Reportagem

Psiquiatria de Luanda tem registado muitos casos de depressão pós-parto

Ana Paulo

O Hospital Psiquiátrico de Luanda registou em 2018 cerca de 60 casos de depressão, dos quais 30 por cento em mulheres diagnosticadas com depressão pós-parto, provenientes de várias unidades sanitárias da capital, disse o director clínico e chefe do Banco de Urgência, Jaime Sampaio.

Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

No mesmo período, se-gundo dados do “Relatório Médico 2018/2019” do Hospital Psiquiátrico de Luanda, em Abril de 2018, foram registados em consultas externas 68 casos de depressão pós-parto em mulheres com idades entre os 15 e 24 anos.

Em Abril de 2019, o relatório indica uma baixa nos resultados com cerca de 53 casos em mulheres da mesma faixa etária.
Em declarações ao Jornal de Angola, o director clínico e chefe do Banco de Urgência da Psiquiatria de Luanda, Jaime Sampaio, disse que, dos 100 casos registados, em média, 70 são provenientes das maternidades Lucrécia Paim, Augusto Ngangula, Cajueiros, Samba e Capalanca.
Semanalmente, o Hospital Psiquiátrico de Luanda recebe da Maternidade Lucrécia Paim, em média, cinco a seis casos de mulheres com depressão depois do parto e da Maternidade Augusto Ngangula, três a quatro casos.
O Banco de Urgência da Psiquiatria, segundo o director clínico atende por dia 100 a 115 pacientes, sendo metade mulheres diagnosticadas com quadro depressivo depois do parto, provenientes de várias maternidades, enquanto, mensalmente, são atendidos de 25 a 30 casos em consulta ambulatória, vindos directamente de casa sem referência de hospitais.
Jaime Sampaio explicou que as mulheres que procuram os serviços da Psiquiatria de Luanda, metade com transtorno depressivo em estado moderado, grave e profundo, que requer medicação, acaba por internar.
“Nas consultas, recebemos mulheres com depressão pós-parto, mas já em situação tardia, com outras patologias mentais, sintomas adquiridos depois de um mês de parto”, frisou Jaime Sampaio, que explicou que o sintoma é relacionado com o tempo de gravidez ou fase pós-parto em que a mulher sofre modificações físicas e psíquicas.

Transtornos mentais
Segundo o psiquiatra Jaime Sampaio, todo o indivíduo com historial de casos depressivos no seio familiar, até a terceira geração, pode ser afectado pela patologia no decorrer da sua vida.
Os transtornos mentais derivam também de problemas de ansiedade, considerados alterações neuróticas, quando um indivíduo apresenta reacções excessiva da mente e do sistema nervoso aos distúrbios físicos.
“No caso de ansiedade, as mulheres aparecem nos nossos serviços com fobia e obsessões, sintomas vindos de um quadro depressivo nas duas primeiras semanas, e que se banalizou”, explicou o especialista.
Ainda durante o diagnóstico clínico, na maior parte das vezes, os médicos encontram o denominado “baby blue”, em português “bebé azul”, uma fase em que a mulher, em quadro depressivo, entra numa tristeza profunda, com falta de interesse por actividades rotineiras, perda ou excesso de sono, alimentação excessiva, perda de apetite, ideias suicidas, falta de sentimentos ou ideias de inutilidade.
Outras mulheres, segundo o médico psiquiátrico, têm a chamada “ruminação do bebé”, fase em que as mulheres rejeitam a criança. Esta fase, segundo Jaime Sampaio, é considerada grave, isto porque, além de recusar o filho, tem também a depressão em si.

Fase de tratamento
Os pacientes em estado de depressão são tratados com antidepressivos, caso a doença esteja num estado grave, en-quanto no estado depressivo moderado, muitas mulheres ficam no hospital, mas por pouco tempo.
Quanto à recuperação, Jaime Sampaio esclareceu que depende do organismo de cada indivíduo, sendo que a depressão em si, além de ser adquirida, é também hereditária.
No fim do tratamento com fármacos, as pacientes passam para a chamada “psicoterapia”, onde são incluídos psicólogos, psicanalistas e assistentes sociais, para averiguarem as causas que levaram a que a paciente entrasse em estado depressivo.
Jaime Sampaio explicou ainda que, no caso de haver repetição dos mesmos sin-tomas, os médicos implementam a fase da “psicoterapia”, passando novamente pelos profissionais de saúde mental.
“Na sociedade, não pode haver discriminação, porque o indivíduo depois de tratado tem de voltar à vida normal, fazer exercícios, ac-tividades religiosa e cultural, entre outras.”
No caso de rejeição familiar, o especialista aconselha a classe feminina, quando estiver em presença de conflitos pisco-emocionais, se tiver condições, a criar habilidades psico-mentais, para não ser afectada.

