Reportagem

Projectos de água minimizam transumância nos Gambos

Arão Martins | Gambos

Os programas de mitigação da seca, que o Executivo e o Governo Provincial da Huíla  realizam no município dos Gambos, a sul da cidade do Lubango, dão primazia ao bem-estar da população e à valorização do gado,  a sua principal riqueza.

Município dos Gambos tem concentrado o grosso do gado bovino da província
Fotografia: Edições Novembro |

Dados estáticos da Administração Municipal dos Gambos indicam que, desde 2013, altura em que o município registou seca acentuada, foram criados pelo Executivo 150 furos de água acoplados com sistemas solares.
Daniel Wombindo, 68 anos, é um famoso criador de gado bovino por ostentar na localidade de Cahila, comuna de Chibemba, município dos Gambos, cerca de 400 cabeças de gado bovino. Hoje, só com 200 cabeças de gado bovino, a tradição continua.
As acções do Governo Provincial da Huíla para minimizar os efeitos da seca são reconhecidas por Daniel Wombindo . Houve fases em que o gado, disse, tinha de ir ao pasto e só depois beber água devido à distância, o que dava muito prejuízo.
“Eu tinha 400 cabeças de gado bovino. Devido à longa caminhada na procura de pasto e água para beber, associado ao fenómeno de roubo e doenças, em dois anos perdi um número considerável de animais”, explicou, com tristeza.
As pessoas que procuram sabotar os furos de água e os bebedouros do gado têm estado a prejudicar os criadores de gado. Combater a fome e a pobreza passa também pelo fornecimento de água. Quando o Governo Provincial cria esses equipamentos e outros destroem, a população é que sofre.
Com a água se cria gado bovino, suíno, galinhas e se pratica o cultivo de alimentos. “Na região, há pessoas que procuram destruir os projectos implementados a favor da população. As autoridades tradicionais e os criadores de gado estão mobilizados para denunciar os prevaricadores para serem responsabilizados criminalmente”, disse Daniel Wombindo.
Morador da localidade de Onkanga, na Chiebamba, Augusto Dindolo possui diversas manadas de cabritos. Conta com cacimbas que fornecem água aos animais, mas no tempo seco a água esgota. Com isso, é obrigado a percorrer longos quilómetros para dar de beber aos animais na Tunda dos Gambos e no rio Cunene, na comuna do Mulondo, município da Matala.
 
Alterações climáticas

Gambos é uma zona em que as alterações climáticas se fazem sentir de forma acentuada, afirmou o director provincial da Agricultura, Desenvolvimento Rural, Pescas e Ambiente, na Huíla, Lutero Campos. As irregularidades das chuvas são frequentes e precisa-se de água para evitar que os animais tenham de percorrer quilómetros à procura do precioso líquido e pasto. O município está situado numa linha de transumância. Anualmente passam por ali muitas pessoas com gado oriundo do município do Virei, província do Namibe, para chegarem à comuna do Mulondo, município da Matala.
No município dos Gambos  está concentrado o grosso do gado bovino da província. Lutero Campos disse que a população é a maior possuidora desta riqueza do Sul do país, que faz anualmente a transumância para chegar até ao rio Cunene.
A transumância é o deslocamento sazonal de rebanhos para locais que oferecem melhores condições durante uma parte do ano. “São muitos quilómetros que a população efectua todos os anos e as acções já realizadas na região fazem com que diminua a incidência da seca da região com a criação de zonas de água para a população e bebedouros para o gado”, referiu Lutero Campos.
Muitas acções já foram realizadas no município. Com os pontos de água criados, está a irradiar-se a água para um espaço maior. A criação de pontos de águas é uma mais-valia até para o próprio crescimento rápido dos animais. O ganho, reconheceu Lutero Campos, tem influência no rendimento da carne e leite a fornecer ao consumidor. Com o ganho, o boi ganha mais resistência e conserva o peso.

