Reportagem

Quimera do ouro leva à morte no Chipindo

Arão Martins | Chipindo

O percurso de acesso às localidades de Tchikuele-Kapembe e Cassanda é feito com normalidade. Os espaços deixados livres pelo derrube de árvores pelos garimpeiros facilitam a circulação das viaturas.

Fotografia: Rafael Tati | Namibe | Edições Novembro

Manuel Lemos, 71 anos, que já participou no processo de exploração desse minério, é um famoso conhecedor do potencial de ouro existente no Chipindo. Ele explicou ao Jornal de Angola que, dado o seu conhecimento das áreas onde no tempo colonial foram realizados trabalhos de prospecção e exploração, chegou a servir de guia às empresas contratadas pelo Governo para reactivar os trabalhos de exploração de ouro.
“Trabalhei na exploração do ouro no tempo colonial. Quando veio a empresa Ferrangol, mostrei-lhes as áreas onde foram feitas as pesquisas e a exploração”, disse.
As localidades de Tchiliva, Kandjanda e Tchikuele, segundo Manuel Lemos, são as áreas com maior reserva de ouro no município. No passado, a lavaria estava instalada na localidade de Kandjandja. “Éramos poucos e a população não conhecia o valor do ouro", informou.
“Chipindo tem ouro, mas enfrenta dificuldades que vão desde as más vias de acesso à falta de escolas, serviços bancários e outros. Havia a promessa de várias empresas prospectoras de ajudar a abrir estradas, mas a efectivação disso é quase nula”, lamentou Manuel Lemos.

Atraídos pelo brilho

O ouro no município de Chipindo tem atraído pessoas oriundas das províncias do Uíge, Huambo, Cuando Cubango, Bié e Luanda, segundo o soba geral João Njimbo.
"Chipindo é frequentado por pessoas de todos os estratos sociais que aliciam populares com motorizadas, bebidas alcoólicas e outros bens, em troca do ouro", disse o soba, para depois pormenorizar: “A motorizada é um meio muito utilizado na circulação e transporte de pessoas aqui, onde há zonas longínquas da sede do município com pontes e vias danificadas. Entre os negociantes aliciadores estão empresários, responsáveis de denominações religiosas, autoridades tradicionais, e outros".
No Chipindo está comprovada a existência de ouro nas localidades de Tchikuele, Cassanda, Kambanda, Tchiliva, Bambi, Kapuka e Vimbumbula.
Para combater os aliciadores do garimpo, aquela autoridade tradicional defende o reforço dos efectivos da Polícia Nacional e o encorajamento das denúncias "sobre a presença de qualquer pessoa estranha".
João Njimbo reconheceu que a pobreza é o que faz os jovens aceitarem as propostas aliciantes dos forasteiros.

Acidentes acontecem

O desaparecimento de Joaquim Katumbaviongo, 38 anos, proveniente da localidade de Catata, comuna do Cuima, província do Huambo, fez deslocar à sede municipal de Chipindo Felícia Natchio (irmã) e Albina Chilombo (esposa). A morte de Katumbaviongo, segundo a irmã, viria a ser confirmada por um grupo de garimpeiros.
“Vivemos na Catata, Huambo, e o meu irmão recebeu uma chamada de amigos para ir juntar-se a eles com enxada, pá e picareta. Posto no terreno, o poço com mais de 10 metros de profundidade desabou", disse.
É frequente os garimpeiros, depois de atingirem uma profundidade considerável, utilizarem pedaços de madeira, como forma de contenção de um eventual desmoronamento de terra. É o que aconteceu no passado 19 de Abril, quando várias pessoas se encontravam no interior de um buraco a procura de ouro primário.
“Em Março já choramos um nosso irmão, que fazia parte do grupo que estava no Tchikuele, onde morreram 13 pessoas”, explicou Felícia Natchio.
A notícia da suposta morte viria a revelar-se, afinal, falsa. “Pensamos que o nosso irmão morreu no primeiro incidente e afinal de contas não. Ele estava no buraco, mas o que o salvou é o facto de ter ido a busca de água. Na altura realizamos o óbito e ele depois reapareceu vivo. Não podemos cometer o mesmo erro. Nessa segunda ocorrência queremos organizar o óbito na presença do corpo, para termos a certeza”, disse, solicitando a ajuda das autoridades para a localização do corpo do irmão, para os devidos procedimentos.
O resgate do corpo está a ser dificultado pelas chuvas e as características do terreno. "É preciso que as chuvas parem de cair, para prosseguir com as buscas", disse o administrador municipal do Chipindo, Hélder Lourenço.

