Reportagem

Quando a chuva secou o gado dormiu

Miguel Gomes /Ondjiva

Não chove há três anos. Na Ombala yo Mungu, município de Ombadja, a 100 quilómetros de Ondjiva, capital da província do Cunene, ainda não se morre à fome, mas daqui a seis meses, mais coisa, menos coisa, a realidade será mesmo dramática. João Lourenço visita hoje a comuna. É inédito.

Fotografia: Dr

No terreno vai encontrar bois com a costeleta marcada em três linhas, sinal de pouco capim e quase nenhuma água, a serem desmanchados no chão. Há que aproveitar o que já não tem conserto para secar em tiras, ao sol, e depois alimentar famílias inteiras com um pacote de massa embalado em Luanda e comprado na cantina à beira da poeira.
Não há gente a morrer à fome, mas há pessoas que não sabem bem o que vão comer daqui a uma horita ou duas. Escolas também não há - já lá vamos - e hospitais muito menos. A solução pode estar à beira de uma caminhada de quatro horas a pé ou duas horas de motorizada. Até à Namíbia.
No curral da senhora Vitória Linusa, habitante da Ombala yo Mungu, morrem dois a três animais por dia. Ao lado e de outros homens e mulheres que falam em língua local - português não sabem e também ninguém lhes ensinou - está um boi desmanchado numa poça de sangue e fezes, facas espalhadas no chão, uma orelha para ali e uma bola de carne fresca pendurada no ramo da árvore.
“Estamos a passar por muitas dificuldades, praticamente vivemos das cacimbas... Para comer, às vezes somos obrigados a vender um cabrito para depois comprar alguma coisa na cantina. Nos últimos cinco anos não recebemos apoios do Governo em termos de alimentação”, contou.
A insegurança alimentar é uma realidade profunda e as consequências são pesadas. Sem uma alimentação rica em nutrientes, todo o desenvolvimento pessoal e cognitivo é afectado. Quando se pergunta se a comunidade tem acesso a fruta, por exemplo, a resposta vem em forma de gargalhada e dedos apontados ao céu. Só frutos secos, tirados das árvores. O resto é miragem. Nem em Ondjiva é fácil encontrar fruta.
A poucos metros da árvore com sombra, do boi desmanchado por falta de força para encarar a transumância e da Vitória Linusa, está um buraco profundo. Lá de baixo sobe uma voz imperceptível e barulhos típicos de gente à procura de um bocado de sorte. A sorte é sinónimo de água.
Ao nível do chão, alguns jovens apertam uma corda grossa a um balde e retiram carradas de barro. Uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes. Nada. Apenas barro.
“Hoje não estamos a conseguir, amanhã tentamos de novo”, disse Shiling, com dois centímetros de cabelo e as patilhas rapadas em triângulo por cima da orelha.
Shiling tem apenas a terceira classe. É dos mais escolarizados da aldeia. A jovem Penehambeko Ndehapo, com muito esforço físico, vai puxando também alguns baldes de barro do fundo da cacimba. Quase todos arranjam - ou inventam - alguma actividade que possa render alguns kwanzas.
“De vez em quando consigo vender alguma aguardente na Namíbia”, contou Penehambeko Ndehapo.
Shiling vai-se queixando da vida quando lembra que sem documentos pessoais as perspectivas são estreitas. “Nós estamos habituados à fome e à seca. É cíclico. Mas gostava muito de ter o Bilhete de Identidade, porque assim seria possível encontrar um trabalho fora da aldeia”, explicou.
O homem que estava na cacimba, à procura de algo que se pareça com água, no fundo de um buraco de muitos metros, regressa ao nível do chão. Está empoeirado, naturalmente, cansado e com a boca seca.

