Reportagem

Retrato de uma comunidade perdida no “tempo do Caetano”

Luísa Rogério

“Tempo do Caetano” é a forma de os moradores do Tchitongotongo referirem-se ao período colonial, em alusão clara a Marcelo Caetano, um dos redactores da Constituição do Estado Novo e sucessor de Oliveira Salazar na presidência do Conselho de Ministros de Portugal. Esta reportagem retrata a vida dura na comunidade. Imagine-se o que é fazer seis horas a pé, para ir e voltar da escola. Debaixo de sol abrasador. “No Tchitongotongo, estamos a viver mal”, lamenta um agricultor-criador.

Fotografia: Estanislau Costa | Edições Novembro

Vê-se um ou outro remendo na estrada, que se pode considerar razoável para a realidade angolana. Os poucos buracos não condicionam a jornada. Sequer estremecem a viatura. Assim, percorremos tranquilamente os oitenta quilómetros que nos separam do Lubango. Depois de deixarmos a sede comunal da Quihita, a seguir à aprazível vila da Chibia, enveredamos por um atalho. A partir daqui é terra batida. Os sinais de orvalho no chão humedecido anunciam a época das chuvas, da qual estamos a poucos meses. Mas o capim e troncos ainda estão ressequidos.Quanto mais a viatura penetra no mato, maior a impressão de que participamos numa dura prova de rally. Perguntas, algo descabidas, reflectem receios de quem desconhece o significado da expressão “casa sem era nem beira”, no caso metaforicamente associada a espaços geográficos. Ricardo Moreno, o administrador comunal da Quihita, limita-se a sorrir. O comandante local da Polícia Nacional assegura que a situação está controlada.
O Estanislau Costa tenta equilibrar o carro ao longo do sinuoso caminho. Entre solavancos e sobressaltos mal disfarçados, insistimos na teoria da inexistência de vida nas redondezas. Contudo, as marcas evidenciam que não somos os únicos a perseguir os trilhos da seca. Alheio ao perigo, o cachorrinho atravessa a “estrada”. Um grupo de crianças corre atrás do amiguinho de quatro patas. Onde há cães habita gente, recorda alguém. Amiúde, vão aparecendo casas de pau-a-pique. Andamos, andamos e novamente a sensação do vazio. “Ficamos aqui”. Ricardo Moreno desce da viatura na companhia do agente de autoridade. “Vamos esperar pela caravana que vai distribuir comida. Vocês vão por ali”, indica um ponto imperceptível no meio do descampado.
Momentos após a retomada da marcha, ouvimos o ruído de motores.Os portadores de ajuda alimentar aproximam-se. A par desta, a abertura de furos para captação de água destaca-se entre as respostas do Executivo e da Sociedade civil com vista a diminuir o impacto da seca no seio das populações. Ao redor de um desses furos encontramos histórias entrelaçadas. Diferentes de tudo quanto tínhamos testemunhado, mas similares entre si no tocante às características que remetem os protagonistas para um plano totalmente dissociado da noção de cidadania.
Com cerca de mil e oitocentos habitantes, Tchitongotongo é o mais populoso dos 4 bairros periféricos da comuna da Quihita. Trata-se de pequenos agregados de casas de construção precária. À excepção do poço de água, não há qualquer vestígio de infra-estruturas. Faltam escolas e postos de saúde. Sente-se a ausência absoluta da administração pública. Quem falou em lojas? A pior cantina do Lubango serviria para os mais novos aprenderem o que fazer com dinheiro, bem desprovido de qualquer utilidade para eles. A maioria dos habitantes nunca viu um televisor. Mesmo que tivessem pilhas, jamais poderiam ouvir rádio. As ondas hertzianas perderam-se muito para além da Chibia.
O lugar onde se construiu o dispositivo destinado à captação de água seria, hipoteticamente, uma espécie de centro da zona. É neste ponto onde os moradores e seus animais, com relevância para os bois, se encontram. Aqui, cruzam-se vidas e histórias como a dos Ngandu. A vivência do clã reforça a ideia de que a fa-mília ganha particular relevância entre os principais eixos de organização da sociedade.
A postura do jovem que lava o corpo no bebedouro para animais desperta-nos dos pensamentos extemporaneamente focados em teorias sociais. “Não faz mal, de momento não há bois para beber água”, explica o guia.
Gentilmente, evita a abordagem, concentrando-se nos pés, quase luzidios de tanto esfregar. Juntam-se-lhe dois rapazes. O menor veste calções desembainhados do Real Madrid. Perguntamos se apoia a equipa madrilena ou o rival Barcelona. Nenhuma resposta. Introduzimos então o tema futebol, adeptos fervorosos e marcas desportivas, com o olhar posto no emblema madrileno estampado nos velhos calções. Paulino Tchapinga abana a cabeça em sinal de negação. “Não sei nada, é só roupa”, esclarece.
Embora aparente estar na adolescência, Paulino diz ter 25 anos. Vive, desde que nasceu, no Tchitongotongo, com a mãe e dois irmãos. O pai morreu há muito tempo. Caiu numa cacimba quando procurava água. Antes do novo sistema de distribuição, construído para acudir a população dos males da seca, o abastecimento do "precioso líquido" era feito em cacimbas. A perfuração era artesanal. Neste local, por exemplo, cerca de vinte pessoas montavam uma espécie de escada humana, que ligava a superfície ao fundo do poço a partir do qual tiravam água. O primeiro passava o recipiente cheio ao segundo e assim, sucessivamente, até depositarem a água num reservatório comum a céu aberto. Apesar do aprimoramento da técnica, o perigo estava à espreita.
Muitos homens perderam a vida em acidentes similares ao que teve o pai do Paulino. “Aquela cacimba era do tempo do Caetano”, intervém José Muholovepi Ngandu. “Tempo do Caetano” é a forma de os moradores se referirem ao período colonial, em alusão clara a Marcelo Caetano, um dos redactores da Constituição do Estado Novo e sucessor de Oliveira Salazar na presidência do Conselho de Ministros de Portugal.
José Ngandu, 58 anos, é irmão da mãe de Paulino. Tem 14 filhos em casa e 6 já emancipados que contribuem para equilibrar o orçamento familiar. Os descendentes mais novos não frequentam a escola por causa da distância. O estabelecimento de ensino mais próximo fica na Quihita. Lá, o filho de 18 anos estuda a segunda classe. “Ele vai com o Paulino. Eu não estudo. Se tivesse escola dos mais velhos, podia também me matricular”, lamenta José Ngandu.
“Devia haver pelo menos uma escola e um posto mé-dico para a população”, clama José Ngandu, igualmente coordenador do bairro. “Os jovens vão a pé até a comuna para estudar. Se a criança adoecer, temos que ir bem longe, na Chibia. As mulheres que tiverem problemas no parto vão ficar aqui”. A ex-pressão de desencanto de José Ngandu aumenta ao expôr o rol de carências que aflige a comunidade. Ainda que houvesse rede de telefonia móvel, seria difícil ligar a alguém para prestar assistência em casos de necessidade. Quase ninguém tem dinheiro para alugar transporte. A seca agravou substancialmente a situação financeira dos moradores. Ver por estas bandas uma moto de três rodas, as nacionalmente famosas “Avô Chegou”, significa a visita de fa-
miliares, geralmente portadores de boas notícias. Ou seja, bens de consumo.