Escolas de Campo

A disseminação das vertentes que constituem uma mais-valia no pastoreio do gado bovino são transmitidas aos criadores através das Escolas de Campo, criadas pelo Governo Provincial da Huíla e o Ministério da Agricultura, em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). O ganho está a permitir usar as altas tecnologias no manuseio da criação do gado bovino.
O administrador municipal dos Gambos, Elias Sova, disse que no município já se faz a produção de hortícolas.
Desde a implementação, de forma massiva, das acções que visam minimizar os efeitos da seca nos Gambos, já foram abertos 150 furos, que estão a permitir abastecer a população com água potável. Em todos os locais onde foram construídos furos de água e estão disponíveis bebedouros para o gado bovino, o que permite diminuir o risco da perda dos bois, que constituem a principal riqueza da população local.
“Aqui no município dos Gambos, próximo do rio Caculuvar, já se produz batata rena. As escolas de campo animam os agricultores e trazem sempre um ganho, prova disso é a existência de 46 associações de camponeses.

Mangas de vacinação


Mais de 300 mangas de vacinação rústicas, das quais, 40 mangas estão na comuna da Chibemba, para a dinamizar o tratamento do gado bovino nos Gambos, que conta com uma escola de formação pecuária, juntamente com Quilengues.

Novo sistema

O Governo Provincial da Huíla gastou 318.035.020,00 kwanzas, na construção de um sistema de abastecimento de água à população rural e apoio ao abeberamento do gado bovino, na localidade de Cahila, comuna da Chibemba, município dos Gambos.
O projecto é financiado com fundos do Programa de Investimentos Públicos (PIP) do Governo Provincial da Huíla. O governador provincial da Huíla, João Marcelino Tyipinge, fez o lançamento da primeira pedra da obra. O director provincial da Energia e Águas na Huíla, Abel João da Costa, disse que o projecto prevê beneficiar cinco mil pessoas. São criados três furos de água de 31 metros cúbicos, um tanque de recepção com 60 metros cúbicos, reservatório de dez metros cúbicos e vai ser instalada uma passagem hidráulica.
A construção de uma escola, lavandaria, reservatório intermédio e a instalação de sete bebedouros e bicas são outras componentes que constam do projecto em execução na comuna da Chibemba, município dos Gambos (150 quilómetros a sul da cidade do Lubango), capital da Huíla.
 O projecto tem por objectivo ajudar a população que pratica também a transumância, numa distância de 30 quilómetros. Nos Gambos, o gado tem bons pastos e há períodos em que fica sem água. “Nesta localidade, muitas vezes o gado é obrigado a beber água no intervalo de três dias e o que se pretende é inverter o quadro. Vamos ter este projecto em primeiro plano, numa distância de 13 quilómetros e vão erguer-se alguns tanques ao longo do percurso e  criados sete fontenários e bebedouros para o gado, e na segunda fase o projecto é ampliado para mais 30 quilómetros, no sentido de evitar que o gado em número considerável se concentre num só sítio, porque quando isso ocorre, danifica também o pasto”, explicou.
Abel João da Costa reconheceu que vai ser um exercício benéfico, e o Governo Provincial da Huíla, logo de seguida vai colocar outros serviços sociais nestas zonas onde existe população e infra-estruturas.
O gado em pouco tempo vai ter maior robustez e é um bom negócio para o combate à fome e à pobreza.
O sistema de distribuição e captação de água vai ser feito pelo método solar, para evitarem  problemas ambientais.

