Reportagem

Quiçama quer recuperar as vias para abrir caminho ao crescimento

José Bule

Na Quiçama, falta tudo. As vias de acesso ao interior do município, que foi transferido do Bengo para Luanda, no seguimento da reforma administrativa das duas províncias, em 2011 (Lei 29/11, de 1 de Setembro), estão muito degradadas e condicionam os serviços de Saúde e Educação e a distribuição de energia eléctrica e de água potável à população residente nas comunas do Demba - Chio, Mumbondo e Quixinge, onde os cidadãos apresentam níveis gravíssimos de pobreza.

Fotografia: DR

A maioria vive em casas construídas de pau-a-pique, uma técnica antiga que consiste no entrelaçamento de madeiras verticais fixadas no solo, com vigas horizontais, geralmente de bambu, amarradas entre si por cipós, dando origem a um grande painel perfurado que, após ter os vãos preenchidos com barro, se transforma em parede. As madeiras verticais distam uma das outras, em torno de vinte e cinco centímetros, enquanto as horizontais, que são varas finas, mantêm uma distância de mais de quinze centímetros.
Entre as poucas estruturas de cimento erguidas no Demba-Chio, estão as residências do administrador comunal e do seu adjunto, o Comando da Polícia Nacional, a Administração Comunal, o Comité do MPLA e o posto de saúde local, além das duas residências que acolhem os professores e enfermeiros destacados na localidade.
Outras estruturas, construídas no período colonial, estão destruídas (sobram algumas paredes e pilares, que podem desabar a qualquer instante). A localidade regista uma boa produção de hortícolas, mas o problema maior está no escoamento dos produtos, por falta de estradas. Demba-Chio dista cerca de 55 quilómetros da sede municipal da Quiçama. A viagem da Muxima até à comuna dura mais de três horas, por causa do elevado nível de degradação da Estrada Nacional nº 110, que atravessa a Quiçama até às localidades municipais de Cambambe, província do Cuanza-Norte, e do Porto Amboim, no Cuanza-Sul. Depois de reabilitada a via, o percurso poderá ser percorrido em menos de 30 minutos.
É difícil circular na localidade, principalmente no período chuvoso, em que nem mesmo as viaturas 4x4 resistem às dificuldades impostas pelo terreno argiloso. Se, por falta de chuvas, as viaturas produzem grandes nuvens de poeira, com as enxurradas, os pneus “engordam” com a lama.
Ao longo da via, surgem buracos enormes, crateras e ravinas, que tornam cada vez mais intransitáveis as estradas. Como solução para o problema, os populares utilizam canoas. Navegam pelo rio Kwanza, para atingirem outras zonas do município da Quiçama. O administrador do Demba-Chio, Francisco Garcia, avança ao Jornal de Angola que, diante das dificuldades, o número de pessoas a viver na comuna diminui todos os dias.
“Muitos jovens abandonam a região. A maioria desloca-se às províncias do Cuanza-Sul, em busca de melhores condições de vida”, explica o responsável, visivelmente preocupado com o “mar” de problemas que afecta o bem-estar social dos cerca de 1.336 moradores, frustrados com a inexistência de serviços capazes de promover o desenvolvimento da região (estradas, redes de telefonia móvel, água potável e energia eléctrica).
No Posto de Saúde do Demba-Chio, falta de tudo um pouco. O único enfermeiro em serviço só atende casos mínimos (malária, tosse, doenças diarreicas, infecções da pele e urinárias). Em média diária, são 10 casos, diagnosticados e tratados de acordo com os sintomas apresentados pelos pacientes. Mas há testes rápidos para quem aparece com malária.
Na aldeia Chaca, também há um posto de saúde, que está encerrado por falta de técnicos. Os doentes graves são transportados em tipóias até ao Hospital Municipal da Quiçama. O município conta com cinco ambulâncias, que, no período chuvoso, não chegam às comunas.
No Demba-Chio, há três escolas, duas do Ensino Primário e uma do I Ciclo do Ensino Secundário. A comuna é detentora de terras aráveis para a agricultura e de campos vastos para a criação de gado bovino. A população é maioritariamente camponesa, pratica a agricultura de subsistência e a pesca artesanal.
“Queremos aumentar os níveis de produção. Mas isso não será possível enquanto as vias estiverem degradadas”, disse o administrador comunal, Francisco Garcia. Acrescenta que, por falta de escoamento, alimentos agrícolas apodrecem nos campos de cultivo.
Sobre a energia e a água no Demba-Chio, Francisco Garcia disse que a localidade possui um gerador de 100 KVA para assegurar a iluminação pública da sede comunal e das residências. Mas explica que o meio não funciona há mais de cinco anos, por falta de manutenção.
A população consome água imprópria, proveniente de riachos e cacimbas. Mas existem famílias que vivem nas localidades próximas à Muxima, que beneficiam de água tratada, transportadas por camiões-cisternas da Administração Municipal da Quiçama.

