Reportagem

Requiem para o “herói de chuteira”

Honorato Silva

Os tempos eram de limitações financeiras e materiais. Faltava quase tudo. Mas sobrava muito amor à pátria. Foi assim que Carlos Alhinho, impulsionado por Armando Machado, colocou Angola, em 1996, pela primeira vez, na fase final da Taça de África das Nações. O país exibia com vaidade a presença do seu futebol entre os melhores do continente.

Fotografia: DR

Joaquim Alberto Silva, Quinzinho na ginga da bola, foi um dos guerreiros recrutados do Girabola e da diáspora, para tornar realidade o objectivo perseguido, sem sucesso, por uma geração de talentosos futebolistas temperados ainda no rigor do período colonial, no início da década de 1980. Ndungidi Daniel e Osvaldo Saturnino “Jesus” viraram estrelas respeitadas em várias capitais e cidades africanas, pelo muito que jogaram. Porém, não sentiram a sensação de desfilar na grande cimeira.
Tudo mudou com Machadinho e Alhinho. O dirigente federativo bateu-se pela criação das melhores condições possíveis. O seleccionador escolheu os jogadores e convocou a Comunicação Social, que, por sua vez, levou o povo atrás dos Palancas Negras. Cada repórter era um elemento a somar no balneário. Da rádio, televisão, jornal e agência, os jornalistas vestiram a camisola da Selecção Nacional.
Quinzinho, talento descoberto no Rodoviário, se-guindo-se a passagem pelo Sporting de Luanda e mu-dança para emancipação futebolística no ASA, ao lado de Paulo Tomás, o “capitão” que recebeu dos dirigentes a incumbência de indicar o caminho, foi um “herói de chuteira” de Angola.
Fica na história como o autor do primeiro golo da equipa nacional no CAN, a 15 de Janeiro de 1996, no Estádio FNB de Joanesburgo, depois de substituir Akwá, lesionado, quando o marcador registava uma desvantagem de 0-2, na estreia frente ao Egipto. Voltou a marcar na despedida da África do Sul, no empate (3-3), frente aos Camarões.
O Girabola de 1995, cujo título é até hoje reivindicado pelos aviadores, que se consideram campeões nacionais dentro do campo, sob a batuta de João Machado, apesar da consagração do Petro de Luanda, é o grande marco da carreira de Quinzinho em Angola. A conquista da Taça de Angola, no mesmo ano, e a Supertaça, na abertura da época seguinte, premiaram o bom momento do ASA, que contou em gran-de medida com a entrega e espírito combativo do ponta-de-lança, verdadeiro desassossego para os defesas adversários.

Ku-duru só com "hat-trick"

O homem é propenso a santificar o semelhante na hora da morte. Não é o caso do “Bailarino das Antas”, a quem Bobby Robson, antigo treinador do FC Porto, condicionava a dança, o emergente “kuduro”, à assinatura de um “hat-trick”. Tinha de marcar três golos, para exibir os passos ensaiados na Cidadela e seguidos com particular curiosidade pelos adeptos. Os 8 golos em 24 jogos em representação dos Dragões, nas épocas de 1995/96 e 1998/99, ficam como marca das batalhas que travou por um lugar entre campeões de créditos firmados. Requiem aeternam ao goleador.

Um sucessor à vista?

O filho, Xande Silva, avançado do West Ham United da Inglaterra, tem tudo para ser o continuador do percurso combativo de Quinzinho. O seu 1.77 metros de altura dá-lhe envergadura para disputar a bola dentro e fora da área. É indiferente que jogue por Angola ou por Portugal. O bom mesmo é que possa chegar perto ou, na melhor das hipóteses, superar a marca de 194 jogos realizados e 53 golos, sendo 25 partidas e 9 tentos apontados ao serviço dos Palancas Negras.
Na presença inédita no CAN, Carlos Alhinho apostou, no primeiro desafio, em Orlando, Amadeu, Walter (Abel Campos), Wilson, Neto, Carlos Pedro, Joni, Fua, Paulão, Akwá (Quinzinho) e Túbia.
O país chora a partida prematura do goleador, na se-gunda-feira, quando fazia o que muito amava. Exercitar o corpo, de modo a fintar os males do sedentarismo.
Aos 45 anos, o avançado possante da passada larga fez o último de muitos “sprint”. O coração perdeu para a morte, que somente interrompe a respiração, por não ter como apagar os registos de uma vida intensa, marcada pela prontidão, sempre que foi chamado a servir o país.

Feitos do avançado perduram nas memórias de Machado e ex-colegas

Armindo Pereira

Os feitos do antigo avançado, Joaquim Alberto da Silva "Quinzinho", perduram na memória do antigo presidente da Federação Angolana de Futebol (FAF) Armando Machado, que ao Jornal de Angola, lamentou a perda "prematura" do internacional angolano pelos Palancas Negras, falecido segunda-feira, na região de Alverca, em Portugal, vítima de ataque cardíaco, aos 45 anos.
O presidente honorário do órgão reitor da modalidade recordou com nostalgia, o primeiro golo da Selecção Nacional no Campeonato Africano das Nações de 1996, diante da similar do Egipto, marcado pelo então camisola 15.
"Quinzinho foi para mim um jogador exemplar e dedicado. Dava tudo que estivesse ao seu alcance para atingir os objectivos ao serviço dos Palancas Negras. Além de um bom atleta era um homem com carácter. Lamento profundamente esta perda precoce, sobretudo porque acho que ainda podia contribuir para o engrandecimento do nosso desporto", lamentou.
Fabrice Alcibíades Maieco "Akwá", antigo capitão dos Palancas Negras disse ter sido um privilégio partilhar o balneário com Quinzinho. Das "inúmeras vezes" Akwá recorda o início da carreira entre 1992/93, quando representava as cores do Sporting de Luanda e posteriormente do ASA.
"Era um jogador muito rápido, com uma força impressionante. Fizemos parte da selecção olímpica que participou no Torneio de Toulon, em França, e da selecção de honras que foi o nosso momento mais alto. Muitos não sabem mas ele tinha uma veia humorística muito acentuada. Em véspera dos jogos com as grandes selecções era onde mais se notava".
De acordo com o goleador mor dos Palancas, Quinzinho esteve à beira de ser seu companheiro no Qatar SC.
"Quando tomei conhecimento que estava no Qatar, na altura falei com os repontáveis do clube, mas, infelizmente, já tinham terminado o limite para a inscrição de estrangeiros", disse.
Paulo Alves "Paulão" declarou que, além de amigos, tinha um laço familiar com o malogrado.
"Não quis acreditar quando tomei conhecimento, foi muito duro. Partilhamos coisas boas e más, dentro e fora dos relvados. Passamos juntos a quadra festiva e falamos dos planos para o futuro. Era uma pessoa cheia de vida e nada fazia crer que partisse tão cedo", lamentou.

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