A menina que fala inglês quase perfeito

A província do Cunene é habitada por diversos grupos étnicos e a sua história entrelaça-se com a região norte da Namíbia.
A zona foi palco de fenómenos geológicos incríveis ao longo de milhões de anos e de conflitos inusitados nos últimos séculos. A própria demarcação da fronteira entre Angola e a Namíbia não tem sequer 100 anos (foi apenas finalizada em 1928, depois de um acordo entre portugueses e ingleses sul-africanos que ainda envolveu a construção da barragem do Ruacaná).
Ali se envolveram em operações militares e migrações históricas kwanhamas, kuvale, himbas, hereros, portugueses, alemães, bóeres e ingleses, entre muitos outros, guerras mundiais e alianças de conveniência.
Até hoje, Ombadja está mais na zona de influência de Windhoek do que propriamente de Luanda.
Muitas famílias registam gerações e gerações de homens que emigravam para o contrato nas minas da África do Sul. Houve gente que chegou a trabalhar em Joanesburgo durante seis meses para depois regressar à aldeia mais seis meses e no fim deste período procurar outro contrato.
Muitas roupas têm a bandeira da Namíbia, palavras em inglês ligadas às minas de ouro e incentivos à participação nas eleições daquele país. O fardo ocidentalizado mistura-se, na parte inferior do corpo das mulheres, com os padrões tradicionais.
O sekulu chama-se Matias e começa logo por avisar que “a situação é crítica”.
“Já estamos a usar a reserva de massango que deveria chegar até ao próximo ano, porque na última época não choveu nada”, lamentou o líder tradicional.
Matias é a única pessoa da aldeia e da própria família com Bilhete de Identidade.
“Noutros anos tivemos seca, sim, só que ainda chovia um pouco, o que ajudava a remediar a situação. Este ano nem isso aconteceu”, repetiu o sekulu.
Os animais saudáveis e com força para caminhar longas distâncias já foram encaminhados para a transumância, estratégia ancestral para fintar a falta de água. Mas a seca tem sido mais severa do que o habitual nos últimos ciclos (normalmente de três anos, seguidos de chuvas fortes que inundam as chanas).
Por esta altura, as melhores manadas já estão na região do Cuvelai (Calonga), ainda no Cunene, ou na Matala (Mulondo), já na província da Huíla. Por trás do chefe Matias estão vinte pessoas, talvez, entre crianças, adolescentes, funcionários da administração comunal, adultos e adultas e mais-velhos. Uma boa parte está a rodear uma panela ao lume. Quando o petisco ficou pronto quase todos se debruçaram e comeram com as mãos.
De fato olímpico azul-escuro e gorro na cabeça, apesar do sol estridente e da ausência de nuvens (nem uma), está Emilia Sylvester, de 25 anos. Fala um inglês quase perfeito devido aos 16 anos que passou na Namíbia (entre 1997 e 2013), onde atingiu a décima classe. É mãe de gémeos. “Voltei para a aldeia porque sou daqui. Eu nasci aqui, mas a principal razão para o regresso foi mesmo a falta de documentos. Este problema não me permitiu continuar os estudos na Namíbia. Se eu nasci em Angola não consigo tratar do Bilhete de Identidade namibiano. Sem documentos, como posso fazer?”, questionou.
Nos últimos dias, o ministro da Justiça, Francisco Queiroz, revelou que há cerca de 10 milhões de angolanos sem identificação pessoal. Um em cada três cidadãos não está registado e, por isso, afastado dos seus direitos e deveres. A realidade pode até ser mais dramática.

600 animais mortos pela seca

Na aldeia há uma escola com dois professores, o que significa que apenas leccionam a iniciação e a primeira classe. O orçamento local não comporta outros investimentos no sector da educação. Muitas famílias preferem enviar as crianças para a Namíbia, onde há quase sempre um familiar e o sistema de ensino tem outras qualidades.
Portásio África é administrador da comuna Ombala yo Mungu, município de Ombadja, há quinze anos. Antes ainda foi comissário político das FAPLA, onde chegou a ser dirigido por João Lourenço.
Confirma a surpresa com que a região tem encarado as agruras de uma estação chuvosa sem um pingo de água a deslizar do céu. “Acreditamos que ninguém vai morrer à fome, apesar de não ser possível cultivar nestas condições. Já os animais que ficaram aqui não devem conseguir escapar. Os mais saudáveis e valiosos seguiram para a transumância”, disse Portásio África, que é natural da comuna.
Reconhece que na Ombala yo Mungu apenas um dos furos de água está em funcionamento, ao mesmo tempo que admite que esta realidade potencia o surgimento de várias doenças. “Nesta fase, para encontrar água é necessário furar abaixo dos 100 metros de profundidade”, disse o administrador comunal.
Com cerca de 60 mil habitantes e baixo nível de escolaridade, a administração desdobra-se em medidas paliativas. Estão a ser instaladas as bases para a colocação de tanques de plástico de 5 a 10 mil litros. Além disso, uma cisterna que distribui água percorre as dispersas concentrações de pessoas. É comum ver bidons e jerrycans vazios ao longo das picadas, à espera do abastecimento.
A grande esperança está agora na aplicação de 200 milhões de dólares em duas barragens e outras medidas de fundo para irrigar os solos ressequidos e amarelos. Muitas árvores têm sido cortadas para fazer lenha. O risco de desastre ambiental também é elevado.
“Ao todo já perdemos cerca de 600 cabeças de gado nos últimos meses”, afirmou Portásio África. Sinónimo de riqueza pessoal e familiar, o dirigente afirma não saber bem quantas cabeças de gado (suíno, caprino ou bovino) cirandam a comuna. Neste contexto duro e inseguro, onde é complicado sonhar e pensar no futuro em segurança, o administrador apenas uma certeza: há mais gado do que pessoas. 

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