Reportagem

Quiçama é mais do que o Santuário

Augusto Cuteta

Todos os anos, no período que vai de Agosto a Setembro, há três dias em que a vila sede do município da Quiçama ganha muita popularidade, com repercussões em todo o país e noutras partes do globo, quando acolhe a peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição, também conhecida por Mamã Muxima.

Fotografia: Eduardo Pedro | Edições Novembro

Nessa altura, a zona regista uma grande movimentação de pessoas. Milhares de devotos acorrem ao santuário em busca de graças. Há quem vá pedir emprego, sorte nos negócios e progresso no trabalho, enquanto outro pede bênçãos para conseguir um bom casamento (marido ou mulher), paz e harmonia na família.

Não importa como grande parte dos peregrinos rasga vários quilómetros de estrada para atingir a vila da Muxima. Uns usam carros particulares, outros recorrem a autocarros públicos ou a táxis e alguns poucos, até, arriscam-se em motorizadas.
Para acolher esses, as autoridades administrativas do município da Quiçama, terra que já pertenceu à província do Bengo, apesar das grandes dificuldades que enfrentam, principalmente em alojamento, preparam-se como podem para receber, anualmente, entre 500 mil e um milhão de almas, que se concentram durante dias e noites para a maior peregrinação a um santuário católico em Angola.
Esse movimento de devotos não é novo. É assim desde o longínquo ano de 1833, após uma suposição de que Maria, a Virgem Santa Mãe de Jesus Cristo, terá aparecido naquele lugar. De lá para cá, a vila da Muxima passou a ser o principal lugar de devoção mariana em Angola. E, a partir de 1924, o templo de Nossa Senhora da Conceição, construído em 1599, passou a ser um monumento histórico.
Localizada a 130 quilómetros da cidade de Luanda, Muxima é uma pequena parcela de Quiçama, o município mais extenso da província de Luanda. Embora seja bastante pequena, a vila é considerada por muitos, como já se disse, “o lugar mais importante de devoção mariana” ou, ainda, “o coração da devoção angolana”.
Embora querida por milhares, a Santa da Muxima é, também, detestada por alguns. Prova disso é a destruição parcial de que foi vítima, em Outubro de 2013, por um grupo de crentes da Igreja da Arca de Noé, em plena missa dominical.
Depois disso, a estátua de Nossa Senhora foi restaurada e reposta no santuário, arrastando sempre milhares de devotos, dando corpo a um verdadeiro turismo religioso por aquelas terras banhadas pelo poderoso Kwanza, o maior rio do país.
A Quiçama é um território com outras potencialidades turísticas por explorar, que vão além do turismo religioso, que se verifica com maior intensidade durante a peregrinação ao Santuário da Muxima, considerou o seu director municipal da Acção Social, Turismo, Cultura e Juventude e Desportos, Bernardo Gessele. Por exemplo, é nessa parcela da província de Luanda, com cerca de 30 mil habitantes, em que se situa o Parque Nacional da Quiçama, que ocupa 9,969 quilómetros quadrados dos seus 12.046 quilómetros de extensão territorial. A diversidade da fauna e flora do município da Quiçama atrai, anualmente, centenas de turistas e investigadores.
O Parque Nacional da Quiçama, existente desde 1957, localiza-se a 70 quilómetros a Sul da cidade de Luanda e os seus limites naturais são os rios Kwanza e Longa, bem como o Oceano Atlântico. Tem potencial turístico enorme, por causa da sua paisagem e diversidade da fauna, além de estar próximo de Luanda, considerou o director municipal.
Faltam alguns investimentos, mas, neste momento, as infra-estruturas existentes são acolhedoras, com um roteiro turístico que permite aos turistas a observar animais e apreciar as paisagens naturais.
Além do turismo religioso e de natureza, Bernardo Gessele avançou que o município da Quiçama tem ainda o turismo sol e mar, que se realiza em grande escala a nível da comuna de Cabo Lebo.
“O aproveitamento dessas lindas praias, infelizmente, ainda não é o desejável. Aliás, temos aí uma grande parte do litoral que nem sequer é explorada, porque não há quem se interesse por investimentos a esse nível”, lamentou o responsável municipal da Acção Social, Turismo, Cultura e Juventude e Desportos.

Dois grandes rios e um mar atractivo
Um melhor aproveitamento dos rios Kwanza e Longa também devem fazer parte das prioridades do Executivo a nível da Quiçama, um município que possui igualmente praias atractivas.
Bernardo Gessele defende que os dois rios, que são navegáveis, com um investimento sério, podem servir para a prática de vários tipos de turismo fluvial, com destaque para a pesca desportiva.