Problemas para resolver paulatinamente

O novo administrador municipal da Quiçama, António Fiel “Didi”, que visitou recentemente as duas localidades (Demba – Chio e Mumbondo), disse à imprensa que os problemas do município estão devidamente identificados e que serão resolvidos paulatinamente.
“Aqui, temos problemas sérios, que já estão devidamente identificados. O primeiro e o maior problema da Quiçama é a intransitabilidade, que condiciona o funcionamento dos principais serviços sociais básicos, saúde, educação e energia e águas, que garantem o desenvolvimento da região”, disse. />António Fiel Didi reconheceu que, das cinco comunas que compõem o município, Demba - Chio, Mumbondo e Quixinge são as que apresentam problemas mais graves. O administrador acredita que serão resolvidos depois de reabilitadas as vias.
“Com estradas degradadas e falta de sinal de rede telefónica, enfermeiros e professores não aceitam trabalhar no interior do nosso município”, disse.
De acordo com o administrador, a dispersão populacional é outro problema que torna ainda mais difícil a planificação, no que tange à procura de soluções mais viáveis para garantir o bem-estar social de todos.
“Vamos continuar a trabalhar para que a água, a energia eléctrica e os serviços de saúde e da educação cheguem primeiro aos grandes centros de concentração populacional, para satisfazermos as necessidades da maioria”, sublinhou. Fiel Didi acrescentou que a dispersão populacional inviabiliza, por exemplo, a expansão dos serviços do sector da Educação e da Saúde.

A localidade
Este ano, o município tem matriculados 9.523 alunos, distribuídos em 22 escolas, das quais 16 são do Ensino Primário, cinco do I Ciclo do Ensino Secundário e apenas uma do II Ciclo. As aulas são asseguradas por um total de 252 professores. Mas a Quiçama necessita de mais 60 docentes, para melhorar o processo de ensino e aprendizagem.
Quanto à Saúde, a localidade municipal controla 21 unidades sanitárias (das quais duas de pau-a-pique), cinco delas não funcionam por falta de técnicos. No total, sete médicos, 38 enfermeiros e apenas dois técnicos de diagnóstico trabalham na Quiçama, município que tem uma superfície territorial de 12 mil e 46 quilómetros quadrados.
Quiçama tem cinco comunas (Muxima, Cabo Ledo, Demba-Chio, Mumbondo e Quixinge) e uma população estimada em mais de 30 mil habitantes, que se dedica, maioritariamente, à actividade agrícola e à pesca artesanal. A sede do município é a vila da Muxima.
O município acolhe anualmente a peregrinação para a devoção à Nossa Senhora da Conceição, também conhecida como Nossa Senhora da Muxima, uma das mais veneradas e de maior devoção popular em Angola. Este ano, a procissão decorre de 30 de Agosto a 1 de Setembro, sob o lema “Com Maria, celebremos a fé em Jesus Cristo”.
A localidade tem como principal referência o Parque Nacional da Quiçama, que ocupa uma área de 9.600 quilómetros quadrados. É limitada a Norte pelos municípios de Viana e Ícolo e Bengo, a Leste pelos municípios de Cambambe, Libolo e Quibala, a Sul pelos municípios de Quilenda e Porto Amboim e a Oeste pelo Oceano Atlântico.

Cartas ainda dão um jeito...

Uma população privada de comunicação. Nas comunas de Mumbondo, Demba-Chio, Muxima e Quixinge não há sinal da rede de telefonia móvel. Apenas as populações de Cabo Ledo e da sede municipal (Muxima) beneficiam desses serviços. Os cidadãos comunicam-se com o resto dos familiares e amigos, sobretudo os que vivem noutras localidades do país, por meio de cartas.
Com uma extensão territorial de 1.726 quilómetros quadrados, os cerca de 4.307 habitantes do Mumbondo vivem os mesmíssimos problemas que os das localidades comunais de Demba-Chio e Quixinge.
“Aqui, as vias estão piores, sobretudo, quando as chuvas começam a cair sobre a região. Ficamos isolados da sede municipal e nem mesmo as viaturas Land Cruiser, que agora chamam ‘18 províncias’ conseguem ultrapassar os obstáculos”, disse Rogério Francisco, administrador da comuna do Mumbondo. “Apenas as viaturas do tipo Kamaz e Unimog alcançam a localidade e transportam pessoas e bens”, acrescenta.
No domínio da agricultura, além da banana e do dendém (palmar), os agricultores da região cultivam variedades de tubérculos, como a batata-doce, o inhame e a mandioca. A localidade possui, também, uma grande reserva de caça.
Em Mumbondo, a população da regedoria de Caxarandanda, a mais populosa da comuna, com um total de 1.508 habitantes, clama por uma ponte sobre o rio Longa, para facilitar a travessia para o município de Porto Amboim, no Cuanza-Sul. Sem a ponte, atravessa-se o rio em canoas para se atingir aquela província. “Ainda é possível ver os vestígios da base de betão da antiga ponte, construída em 1955”, afirma o regedor Eduardo António.
A água vai deixar de ser um problema para os habitantes de Mumbondo. As obras de construção de um sistema de água, para beneficiar mais de seis mil habitantes da sede comunal e dos bairros Maria Luísa e Musseque, decorrem desde o dia 14 de Agosto, nas margens do rio Longa.
O equipamento terá uma capacidade de produção de 60 metros cúbicos por dia, que vai funcionar com base numa técnica de captação flutuante, com uma conduta adutora de 900 metros, sistema de tratamento, reservatório de água tratada de 42 metros cúbicos, reservatório elevado de distribuição de 10 metros cúbicos e uma rede de distribuição com três fontanários e respectivas lavandarias. A obra, avaliada em 40 milhões de kwanzas, terá a duração de 30 dias.

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