Reportagem

Rochas ornamentam o Museu da Moeda

André dos Anjos |

O Museu da Moeda, inaugurado em Maio pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, é muito mais do que um lugar de visita e repositório da história do Kwanza. Bem mais do que um edifício belo, com uma arquitectura “arrojada”, a disputar um lugar na primeira linha dos novos símbolos da beleza da  Baía de Luanda.

 

Museu da Moeda ao lado da emblemática sede “rosa e branca” do Banco Nacional de Angola
Fotografia: Contreiras Pipa

Construído em dois anos e sete meses, numa extensão de 4.425 metros quadrados, 3.873 metros quadrados de área útil de construção, o Museu da Moeda tem motivos de sobra para ser um marco na história da indústria angolana. O facto de a sua construção ter mobilizado 85 por cento de técnicos angolanos de várias áreas de intervenção, desde a engenharia à decoração do edifício, encerra um enorme significado num país que aos poucos demonstra ter soluções para as exigências de mão-de-obra qualificada em áreas que até há pouco tempo  eram preenchidas apenas por expatriados.
Mas o que faz do Museu da Moeda um símbolo da indústria nacional são os materiais de construção, principalmente os que foram usados para os acabamentos. Desde o calcário de Benguela, que reveste a Praça Saidy Mingas, à madeira do Uíge. Do granito da Huíla ao mármore do Namibe.
Quando no primeiro trimestre deste ano o Executivo incluiu o sector mineiro no pacote de programas dirigidos, no quadro da estratégia para a saída da crise financeira provocada pela queda do preço de petróleo no mercado internacional, os empresários da Huíla que operam na área da extracção de rochas ornamentais já iam longe na transformação industrial dessas comodities, que durante décadas eram exportadas em bruto.
Entre os pioneiros desta “revolução industrial” está a Emanha, empresa de direito angolano, sedeada na província da Huíla, que produziu todas as pedras ornamentais utilizadas no revestimento do Museu da Moeda,  no Aeroporto Internacional de Mukanka (Lubango) e nos quatro estádios de futebol construídos em igual número de cidades  que acolheram o Campeonato Africano de Futebol em 2010.
À Emanha, de acordo com a directora provincial da Indústria e Geologia e Minas na Huíla, Paula Joaquim, juntam-se já quatro novas unidades fabris, todas dotadas de tecnologias  de ponta, umas viradas para a feitura de placas ornamentais, outras para cubos e britas de granito, materiais muito utilizados na construção civil.
Durante décadas, à semelhança de outras matérias-primas, as rochas ornamentais extraídas em Angola, particularmente nas províncias da Huíla e Namibe, eram canalizadas em bruto para o mercado internacional, de onde, depois de transformadas, o país voltava a ­adquiri-las como produtos acabados e a preços altos.
Foram adoptadas medidas no sentido de se inverter a situação, promovendo a transformação em território angolano e, por arrasto, criando mais postos de trabalho, para lá daqueles que a indústria extractiva pode garantir.
Quem conhece o sector garante que, ao exportar o produto em bruto, o país abria mão de um número importante de postos de trabalho, uma vez que é na lapidação que as pedras ornamentais requerem maior força de trabalho.
Das cinco empresas que constituem o ainda incipiente, mas já promissor,  parque industrial de lapidação de rochas ornamentais na Huíla sobressaem a Emanha e a Granisul, pela dimensão e capital investido.  Somados os investimentos das duas companhias,  a cifra ronda os 35 milhões de dólares.
Não admira, por isso, que Paula Joaquim tenha recomendado à equipa de reportagem do Jornal de Angola que  colocasse no seu roteiro estas empresas para  dar a conhecer o que de melhor se produz na província em pedras ornamentais e em que medida a escassez de cambiais afecta o sector.

Emanha

A equipa de reportagem do Jornal de Angola  é acolhida na Emanha  por Henrique Carriço,  sócio-gerente da companhia. A recepção tem lugar numa sala decorada com objectos e outros motivos à base de granito. É impossível ficar indiferente à qualidade das peças. Do piso aos tampos das mesas, o visitante é levado a uma viagem imaginária pelo mundo das rochas ornamentais e percebe logo o que pode encontrar.
Enquanto responde às questões, Henrique Carriço deixa escapar alguma preocupação com o que estava a acontecer na divisória ao lado. Era a oficina, onde um gupo de funcionários trabalhava no corte de uma pedra de mármore. Tinha as atenções divididas.
Henrique Carriço fala da trajectória e dos processos de produção desde a extracção ao corte da pedra e enche-se de orgulho ao falar do Museu da Moeda, que considera a “mascote da empresa”. Com uma áerea bruta de 4900,00 metros quadrados, cada metro quadrado deste imponente edifício, incluindo o projecto arquitectónico, é original de Angola. E todos os  fragmentos de pedras que sustentam a obra foram fornecidos pela Emanha.
Tal como o Museu da Moeda, que é hoje um ex-libris da Avenida 4 de Fevereiro, a Emanha forneceu os adornos em mármore no Aeroporto Internacional de Mukanka, no Lubango, e nos quatro estádios de futebol construídos no âmbito do Campeonato Africano de Futebol que Angola acolheu em 2010.
Henrique Carriço lembra, no entanto,  que a companhia abdicou das exportações de produtos acabados para atender exclusivamente às empresas de construção civil que operam no país, confrontadas, também elas, com dificuldades de acesso a cambiais para compra de materiais de construção no exterior do país.
“O nosso maior problema está na dificuldade de acesso a divisas para aquisição de consumiveis”, sintetiza, reconhecendo, no entanto, que o problema é conjuntural e passageiro. Com pedreiras nas província da Huíla, Namibe e Benguela, a Emanha investiu cerca de 20 milhões de dólares em equipamentos ultramodernos para permitir que as pedras extraídas no país fossem todas transformadas localmente. A empresa ­esteve próximo disso, mas a crise financeira que se abateu sobre o país retraiu a sua marcha.

