irrigados, criados no âmbito do Plano Nacional Director de Irrigação (Planirriga), que alargou as áreas de cultivo a terrenos nunca antes explorados.  
Em 2005, o Governo criou o  Modelo de Gestão dos Perímetros Irrigados e a Sociedade de Desenvolvimento dos Perímetros Irrigados (SDPI) para gerir e supervisionar o património do Estado nesses locais.
Dos sete milhões e quinhentos mil hectares com elevado potencial de irrigação previstos no Planirriga, apenas foram aproveitados 30 mil hectares, onde estão inseridos, entre outros, o Projecto Integrado de Desenvolvimento Agrícola da Quiminha, os perímetros de  Caxito (Bengo), Matala (Huíla), Cavaco (Benguela), Mucoso (Cuanza Norte), Quiminha (Luanda) e Sumbe (Cuanza Sul).
Desses projectos, salvo raras excepções, os relatos que se fazem hoje não são nada animadores. Na maior parte dos casos, fala-se em falhas clamorosas nos modelos de gestão, que resultaram em falência.
Os pólos agro-industriais foram desenvolvidos sem prejuízo para a agricultura familiar, que, de acordo com o Ministério da Agricultura, ainda responde por 90 por cento da produção interna.
Agora que a crise começa a emitir sinais de abrandamento, impõe-se um esforço conjunto para salvar os investimentos públicos com potencial de reduzir, se não mesmo retirar o país da dependência externa.

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