Trinta quilómetros diários
Contabilizamos quinze exactos quilómetros desde o poço do Tchitongotongo até à Estrada Nacional que passa pela Quihita. É essa a distância percorrida por Paulino Tchapinga para ir à escola. Somam-se quinze para regressar a casa, totalizando trinta quilómetros. O garoto frequentou a 8ª classe no ano lectivo transacto. A vontade de aprender implica investir seis horas diárias de inevitável marcha. “Saio de casa às 5 da manhã e chego às 8 horas na escola”. Paulino desdramatiza o facto invulgar. Os pés já se habituaram a longas marchas debaixo de sol abrasador. Sorridente, Eduardo Muholovepia abraça o primo. “Vamos juntos. Levamos bidões com água”, afirma o filho estudante de Jósé Ngandu.
Nada sorridente, Joaquim Kalute Ngandu, irmão de José, intervém. “A nossa vida é muito complicada”, reitera. Pai de 13 filhos, todos dependentes dele, promete ficar por ai. “Com esta fome não faço mais”. Agricultor, à semelhança dos demais membros da família, interrompe a rega da horta situada pertinho do poço. Cebola, tomate, alho e feijão são alguns produtos que vão brotar da terra. Considera bem-vinda a ajuda alimentar. Defende, porém, a importância de os camponeses beneficiarem de apoios, com vista a poderem cultivar os alimentos imprescindíveis à sua subsistência.
“Podem vir três camiões de milho, não chegam para todos. Por dia, gasto cinquenta quilos de milho em casa”, adianta. O cereal serve para fazer papas e pirão que acompanham o feijão, lombi (folhas verdes) e alimentar as galinhas. A criação de animais comestíveis inclui cabritos, porcos e bois, sendo os últimos sinónimo de riqueza. “Os cães desenrascam, comem qualquer coisa. Às vezes, damos pirão. Quando não chega, misturamos farelo com um bocado de água. Temos que saber dividir”, acrescenta.
Entretanto, um grupo de mulheres aproxima-se. Atentas aos detalhes, Tuleipo e Kavenehe franzem o rosto. Nenhuma das duas sabe precisar a idade. Com rosto de adolescente, a primeira já tem um bebé. O marido é colega de Paulino. Kavenehe, mãe de cinco filhos, é a mulher de Muetufena, irmão de Joaquim e José Ngandu. Curiosamente, ele não sabe quantos anos conta. “É o nosso cassule”, apresenta José. Têm em comum, além dos laços de sangue, a particularidade de trabalharem para o negócio da família. “Começámos a preparar o terreno há três dias”, sublinha o coordenador do bairro.