Constantes mortes

O sector industrial de extracção de ouro já teve algum impacto no desenvolvimento do país. Mas, em consequência da sua quase literal destruição, o sector paralisou. Uma paralisação que já leva quase 40 anos.
A exploração de ouro no município do Chipindo retoma no decurso deste ano, pela empresa DEIMANG - Desenvolvimento de Infra-estruturas e Mineração de Angola, numa área de 67 hectares.
O administrador do Chipindo deu a conhecer a existência de outras empresas com processos de licenciamento em curso no Ministério de tutela. Perante a enorme ausência da exploração industrial regista-se a prática do garimpo por cidadãos provenientes dos quatro cantos do país. Sem quaisquer medidas de segurança, numa precariedade assustadora, a prática do garimpo tende a provocar o deslizamento de terras, o que está na origem das várias mortes.

Governo preocupado

O governo provincial da Huíla já manifestou a sua preocupação pelas mortes. Segundo o vice-governador para o sector Técnico e Infra-estruturas, Nuno Mahapi Ndala, as autoridades "vão continuar a potenciar as famílias camponesas para intensificarem a actividade agrícola e absterem-se de recorrer ao garimpo ilegal de ouro".
Chipindo, reconheceu Nuno Ndala, tem vastas áreas aráveis, propícias ao cultivo de cereais. "O incentivo à produção agrícola é nossa prioridade, no quadro do programa de combate à fome e a pobreza", disse.
Uma comisssão, integrada pelo vice-governador Nuno Ndala e o delegado do Interior e comandante provincial da Polícia Nacional, comissário Arnaldo Carlos, reuniu-se nos dias 23 e 24 de Abril com as autoridades tradicionais e membros da sociedade civil do município do Chipindo. A intenção era compreender melhor a situação e reverter definitivamente o quadro.
Nuno Ndala afirmou que apesar da sensibilização da administração municipal e dos órgãos do Ministério do Interior, "para estancar o garimpo ilegal é fundamental o trabalho", no mesmo sentido, das autoridades tradicionais.
“É fundamental a participação das autoridades tradicionais. As vidas de jovens que se estão a perder no Chipindo fazem muita falta”, disse.
Por outro lado, o vice-governador salientou que a exploração de ouro de forma coordenada e legal vai proporcionar benefício para o município do Chipindo, a província da Huíla e o país, em geral.
O comissário Arnaldo Carlos informou que além do ouro está generalizada a ideia da existência de mercúrio no Chipindo, o que acaba, muitas vezes, em burlas.
"A mineração artesanal de ouro na região está proibida", disse Arnaldo Carlos, garantindo que as autoridades vão responsabilizar todos aqueles que insistirem nessa prática, que segundo ele, constitui crime.

Actuação melhorada

As medidas de proibição e prevenção da exploração de ouro no município do Chipindo estão reforçadas com o aumento dos efectivos policiais, integrados por diversos especialistas.
Arnaldo Carlos avançou que no dia 15 de Março registou-se a morte de 13 pessoas e no dia 19 de Abril o mesmo fenómeno voltou a acontecer na localidade de Cassanda, onde morreram 3 pessoas. Uma das medidas tomadas, deu a conhecer o alto oficial da Polícia Nacional, é o reforço do policiamento nas áreas do garimpo. “Reforçamos o patrulhamento e melhoramos a sua eficácia, para que a acção policial possa inibir a actividade dos garimpeiros ilegais”, assegurou.
Mas tudo isso não basta. "É preciso o envolvimento das empresas que exploram os recursos locais, para gerar emprego e riqueza para o município", frisou o comissário Arnaldo Carlos, que foi mais longe: “a questão do ouro no Chipindo é uma ilusão e uma desinformação, em que a população está envolvida. Há pessoas que aliciam populares para efectuarem escavações, que depois resultam em mortes sem lucro”.

“Limpar” os bairros

Eram 4 horas da manhã e a Polícia Nacional levava a cabo uma mini-operação, que consistia na revista a residências dos bairros Mbu-andangui e Tchombole, nos arredores do Chipindo. Ambos os bairros são os mais populosos do Chipindo. A mini-operação especial resultou na apreensão de quantidades elevadas de cascalho de ouro, que estavam na posse do cidadão Rafael Tchindovi.
Na companhia de Tchindovi foi encontrado outro indivíduo, na posse de uma motorizada que se destinava à troca com ouro. O Jornal de An-
gola soube que os respectivos processos estão a ser instruídos, para depois serem remetidos ao tribunal.

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