Reportagem

Qatar, um paraíso entre o deserto e o mar

Fonseca Bengui | Doha

Oficialmente conhecido como Estado do Qatar, o primeiro país do Médio Oriente que vai acolher o Mundial de Futebol, em 2022, é uma península no Golfo Pérsico, com extensão de 11.521 quilómetros quadrados e cerca de 2.7 milhões de habitantes, a maioria deles imigrantes de diversas nacionalidades.

Fotografia: Shutterstock

Fundado em 1878, o Qatar foi, até 1971, protectorado britânico. Tem as maiores reservas mundiais de gás e petróleo. É dirigido por uma monarquia, tal como a maioria dos emirados da região do Golfo Pérsico. Tem como vizinhos a gigante Arábia Saudita (único com o qual está ligado por terra), Bahrein, Emirados Árabes Unidos e com o Irão.

Os primeiros três países, mais o Egipto, cortaram as relações com o Qatar, em Junho de 2017, e impuseram-lhe um bloqueio aéreo, terrestre e marítimo, sob pretexto de apoiar organizações terroristas. A situação faz crescer, ainda mais, as rivalidades com esses países.
O Qatar está em segundo lugar, depois dos Emirados Árabes Unidos, na lista dos países com mais estrangeiros do que nacionais. Até 2017, representavam 75, 5 por cento da população, segundo estudo do Departamento dos Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas, citado pela BBC. Nos Emirados Árabes, a percentagem era de 88,4 por cento (8,09 milhões dos 9,1 milhões de habitantes).
Entre os imigrantes, a maioria são do Sudeste Asiático, principalmente da Índia, Paquistão e Bangladesh, mas também da Malásia, Indonésia, Filipinas, Nepal e outros. São estes que atendem nos estabelecimentos comerciais, restaurantes, hotéis, táxis e também a principal força de trabalho das obras em curso, fruto dos compromissos do Qatar com a FIFA, para a organização do Mundial de 2022.
Por esta razão, Doha, a capital do Qatar, é, hoje, um “canteiro de obras”. Além dos novos estádios por concluir, está em curso a construção de túneis, viadutos, vias rápidas, alargamento de estradas, hotéis e outras infra-estruturas, que se vão juntar às emblemáticas torres que disputam as atenções no centro da cidade, cada uma com o seu estilo e feitio. Mesmo ao lado do hotel onde estão alojados os jornalistas angolanos, que se encontram em Doha para a cobertura da visita do Presidente da República, João Lourenço, pode ser observado um estaleiro com movimento diário de máquinas e homens a prepararem areia, camiões-cisternas e basculantes, blocos e outros materiais usados na construção civil e obras públicas.
A partir das 5 horas da manhã, nota-se a concentração dos trabalhadores das obras em alguns pontos, de onde são recolhidos por autocarros e mini-autocarros para os locais das obras. Fruto dessas empreitadas, o tráfego em vários pontos da cidade sofre algumas limitações, devido ao estreitamento das faixas de rodagem. A interdição de uma rua é sempre antecedida de anúncios divulgados nos jornais e outros meios de comunicação.
Na quinta-feira, foi anunciada, na imprensa local, a abertura, hoje, de um novo túnel de 2,7 quilómetros, com quatro linhas de trânsito em cada sentido. Quando for concluída, no segundo semestre de 2020, a via permitirá a circulação de mais de 16 mil veículos por hora.

 