Homens propensos a contrair a doença

Dos 25 casos de mulheres detectadas com depressão pós-parto, um terço dos homens que acompanham as esposas no Hospital Psiquiátrico de Luanda manifestam também os sintomas.
O homens que entram em depressão pós-parto são aqueles que vivem maritalmente, casados, ou aqueles mais ve-lhos que desejam que a es-posa tenha mais um filho mas, devido à idade já avançada, esta nega.
Outras situações que têm estado na base são as condições sociais, como habitação, finanças, economia, sustentabilidade do trabalho, transporte, meio ambiente, escola que também gera gastos, todos eles elementos que geram depressão, bem como situações culturais, onde muitos homens são influenciados por familiares a terem mais filhos.
Em cada mulher citada, há um caso de depressão pós-parto do homem, principalmente, nas consultas externas. A vinda de uma criança na família gera modificações positivas e negativas na vida do casal. Os resultados negativos que atingem as mu-lheres transferem também ao marido uma acção psico-emocional que resulta numa depressão.
Muitas vezes, a depressão pós-parto, por transferência do parceiro, chega a ser mais complexa porque o homem se sente culpado pela depressão da mulher. Jaime Sampaio, como especialista na matéria, disse que os homens são vítimas porque a ansiedade da esposa em concretizar a maternidade faz com que esta perca interesse pelo esposo e a atenção dada anteriormente já não é a mesma.
Jaime Sampaio explicou que, quando acontecem casos do género, os homens recorrem ao consumo do álcool e perdem também o interesse pela esposa e pelo trabalho.”Ao entregarem-se à vida do alcoolismo, muitos deles cometem suicídio”, lamentou
Contudo, o psiquiatra Jaime Sampaio defende que, durante o tratamento da mulher, isto é, na fase da psicoterapia, o casal e os filhos já crescidos devem estar presentes, bem como todos aqueles membros que vivem ao redor.
“Devemos ter maior controlo com os esposos, porque, quando ficam também ansiosos, o caso é mais complicado do que os dos pacientes internados”, alertou Jai-
me Sampaio, que acrescentou que os casos de depressão pós-parto são mais fre-
quentes em mulheres em fase de adolescência até aos 35 anos, por ser a idade jovem da maternidade.
Por um lado, a médica obstetra e ginecologista Eurídice Jongolola disse que o que origina a depressão pós-parto no homem são as responsabilidades paternais, sendo que, acrescentou, a paternidade pela primeira vez aumenta o medo e a dúvida, do indiví-duo, de ser ou não capaz de educar o filho.
Por outro lado, o abandono das esposas por darem mais atenção aos bebés desperta o sentimento de ciúme e transtornos, que origina a depressão em si. Daí que, defendeu Eurídice Chongolola, não é apenas o parto da mulher, a desregulação intensa hormonal que fazem com que o esposo se deprima, como também a falta de apoio familiar.
“Muitos pais desprezam os filhos, ao saberem que engravidaram cedo.” Para a médica, esta decisão não é a correcta, porque contribui significativamente para a origem de casos depressivos a todos os níveis”, alertou

30% de mulheres em risco na Maternidade Lucrécia Paim

Dos 70 partos registados por dia na Maternidade Lucrécia Paim, em Luanda, 50 são realizados de forma fisiológica, a normal, enquanto os restantes são por cesarianas, dos quais 30 por cento das mulheres correm o risco de adquirirem depressão pós-parto, disse a médica obstetra e ginecologista, Eunice Chongolola. 

Em alguns partos, ocorrem as psicoses, as chamadas perturbações da mente, que confundem a paciente do que é real, disse a médica justificando tratar-se de uma “desregulação intensa hormonal”, que as mulheres adquirem depois do fim da gravidez.
Em 21 casos que passam pela área de Psicologia da Maternidade Lucrécia Paim,12 apresentam episódios depressivos e alguns em estado psicótico, considerados como depressão grave.
A psicóloga clínica da Maternidade Lucrécia Paim, Albertina dos Santos, disse que os casos de quadro psicóticos são raros e que numa escala de um a 10, apenas três são detectados.
Durante as consultas externas, muitas parturientes e gestantes, por apresentarem transtornos ou alterações comportamentais que levam aos sintomas de depressão, são logo encaminhadas para a área de Psicologia, para o devido acompanhamento.
As pacientes diagnosticadas com depressão pós-parto apresentam comportamentos como o isolamento, falta de auto-estima, baixo peso, tristeza, choro constante, falta de apetite, descuido pessoal, insónias, sinais estes que levam a ideias suicidas.