Agricultura e pesca
Além de apostar nos diversos tipos de turismo e na indústria da mineração, Quiçama tem ainda um potencial agrícola e pesqueiro a ter em consideração, disse Bernardo Gessele.
Com uma população que se dedica maioritariamente à pesca e ao campo agrícola, o município de Quiçama tem dois rios e uma terra boa para a prática da agricultura, daí acreditar que estas duas áreas devem ser melhor aproveitadas no quadro do combate à fome e à pobreza.
No que diz respeito ainda ao turismo, Bernardo Gessele informou que o município não regista, por enquanto, unidades hoteleiras ilegais, dispondo apenas de oito empreendimentos hoteleiros, concentrados em Cabo Ledo, uma hospedaria e um aldeamento turístico, ambos na Muxima. “Porém, não há nenhum sinal para o turismo noutras comunas do município”, referiu.
No campo da profissão de fé, o director municipal avançou que, diferente do que se pensa, aquela localidade de Luanda acolhe outros grupos religiosos. Embora não tenha revelado dados, disse que os católicos estão entre os que constituem a maioria dos cristãos.

 Sal-gema: um produto raro no mundo

As potencialidades, em termos de recursos naturais, vão além do turismo. A Quiçama tem, igualmente, o sal-gema, um produto bastante raro a nível do mundo, encontrado num lugar que se chama “Sanda-dya-Mwngwa”, na zona do Morro do Twenze.
Antiga moeda de transacção comercial nos tempos idos (exposta, inclusive, no Museu Nacional da Moeda), juntamente com outra permuta, a makuta, o sal-gema é um produto rico que se encontra numa localidade que fica a cerca de 80 quilómetros de distância da sede municipal da Quiçama.
“O grande problema é que, infelizmente, não se consegue chegar a este local, por falta de estradas, o que impossibilita a exploração daquele lugar turístico por investidores nacionais e estrangeiros”, lamentou Bernardo Gessele.
Em função disso, o responsável municipal apelou às autoridades nacionais e provinciais para prestarem maior atenção à zona, com a construção de estradas e de infra-estruturas de restauração de pequeno porte e, mesmo de hotelaria, para a captação de receitas com o turismo.
Para Bernardo Gessele, a zona poderia atrair muitos turistas, uma vez que o local desperta curiosidade, por o sal sair da terra, numa zona muito distante do mar, um fenómeno que se dá quando o cloreto de sódio, acompanhado de cloreto de potássio e de cloreto de magnésio, se forma em jazidas na superfície terrestre.
“Esse sal, embora não iodizado, é consumido pela pequena população que vive nas cercanias daquele lugar, que é um património histórico-cultural. Mas, está abandonado, infelizmente”, salientou o director municipal.
Além do sal-gema, há um tipo de sal, de cor diferente, conhecido por ser medicinal, que existe igualmente na região, disse o responsável municipal. Este produto precisa igualmente de ser estudado e explorado, consequentemente.
Mas, quer esse sal quer outros recursos não são, até agora, explorados, por falta de vias rodoviárias que dão acesso a essa e a outras localidades. Por exemplo, disse Bernardo Gessele, o município da Quiçama tem apenas Muxima e Cabo Ledo interligadas por estrada. Com isso, as comunas de Mundombe, Demba Chio e Quixinje estão isoladas do resto da região.
Com a recuperação dos troços rodoviários, o director municipal acredita que estariam criadas as condições para o fomento do turismo, exploração e comércio de dezenas de recursos naturais existentes naquela parcela da província de Luanda.

Petróleo e outros minerais

Além do sal-gema, que existe no Morro do Twenze e consumido apenas por locais, o município da Quiçama tem outras potencialidades minerais ainda por descobrir, revelou o director municipal da Acção Social, Turismo, Cultura, Juventude e Desportos.
Bernardo Gessele referiu que muitos produtos naturais andam à espera de serem explorados e, mesmo, por descobrir, tendo em conta que a falta de acesso condiciona a materialização desses objectivos.
Entre os recursos naturais sem exploração, o responsável avançou que a comuna de Cabo Ledo tem, igualmente, um potencial petrolífero, mas “o Estado não tira ganho algum com a existência desse produto”, revelou.
Para Bernardo Gessele, o município, com os recursos naturais de que dispõe, poderia sobreviver, em grande medida, das receitas provenientes da exploração do turismo e dos minerais. Além do petróleo, Quiçama tem manganês, ferro, pedra preta, areia, burgau, entre outros.
Para se alcançar a comuna de Quissinje, que nem administração do Estado tem, mas é lá onde existe grande parte desses minerais, por falta de ligação rodoviária com a sede municipal, é preciso que se passe pela província do Cuanza-Norte, através do município de Cambambe, atravessando o rio Kwanza, em direcção ao Sul do país.
“O petróleo de Cabo Ledo e boa parte dos minerais da Quiçama, depois da Independência Nacional, nunca mais foram explorados, quando o Estado deveria aproveitá-los para daí sacar grandes receitas para os seus cofres”, acentuou o responsável municipal.

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