Reportagem

Reserva de ouro invadida

Arão Martins / Mupopo

O perímetro da reserva de ouro na localidade de Mupopo, comuna de Cassinga-Tchamutete, Jamba, está a ser o destino de centenas de pessoas oriundas de Luanda, Cunene, Namibe e dos municípios da província da Huíla, para a exploração de forma ilegal do ouro, como constatou a reportagem do Jornal de Angola no local.

Numa área coberta de árvores e no meio de uma multidão de jovens, sobressai o barulho das escavações de enxadas
Fotografia: Arão Martins | Edições Novembro | Mupopo

Dados da Administração Comunal de Cassinga-Tchamutete, na Jamba, indicam que a região tem uma reserva de ouro estimada em mais de 80 mil hectares. O surgimento de garimpeiros ilegais motivou o aparecimento de um mercado paralelo na localidade de Ndingombe, no Mupopo.
Manhã de domingo. O relógio marca 6h30. Numa área coberta de árvores de diversos tipos, no meio de uma multidão de jovens, sobressai o barulho de escavações de enxadas, picaretas e trituração de pedras com martelo e marreta, na zona tida como reserva de jazigo de ouro, explorada em forma de cascalho no período de prospecção.
O soba grande de Tchamutete, Luciano Hintcha, explicou à reportagem do Jornal de Angola que, por causa desta prática, o roubo e o furto de gado bovino reduziram consideravelmente. A preocupação consiste no facto de haver mortes por causa da actividade, que está a ser praticada de forma ilegal, bem como o aparecimento de cidadãos da República Democrática do Congo (RDC) de forma ilegal.
Victor Domingos, 37 anos, é serralheiro de profissão. Natural do município do Cuvelai, província do Cunene, faz do trabalho de exploração do ouro o sustento da família.
Na presença da reportagem do Jornal de Angola, Victor Domingos recebeu a esposa que trouxe farinha de milho e peixe seco. Além da visita, o objectivo de Anita Domingos é ir à busca de dinheiro para a compra de material escolar e pagar as comparticipações e o táxi nas deslocações constantes dos filhos que frequentam uma a 10ª classe e outros a 6ª e a 4ª, respectivamente, nos arredores da sede municipal da Matala.
“Tenho o curso de Serralharia e faço da profissão o meu ganha-pão. Recebi a minha esposa que veio da Matala, em busca de dinheiro. A esposa tem que assistir o trabalho que faço para contar à família e já tenho 20 mil kwanzas adquiridos com a exploração de ouro para lhe entregar”, contou.
Anita Domingos reconhece o sacrifício do marido, com quem gerou cinco filhos. “Não é uma tarefa fácil abandonar a família e remediar a vida na mina de ouro de Mupopo. Os filhos têm saudades do pai e ele não pode regressar agora, até completar o dinheiro que chegue para comprar uma motorizada de quatro rodas para prestar serviço de moto-táxi”, disse.
Ela levou um fato apropriado para o exercício desta actividade. É um trabalho de remediar. “Acompanhei o meu esposo e trouxe comida para ele. No Mupopo, o quilo de farinha de milho custa 150 kwanzas enquanto  na Matala é 75 kwanzas. As condições em que encontrei o meu esposo são difíceis. Há pouco tempo, aleijei-me no dedo indicador direito ao ajudar o esposo a triturar pedra”, assinalou.
Com a pá e suor a cair sobre o tronco, António Wakussanga, 30 anos, está num buraco com mais de três metros de profundidade. Na parte exterior, está um grupo de cinco jovens que vão recolhendo as pedras em forma de cascalho que é retirada do buraco onde está António Wakussanga.
 Com a pá na mão, António Wakussanga, apela de viva voz, aos companheiros para recolherem as pedras de forma responsável sem deixarem escapar alguma. 
 João Baptista Wakussanga, natural do município do Cuvelai, província do Cunene pratica a actividade na região do Mupopo há dois meses.
À reportagem do Jornal de Angola disse que, para a prática da exploração do ouro na localidade do Mupopo, os garimpeiros constituem grupos que variam de duas a 20 pessoas.
A actividade é feita por turnos. Há grupos que trabalham das 18h00 às 22h00 e o outro turno é das 00h00 às 06h00. Existem ainda turnos que procuram ouro nos períodos da manhã e da tarde. O sacrifício e o desafio à prática da actividade impõem-se.
“Para o filho ir à escola precisa de bata. A maioria dos jovens que está a praticar a actividade de exploração de ouro de forma ilegal no Mupopo são camponeses e criadores de gado. Quando cultivamos 1 kg de milho vendemos a 25 kwanzas e é difícil conseguir dinheiro para comprar sapatos, bata e outros bens necessários  para uma vida digna”, reconhece António Wakussanga.
Adiantou que “Deus abençoou a nossa terra. Na localidade de Mupopo, tem ouro e nada podemos ter? Pedimos às autoridades para nos ajudarem. Estamos a utilizar o cascalho retirado antigamente e é onde está o ouro. O ouro está há mais de 100 metros de profundidade e estamos a utilizar a área retirada pela empresa que explorou a zona”, desabafou.
“Estamos a seguir o entulho. Cavamos e quando encontramos uma pedra que tem sinal levamos. No saco de 10 quilogramas, podemos encontrar de 1 a 5 gramas de ouro, dependendo da sorte. Vamos continuar a seguir o jazigo de ouro na região de Mupopo, no Tchamutete”, afirmou. A notícia de exploração ilegal de ouro chegou aos ouvidos de Júlio Pascoal, 25 anos, que reside na capital do país. Com a notícia, confessou, foi obrigado a vender os seus haveres para ter passagem e apanhar o autocarro, numa viagem de aventura, na medida em que, depois de chegar à capital huilana (Lubango), foi obrigado a seguir de comboio até à sede da Jamba.
 “Ao atingir a Jamba, a informação é de que tinha que percorrer mais 120 quilómetros, para chegar à região de Tchamutete”, frisou.
Mas como se tem dito que quem corre por prazer não se cansa, a 5 de Junho de 2017, Júlio Pascoal chegou à região do ouro, onde, segundo ele, procura angariar dinheiro para regressar de bolso cheio.
“Cresci em Luanda e saí de lá no dia 5 de Junho de 2017. Foi nesta altura em que ouvi por intermédio de um amigo da existência de ouro no Mupopo. Eu não conhecia ouro. Depois da chegada ao Mupopo, fui instruído por pessoas locais da pedra que tem este minério e comecei a praticar tal actividade”, esclareceu Daniel Wankunda, outro jovem que está na prática do ouro, afirmou que a actividade de exploração de ouro requer muitos sacrifícios. “Quando a pessoa fica em casa sem fazer algo é difícil ter dinheiro. Ao permanecer entre quatro a cinco dias na região do ouro, pode conseguir-se quatro mil kwanzas ou mais. Com o dinheiro, já dá para comprar sabão, sal, arroz e roupa para vestir”, disse.
 