Causas da depressão
Os factores que levam a paciente a apresentar quadros depressivos são as condições físicas, sociais, familiares, económicas, consideradas como os principais influenciadores da doença.
Albertina dos Santos diz que os conflitos familiares e conjugais lideram a lista de casos de depressão pós-parto, seguidos do abandono por parte do parceiro e o não apoio familiar. As primigestas, pacientes que dão à luz pela primeira vez, quando estão em trabalho de parto, se for por via baixa melhor, porque quando não conseguem, ao serem transferidas para o bloco operatório, criam transtornos, o que não é bom, reconheceu a psicóloga.

Gravidez psicológica também perturba

A gravidez psicológica é considerada também como um dos agentes influenciadores da depressão pós-parto. No decorrer da entrevista, com a psicóloga clínica Albertina dos Santos, o Jornal de Angola presenciou a chegada de um processo, acompanhado por um médico, entregue àquela especialista.
O processo era de uma paciente de 35 anos, que enfrentava uma gravidez psicológica de sete meses. Os exames deram negativo, confirmando que não existe feto nenhum no ventre da mulher, o que preocupou os médicos da Maternidade Lucrécia Paim.
Questionada se a gravidez psicológica desencadeia uma depressão pós-parto, Albertina dos Santos respondeu de forma positiva, dizendo que a situação daquela pa-ciente pode ser um dos principais casos da depressão adquirida durante a gestão psicológica.
“A paciente diz ter sete meses de gravidez, mas os exames médicos de “ecografia obstétrica” deram resultado negativo, logo, indicam que a cidadã não é portadora de uma gravidez normal, mais sim imaginária, considerada psicológica”, esclareceu a especialista.
Para Albertina dos Santos, o caso de gravidez psicológica chega a ser mais preocupante que outros de depressão, porque, na mente da paciente, consta que daqui a uns meses dará à luz um bebé, o que não acontece na realidade.
O desejo ou ansiedade da mulher em ser mãe pela primeira vez, as cobranças familiares, os transtornos conjugais, a incapacidade de engravidar, a mudança de parceiros, a incompatibilidade de génese e a rivalidade são as principais causas da gravidez psicológica.
Segundo Albertina dos Santos, quando se está diante deste tipo de caso, o problema é considerado grave, porque além da paciente sentir as contracções e dor de parto, também é capaz de roubar o bebé de uma outra parturiente, que teve o parto com sucesso ou mesmo o filho de uma vizinha.
Este processo de tratamento, explicou a especialista em Psicologia, chega a ser o mais longo, daí que, para prevenir e impedir que a paciente roube uma criança, os especialistas entram em contacto com os familiares para dar a conhecer o que realmente está acontecer e o que virá a seguir com estes transtornos.
“Quando os familiares se aperceberem que a irmã, mãe ou filha que tem problemas de gravidez psicológica, chegou a casa com uma criança, devem imediatamente alertar as autoridades, para devolver o bebé aos verdadeiros pais e a paciente ser encaminhada ao Hospital Psiquiátrico de Luanda.”
Na Maternidade Lucrécia Paim, trabalham seis psicólogos, sendo três no período da manhã e três à tarde. Para a médica, este número não satisfaz as necessidades, mas, com o desempenho dos profissionais da área, conseguem equilibrar o trabalho.

Drogas ilícitas
O consumo excessivo de bebidas alcoólicas é também considerado hoje um dos factores que influenciam na depressão antes, durante a gravidez e depois do parto, disse a médica gino-obstreta da Maternidade dos Cajueiros.
Janina Baptista disse que muitas mulheres que consomem bebidas alcoólicas, dificilmente fazem as consultas pré-natal, outras recorrem às igrejas onde internam, o que faz com que muitos casos não cheguem ao conhecimento de instituições hospitalares.
Para Janina Baptista, o comportamento negativo de algumas mulheres tem dificultado o trabalho dos médicos, porque quando procuram os serviços ambulatórios e entram em trabalho de parto, os especialistas detectam, de forma tardia, os sintomas de depressão adquiridos du-rante a gravidez.
A Maternidade dos Cajueiros realiza em média 50 partos por dia. Em 2018, registou apenas dois casos e, durante o terceiro trimestre do corrente ano, ainda não foi diagnosticado nenhum.


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