Reportagem

Reabilitação Física sem dinheiro para funcionar

O Centro de Reabilitação Física do Luena é o único a nível do País, que não beneficia do Orçamento Geral do Estado, situação que acarreta grandes constrangimentos para o seu pleno funcionamento.

Fotografia: Daniel Benjamin | Edições Novembro| Moxico

A instituição foi fundada em 1996, por uma organização Não Governamental Norte Americana, VVAF, com objectivo de prestar assistência física aos deficientes, sobretudo, às vítimas de minas.

Com a retirada do financiamento por parte dos doadores internacionais, em 2005, a Organização foi obrigada a cessar o apoio, pelo que deixou a gestão do Centro sob a responsabilidade do Ministério da Saúde, através do Programa Nacional de Reabilitação Física, PNRF.

O director do Centro, Nilton Roque Amaral, disse que desde 2005 que o Centro passou para a tutela do Ministério da Saúde, devido à retirada dos expatriados e que nunca recebeu qualquer verba por parte do Ministério, para a compra de material e manutenção de equipamento. 

O Jornal de Angola soube, que já foram cumpridas as formalidades junto do Ministério da Saúde, mas até aqui, nem água vem, nem água vai, como se lamentou Nilton Roque Amaral, desgastado com as promessas que levam mais de uma década.

 

Falta de material

Por falta de material para a fabricação de próteses e de outros aparelhos ortopédicos, o Centro limita-se a fazer pequenas reparações, que não envolvam a substituição de acessórios.

Moxico é uma das províncias do país que mais sofreu os horrores da guerra, e por causa disso, deixou milhares de mutilados que precisam de algum programa de reabilitação, para atenuar o sofrimento dos cidadãos no seu dia-a-dia. A guerra terminou há 16 anos, todavia, os efeitos continuam a marcar fortemente a condição de vida de muitos angolanos, como conta Alfredo Domingos, deficiente físico de um dos membros inferiores. “A vida tornou-se difícil para mim, porque, não é fácil viver sem um dos membros do corpo”, referiu com uma certa tristeza.

Alfredo Domingos disse à reportagem do Jornal de Angola, que depois de perder a perna em 1992 ficou cinco anos a andar de muletas, até que descobriu em 1996 o Centro de Reabilitação Física do Luena, onde recebeu a primeira prótese, e posteriormente em 2004 substituiu por uma outra, que usou até ao ano passado.

 

Prótese desajustada

Com o uso e devido ao longo tempo, esta prótese ficou to-talmente desajustada e sem  alternativa de recuperação. E, devido a estes constrangimentos, infelizmente, o cidadão voltou às muletas que abandonou há 23 anos. 

Alfredo Domingos disse, que andar de muleta exige força suficiente para suportar o peso do corpo, a partir dos membros superiores, pois, devido à idade que tem, não aguenta movimentar-se com as muletas para longas distâncias. 

“Pedimos ao Governo Provincial para resolver o problema do Centro, porque a província do Moxico ou a Re-gião Leste, em geral, tem muitos deficientes que precisam de reabilitação e a condição financeira de muitos deles, ficam sem possibilidades de se deslocarem para outras províncias, a fim de serem reabilitados”, precisou.      

Apesar do Centro ter um convénio com o Centro de Reabilitação Física do Bié, onde são enviados alguns deficientes para a reabilitação, a iniciativa não é bem acolhida por alguns, porque muitos deles não dispõem de meios financeiros para suportarem os gastos de passagem e de alimentação durante o período de espera até à reabilitação. 

Com rostos carregados de tristeza e de desespero, os deficientes físicos clamam ao Executivo a adopção de medidas, para pôr fim ao sofrimento de vários cidadãos que aguardam à reabilitação.  

A falta de verba para o Centro de Reabilitação Física do Luena, na Região Leste, continua a ser excluída, em detrimento de outras regiões onde existem vários Centros em pleno funcionamento, como os casos da Huíla, Benguela, Huambo e Bié.

O sociólogo, Laurindo Pa-trício, afirmou que o Executivo no programa de governa-

ção estabeleceu mecanismos para combater as assimetrias existentes, e acrescenta que a concentração de bens e serviços numa única região, provoca ressentimentos por parte da população de uma determinada zona que não dispõe dos mesmos serviços.    

Laurindo Patrício realçou, que deve haver uma vontade política por parte do Executivo, no sentido de potenciar o Centro de meios necessários para cumprir cabalmente o objectivo por que foi criado. 

“Se uma Organização Não Governamental estrangeira assegurou o funcionamento da instituição durante dez anos, é claro que o Ministério de tutela, neste caso a Saúde, deve assumir não só os salários dos trabalhadores, como disponibilizar verbas para os custos operacionais”, precisou.  

O estabelecimento é de grande valia para a população, pois, além de assistir os deficientes que vão para a reabilitação, o Centro atende pacientes com problemas de entorses, traumatismos e de outras sequelas provocadas por AVC.  

A falta de verbas não é o único problema que o Centro enfrenta, as próprias instalações onde funcionam são estruturas adaptadas, e não oferecem condições para um Centro de Reabilitação. 

O Centro de Reabilitação do Luena existe há 23 anos, tem 50 funcionários, dos quais quatro técnicos ortopédicos, oito fisioterapeutas, entre estes, dois são técnicos médios e seis são de nível superior, e conta com 32 funcionários administrativos.      

No ano passado foram feitas 135 reparações, de entre próteses e ortoses, foram atendidas durante as sessões de massagem 11.439 pacientes, entre adultos e crianças.    


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