Luís Ngandu, pai de quarenta filhos

O burro chega lentamente. Magríssimo, o animal partiu sozinho da zona residencial. Carrega sobre o dorso cordas entrelaçadas, presas lateralmente a dois bidões amarelos. Pára defronte ao poço. Depois de a menina encher os recipientes de vinte litros cada, o “trabalhador doméstico” retorna ao aldeamento. Burro adestrado, pensamos. A pergunta despropositada escapa inadvertidamente. “Nada, está só a sofrer com a fome”, fala Luís Ngandu, até então distante da equipa de reportagem. “Olha só, esses miúdos vão todos assim”, indica em direcção ao quadrúpede. “Sem escola nem nada. Vivem como burros inocentes. O pai é burro, a mãe é burra e os filhos também são burros. Todos na mesma casa só sabem sachar (cultivar),” desabafa. “O jornalista tem que escrever a verdade.Não é dizer mentira, fazer mayuya, no Tchitondotondo estamos a viver mal”.
Luís Ngandu dá mostras de inconformismo. Pai de 40 filhos, vive com as quatro mulheres na mesma casa. Dois dos seus filhos “desenrascam” com o Kangulo no mercado da Mutunda, situado na capital da Huíla. Pertencem a classe vulgarmente denominada “raboteiros”, expressão derivada da palavra russa “rabota”, que quer dizer "trabalho", na Língua Portuguesa. Outros dois meninos estudam em Luanda. Os demais 36 vivem com ele.
“Este pequeno, se não tiver escola, vamos um dia lhe ver também a transportar kangulus nas paragens dos candongueiros no Lubango. Esses miúdos nunca vão ser professores. Vão crescer e morrer sem saber nada”, deplora.
Enquanto Luís Ngandu expõe a sua parcela de verdade sobre a terra onde vive desde a nascença, a mãe se acerca. Esguia, ornamenta o pescoço, braços e o peito nu com missangas coloridas. As pulseiras são igualmente vistosas. O pano amarrado na cintura é a única vestimenta. Contrariamente aos filhos e netos do sexo masculino, a mãe dos Nagandu e todas outras mulheres e meninas do clã andam descalças. Nada que abale o majestoso porte da matriarca dos Ngandu, típico das mulheres do seu grupo etno-linguístico. Impossível adivinhar a idade da mãe de oito filhos, duas do sexo feminino. A avó de Paulino, o miúdo dos calções madrilenos, saco de ligeiramente o pano azul que traz na mão esquerda. Percebemos um leve sorriso no rosto.
Longe de o inibir, a presença da mãe incentiva Luís Ngandu a falar. “Não temos rádio. Os nossos filhos nunca viram televisão. Estamos no mato, não temos nada. No Lubango, dão dinheiros aos miúdos para fazerem compras na cantina. Aqui, os nossos miúdos não conhecem dinheiro….” O pai dos quarenta filhos encerra o diálogo tão abruptamente quanto o iniciou. Os irmãos e sobrinhos seguem-no. O rapaz que veste a camisola com estampa da Frozen, a Princesa do Gelo, cruza os braços. Tinha muita vontade de ser entrevistado. Sacode os ombros. Depois do tio, nada a acrescentar. Mulheres e raparigas enchem os bidões amarelos.
Passa do meio-dia. É tempo de “sachar” a terra. Mulheres e homens cuidam da lavoura. Há muito trabalho pela frente. À saída de Tchitongotongo, conseguimos ver as casas do bairro. Raras folhas sobressaem no meio de arbustos secos. O contraste pode resultar numa belíssima descrição artística da paisagem. A sombra mal protege do sol. A temperatura sobe. A lenha está ao lado das casas. Nenhum sinal de fumo brota das cozinhas. A esta altura do dia, os fogareiros deviam estar acesos. Vemos apenas crianças a brincar. Conforme realça Luís Ngandu, eles “não conhecem bolachas”, pão ou dinheiro. Mas reconhecem o burro, aquele que carrega os bidões amarelos. As crianças exultam de alegria. Apressam-se a tirar a carga. O “trabalhador doméstico” abana a cauda. Diferentes especialistas em comportamento animal acreditam que o sinal expressa satisfação. Visto de perto, parece que o quadrúpede está a mastigar qualquer coisa. O certo é que, ao fim da tarde, algum tipo de refeição vai ser servida.