 Reconhecimento da FAO

 O responsável do sector da emergência do Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação em Angola, Matteo Tonini, aplaudiu os programas que o Governo Provincial da Huíla criou para minimizar e contornar os efeitos negativos que a seca tem provocado.
 Os programas visam garantir uma segurança alimentar sólida às famílias. A seca tem afectado não só o município dos Gambos mas toda zona sul de Angola. É a consequência do fenómeno “El Niño”, que afectou as províncias da Huíla, Namibe e Cunene.
O Ministério da Agricultura realizou consultas sobre a segurança alimentar e nutricional através do Fórum com membros da sociedade civil, em Fevereiro de 2013, posteriormente o Fórum com o Sector público, em Novembro do mesmo ano e a Conferência Nacional da Agricultura Familiar e o seu contributo para a Segurança Alimentar e Nutricional em Novembro de 2014, na qual foi sublinhado o papel da agricultura familiar, como base da segurança alimentar.
O Executivo e os seus parceiros tradicionais estão a implementar diversos programas e projectos na zona sul. Considera-se que além das medidas de apoio à mitigação da situação actual é necessário elaborar e executar programas estruturados pós-emergência através de investimentos reforçados na Agricultura Familiar como suporte fundamental da segurança alimentar nesta zona do país.
O sistema de Informação para a Segurança Alimentar e Nutricional é um dos pilares imprescindíveis para a gestão da situação decorrente do impacto causado pelos fenómenos climáticos sobre os meios de sustento das famílias, sobretudo na vertente da tomada de decisões e da comunicação.

  Bens a favor das comunidades contam com a distribuição de sementes de ciclo breve

As boas experiências das cinco províncias e o esforço local para aumentar a produção e a produtividade da agricultura familiar é o melhor garante dos cinco pilares da segurança alimentar e nutricional nomeadamente, o acesso, a disponibilidade, o consumo/utilização e a estabilidade dos alimentos que garantem uma segurança alimentar e nutricional sustentável, apoiado por um sistema de informação apropriado e operacional.
No projecto está incluída a reabilitação de pontos de água e de pastos e na gestão dos mesmos através das escolas de campo, onde recebem aulas de refrescamento sobre agrícola e zootécnicas e na saúde animal.
Através da distribuição de sementes de ciclo breve, de equipamentos agrícolas e kits de medicamentos veterinários, os membros das comunidades tornam-se independentes para garantir a própria segurança alimentar. O projecto actua nos municípios de Curoca (Cunene), Gambos (Huíla) e Virei e Tômbwa (Namibe).
O projecto da FAO, dentro deste programa de emergência, vai expandir-se para diferentes áreas, sendo abrangidos pelo projecto todos os municípios do Cunene, com exclusão do Cuvelai, que devido às suas características climáticas sofreu muito menos os efeitos da seca.
Por intermédio destes programas, já foram adquiridos 48 reservatórios de água de 10.000 litros para serem instaladas em pequenas lavras no seio das comunidades, 30 motobombas e os respectivos sistemas de rega gota a gota.

  Infra-estruturas de base em vários municípios estão a ser construídas e reabilitadas

O governador provincial da Huíla, João Marcelino Tyipinge, disse que as infra-estruturas de água que estão a ser construídas no município dos Gambos constam dos programas criados pelo Executivo.
O Governo Provincial da Huíla e o Executivo dispõem de um projecto de aproveitamento de água a partir do rio Caculuvar e iniciou-se a construção de uma barragem hidrográfica para acudir às populações da região, que têm sido afectadas pela seca.
 Está ainda projectada a criação de uma barragem na localidade de Nonkombo, Gambos, para minimizar os efeitos da seca.
O Executivo está empenhado na municipalização de várias acções, incluindo o Programa Municipal Integrado de Desenvolvimento Rural de Combate à Fome e à Pobreza (PMIDRCFP), que está a levar recursos e apoio directo às famílias no meio rural.
O Programa sobre Cuidados Primários de Saúde é outro exemplo. O Ministério da Família e Promoção da Mulher está a implementar alguns projectos que atendem fundamentalmente a mulher rural.
O Ministério da Saúde, por intermédio da Secção Nutricional, está a trabalhar na vertente de prevenção e tratamento da malnutrição aguda, em colaboração com os ministérios da Agricultura e das Pescas, para a produção de sal iodizado e desenvolvem alguns projectos para aumentar a captura de peixe e introduzir a pesca continental como forma de assegurar alimentação às populações do interior do país. Tudo isto são ganhos  evidentes que o Executivo angolano está a desenvolver em prol do bem-estar das populações.

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