Reserva invadida
A reserva de ouro no Mupopo está a ser invadida por garimpeiros ilegais, disse o responsável do estaleiro da Sociedade dos Metais Preciosos de Angola, Somepa, no Mupopo, Justino Hequele Baptista.Justino Hequele Baptista afirmou que a prospecção do ouro feita pela empresa Novencia durou três anos (2010 a 2013).
A área de ouro do Mupopo está dividida por zonas e os garimpeiros ilegais estão a trabalhar na parte central chamada Zona 40-A, “onde está localizada a perfuração do tempo colonial.”
“As zonas são várias, mas das áreas que estão a ser protegidas, a principal é a 8, que é a zona 4, 5, 40-A, 40-B, 40-B sul, Zona 40-C e 40 norte”, explicou.
O responsável Justino Hequele Baptista advoga o aumento da segurança na área. “É preciso aumentar a segurança, porque caso contrário é complicado”, frisou, acrescentando que “tem havido confusões que começam das 2h00 até às 6h00. As pessoas começam a trabalhar de madrugada e sem segurança”, lamentou.
Para triturar as pedras, os garimpeiros estão a utilizar almofarizes, algum material bélico usado no tempo do conflito armado, nomeadamente cartuchos de canhão B-10. No mesmo processo, fazem ainda o uso de pilão de madeira, picaretas e outros instrumentos contundentes. No tempo da prospecção, quem trabalhava era os operários e técnicos da empresa subcontratada pela Somepa, que é a Novencia. A escavadora retirava os jazigos e, por sua vez, os camiões basculantes levavam à área de lavagem. É este jazigo que está a ser utilizado.
No estaleiro do Mupopo, estão armazenadas em contentores amostras de ouro retirados na fase da prospecção e o asseguramento está garantido. Além das pedras da prospecção colocadas em contentores, existem ainda infra-estruturas de apoio e geradores.
 
Mortes no Mupopo
Cinco pessoas morreram e uma outra ficou ferida depois de serem soterradas no processo de exploração ilegal de ouro na região de Mupopo, como realçou o responsável do estaleiro local, Justino Hequele Baptista.
Justino Hequele Baptista explicou que as vítimas ao cavarem buracos por causa do ouro, ao invés de abrirem buracos, fazem algo semelhante a túneis e, ao desabar, as pessoas morrem asfixiadas.

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