 

 

“Antena natural” e celeiros vazios compõem a paisagem na Quihita


Contamos doze homens aglomerados debaixo de uma goiabeira. Uma mulher junta-se ao silencioso grupo. Todos empunham os braços para cima. “Não está no ar”, grita alguém. A frase tem efeitos de ordem de co-mando para dispersão. Passados poucos minutos, as pessoas voltam a juntar-se. Agora são mais de 15. Outras vêm a caminho. Os braços já não estão elevados. Posicionam-se pertinho dos ouvidos. Não es-
tamos diante de algum estranho ritual. A aglomeração deve-se à captação do sinal de telefonia móvel, só possível na “antena natural”, localizada no pátio da Administração Comunal da Quihita.
A “antena natural” situa-se ao lado da garagem onde está parqueada uma carrinha. Por sinal, avariada. No interior do edifício, em fase de reabilitação, a mobília resume-se a dois cadeirões encostados às paredes. Vemos uma motorizada estacionada num canto. As outras dependências estão praticamente vazias. “É aqui onde trabalhamos”. O interlocutor é Ricardo Moreno, administrador comunal da Quihita. Situada a cerca de oitenta quilómetros do Lubango, a comuna conforma o paradigmático caso de assimetria regional. Nesta localidade agro-pecuária, mais de 80% da população, estimada em 32 mil habitantes, sofre com os efeitos da seca. Na Quihita, há praticamente paridade entre o número de pessoas e o de gado bo-vino, que ultrapassa as trinta mil cabeças.
Os celeiros estão vazios. “Os camponeses não conseguiram colher milho nem massango para fazer fuba”. Os citados cereais são, a par do feijão-frade e de outros tipos desse feijão, a principal fonte de alimentação nesta área, assim como a massambala, hoje mais usada para preparar bebidas tradicionais. Inconformados, os residentes procuram meios de sustento, embora a sobrevivência resulte principalmente da assistência providenciada pelo Governo Provincial e pela Administração Municipal. Dados oficiais atestam que as ajudas beneficiaram acima de cinco mil pessoas. De resto, a vida segue dentro da normalidade possível no vilarejo. A energia eléctrica tem sido distribuída entre as 18 e 23 horas. São cinco preciosas horas, aproveitadas para ligar electro-domésticos e, claro, recarregar as baterias dos telemóveis que se juntam, um dia a seguir ao outro, no “ritual” de captação de sinal.

Rio Seco

O caudal do Caculuvar baixou consideravelmente. O afluente do rio Cunene contribuía sobremaneira para a irrigação da agricultura familiar, feita ao longo do rio Caculuvar, numa extensão de 25 km.
“As hortas ajudavam a equilibrar a dieta alimentar”, afirma Ricardo Moreno. A falta de água “complica a agricultura de subsistência, as pessoas continuam à procura deste precioso líquido”. A Quihita beneficiou de 4 furos de água em áreas de carência agravada. “Ao todo, precisamos de 18 furos, mas já lançamos gritos de socorro”, detalha o administrador.
Os camponeses pedem apoios para a obtenção de fertilizantes e sementes, assim como um tractor, com vista à preparação dos solos. Solicitam igualmente a reparação dos diques para a eventualidade de chover em abundância. Adverte que, mesmo com as primeiras chuvas, o impacto da seca na Quihita vai-se repercutir nas próximas colheitas. “Nos últimos anos, foram chuvas cíclicas”. reforça.
Em 2019, a situação piorou consideravelmente. Quando há seca, a tendência é baixar o caudal. “Temos o registo de algumas localidades com furos antigos, onde a água já se esgotou”, acrescenta Ricardo Moreno. Sublinha que a comuna conta com um total de 30 furos, dos quais quatro inoperantes.

Por dentro

O poço de água do Tchitongotongo resultou de uma obra da responsabilidade do Governo Provincial da Huíla, orçada em dezasseis milhões e 650 mil kwanzas. Com capacidade para três mil litros cúbicos, ou seja, doze mil litros de água por hora, o furo tem o maior caudal entre os dez novos poços. Em contrapartida, o poço do bairro do Koyo, habilitado para projectar mil e duzentos litros por hora, é o menos caudaloso.
De acordo com dados disponibilizados pela Administração da Quihita, se a estrutura estivesse no centro da sede comunal da Quihita, permitira fazer ramificações ao domicílio. Antes da obra de engenharia, aqueles que sempre praticaram a agricultura foram abrindo alguns poços ao longo do rio.

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