Instrumentos de afirmação do país

Na terça-feira, o país vibrou com o lançamento do emblema do Mundial de Futebol de 2022, um dos maiores motivos de orgulho dos qataris, que consideram ter sido mais um passo decisivo neste processo, não obstante as dificuldades resultantes do embargo imposto pelos vizinhos.
Num editorial, o jornal estatal de língua inglesa “A Península” considerou que o lançamento do emblema é visto pela FIFA e pelo comité organizador do Qatar como um “importante marco” para os dois organismos. Segundo a publicação, o comité organizador concluiu mais de 75 por cento dos preparativos para o Campeonato do Mundo, incluindo dois estádios, Khalifa International Stadium e, mais recentemente, o Al Janoub Stadium. O terceiro e o quarto, Al Bait e Al Rayyan, vão ser concluídos em Dezembro.
“Desde 2010, data em que o país foi escolhido pela FIFA, vários eventos foram realizados e infra-estruturas construídas. Autoestradas, metro a ligar as cidades com três linhas e 37 estações estão concluídas”, refere, acrescentando que a chegada do Campeonato do Mundo tem ajudado a acelerar as taxas de desenvolvimento do país. A mesma publicação dedicou quase metade da edição de quarta-feira ao lançamento do emblema, com entrevistas a dirigentes, cidadãos locais e representantes do corpo diplomático a felicitarem o Qatar por ter chegado a esta fase.
Para o ministro da Cultura, Salah bin Ghanem Al Ali, este passo confirma “o notável sucesso que o Qatar alcançou em todos os sectores, incluindo o desporto”. O ministro expressou orgulho pelo simbolismo do emblema, que liga a identidade qatari com as culturas do mundo e destaca a autenticidade da cultura árabe através da elegância e vitalidade da sua caligrafia.
De acordo com a FIFA, o emblema combina elementos da cultura árabe com referências ao futebol. As curvas no emblema representam as ondulações das dunas do deserto e o laço inteiro retrata, quer o número oito - referência aos oito estádios que vão acolher os jogos, quer o símbolo do infinito, reflectindo a natureza interligada do evento”.
No quadro dos esforços de afirmação internacional e atracção de investidores e turistas, o Qatar tem apostado em obras emblemáticas, com o concurso de renomados arquitectos estrangeiros. O Museu Nacional do Qatar, na marginal de Doha, projectado pelo arquitecto francês Jean Nouvel, é exemplo disso. Na sua inauguração, em Março deste ano, estiveram presentes estrelas do cinema e da moda e figuras como o ex-Presidente francês Nicolas Sarkozy e esposa. Trata-se de uma estrutura moderna, imponente, admirada pela originalidade arquitectónica. Retrata a História e herança cultural do Qatar, das origens até aos dias de hoje, num espaço de oito mil metros quadrados.
Outro exemplo de afirmação internacional do país é a companhia aérea, Qatar Airways, que tem estado a ocupar, nos últimos anos, o lugar de “melhor companhia aérea” nos World Airline Awards. Apesar do embargo dos vizinhos, a companhia voa para mais de 150 destinos no mundo.
A rede de televisão Aljazeera, criada em 1996, é outro instrumento de afirmação da pequena nação do Golfo Pérsico e está, também, entre os motivos de divergência com os vizinhos, sobretudo a Arábia Saudita, que inclui o encerramento desta estação como uma das exigências para a normalização das relações. Com mais de três mil funcionários no Qatar e ao redor do mundo, é a estação de maior audiência no espaço árabe.

Cidade da Educação
A Fundação Qatar, uma organização que congrega mais de 50 entidades, que trabalham nos domínios da educação, pesquisa e desenvolvimento comunitário, é outra iniciativa que desperta a atenção da comunidade internacional. Criada em 1995, a Fundação Qatar tem como principal atracção a Cidade da Educação, que alberga filiais de algumas das mais prestigiadas universidades do mundo, como a Northwestern University, Georgetown University, Weill Cornell Medicine, Carnegie Mellon University, Texas AeM University, Virginia Commonwelth University, HEC Paris, entre outras.
Num ambiente desértico, como no Qatar, a temperatura mínima raramente está abaixo dos 30 graus centígrados e a máxima acima dos 40. Por essa razão, o Mundial de Futebol de 2022 foi transferido dos habituais meses de Verão no Ocidente (Junho e Julho) para Novembro e Dezembro (21 de Novembro a 18 de Dezembro).
No Qatar, como na maioria dos países da região, o Islão é a religião oficial, cujas leis e costumes seguem a tradição islâmica. O país tem como língua oficial o árabe, mas o Inglês é amplamente utilizado como língua franca.
Como resultado do embargo a que foi submetido pelos países vizinhos, o Qatar tem procurado reforçar as relações económicas com outras nações, não só no sentido da afirmação perante esses vizinhos, como também de diversificar as fontes de receita fora do sector petrolífero.
O incentivo ao investimento privado tem sido uma das apostas para a diversificação da economia, com foco no crescimento do turismo, logística e informação e comunicações.


Curiosidade sobre o País

A seguir, algumas curiosidades sobre o Qatar, o país mais rico do mundo, que, além deste aspecto positivo, reúne muitos outros privilégios.

O mais rico
O Qatar é a nação mais rica do Mundo. O seu rendimento per capita é de 127.600 dólares americanos (dados de 2017), de acordo com o Fundo Monetário Internacional. É um pouco superior ao do Luxemburgo, que surge em segundo lugar, com 104.003 dólares americanos.

A melhor companhia aérea
A Qatar Airways superou a Emirates para reivindicar o título de “melhor companhia aérea” nos World Airline Awards, continuando a liderar a lista até ao presente. Também tem mais emissões de CO2 per capita do que qualquer outro país. São 35,73 toneladas por ano, o que o coloca logo à frente de Curaçao e Letónia.

O mais seguro
O Qatar é o país onde um desastre natural é menos propício de acontecer. O mais perigoso? Vanuatu, seguido por Tonga e Filipinas. Não há colinas ou montanhas. No Qatar, a elevação média do país é de apenas 28 metros. A Torre Aspire é a mais alta do Qatar. Fica na capital, Doha, e tem um terraço de observação no 62º andar. Os homens são, em quantidade, muito mais do que as mulheres. Há dois para uma. Por quê? Porque é uma terra construída por imigrantes, cuja maioria é composta por jovens e homens.
Todos moram na cidade. É também um dos lugares mais urbanizados do mundo, com 99% dos residentes a morar na cidade.

Sem árvores
Apenas palmeiras estão plantadas pelas cidades. Existem quatro países sem florestas, de acordo com a definição do Banco Mundial: São Marinho, Qatar, Gronelândia e Omã. O país lançou, no início deste ano, uma campanha para a plantação de um milhão de árvores.

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