Granissul

Localizada na zona industrial do Lubango, aliás, na mesma rua onde funciona a Emanha, está a Granissul, outra empresa a ter em conta na indústria nacional de rochas ornamentais. Sem nunca ter esgotado a capacidade de produção instalada, a fábrica chegou a produzir mensalmente  6.000 metros quadrados de chapas de granito e 2.500 metros quadrados de ladrilho. A Granissul é uma subsidiária da Socolil, grupo empresarial com uma forte presença na província da Huíla, onde desde 1989 intervém, entre outras áreas, na Construção Civil, Indústria Metalomecância e Comércio.
A sua entrada no mercado mineiro é relativamente recente, mas em pouco tempo conquistou um lugar de destaque  entre as empresas que trabalham na transformação de pedras ornamentais.
À semelhança da Elmanha, a Granissul também tem pedreiras na Huíla e Namibe. As duas empresas partiram para a transformação atraídas pelo Granito Negro de Angola, uma pedra de qualidade única no mundo, muito procurada no mercado internacional, mas que, durante décadas, o país vendia em bruto. Hoje, a actividade das duas empresas e de outras que operam no sector, quer na extracção quer na transformação, não se circunscreve ao Granito Negro de Angola.
Em cada localidade, em cada pedreira, encontra-se determinado tipo de granito, com características específicas, aos quais procuram acrescer valor comercial. A Granissul, por exemplo, explora três qualidades de granito, mas já chegou a quatro, quando  extraía na Matala o Granito Castanho, outra pedra de rara beleza.
Mas se a indústria extractiva de rochas ornamentais na Huíla já vem de longe, a de transformação de pedras ornamentais ainda estava em fase incipiente quando ocorre a crise financeira provocada pela queda do preço de petróleo no mercado internacional. A sua capacidade de resistir a adversidades foi pequena para o choque.
Em consequência disso, empresas como a Emanha e a Gransul, que já tinham investimentos materiais e humanos voltados para  a transformação do produto em solo pátrio, voltaram a comercializar parte substancial do produto, para cobrirem os custos correntes.
As dificuldades no acesso a divisas, lembra o director-geral do grupo Socolil, condicionam a aquisição de consumíveis, sem os quais as indústrias não trabalham. “O nosso único problema está na importação de consumíveis”.

Clamor da Granissul


António Lemos conta que a Granisul está praticamente paralisada, há mais de seis meses, por falta de 800 mil dólares para a compra de  granalhas para serração e de abrasivos para polir os blocos, quando a empresa tem reservas financeiras em moeda nacional. “Não temos receitas em divisas  porque vendemos no país toda a nossa produção. ”
Não obstante as dificuldades, António Lemos reconhece que o sector mineiro é promissor e tem potencial para criar muitos postos de trabalho, sobretudo “se à extracção acrescermos a transformação, que agrega valor às matérias-primas”.

Papel da banca

Para o gestor, o repto lançado há tempos pelo ministro da Geologia e Minas, Francisco Queiroz, de o sector mineiro ultrapassar, num horizonte temporal de dez a 15 anos, a indústria petrolífera na arrecadação de receitas fiscais para o Orçamento Geral do Estado, está perfeitamente ao alcance do país. Mas é preciso ampliar o espaço de actuação dos agentes privados.
“Quando uma empresa com 70 trabalhadores fica paralisada durante meses, por falta de 800 mil dólares para aquisição de consumíveis, mesmo com kwanzas no banco, alguma coisa está mal na definição de prioridades”, critica o gestor, reconhecendo, no entanto, que nem tudo depende do poder político, já que a banca joga um papel fundamental no apoio aos produtores.
“Não vamos falar mal do Governo Provincial de quem temos tido todo o apoio necessário”, diz António Manuel, que insiste que a banca não tem feito a sua parte no processo da diversificação da economia e na estratégia para saída da crise.

Políticas públicas

A estratégia do Estado para o sector mineiro é anterior à crise financeira e abrange, para além das rochas ornamentais, todos os recursos geológico-mineiros. Em 2011, o Executivo concebeu e aprovou um Código Mineiro, que regula esse subsector da economia, no que à  investigação, descoberta, caracterização, avaliação, exploração, comercialização, uso e aproveitamento diz respeito. Em 2014, o Executivo pôs em marcha, à escala nacional, um processo de prospecção de minérios, no âmbito do Plano Nacional de Geologia (Planageo) que já conduziu à descoberta de importantes jazidas em várias partes do país, incluindo um complexo de 45 mil quilómetros quadrados de granito negro entre as províncias da Huíla e Cunene, que já é considerado o maior do mundo.
Dados preliminares do estudo indicam que o país possui, confirmadamente, 38 dos 50 minerais mais procurados no mundo. A lista de metais domiciliados no subsolo angolano inclui o ouro, ferro, manganês, titânio, crómio, cobre, chumbo, zinco, volfrâmio, estanho, níquel, cobalto, lítio, nióbio, tântalo, ouro, prata, platina e terras raras, com utilidade nas telecomunicações. A estratégia consiste no cadastramento e elaboração de mapas dos recursos minerais existentes no país e passar depois a informação sobre as reais potencialidades do país a investidores privados, nacionais e estrangeiros, interessados no negócio.
Especialistas envolvidos no estudo asseguram que os dados recolhidos vão permitir ao país programar, num horizonte de até cem anos, a exploração racional e sustentável dos seus recursos minerais. O estudo é considerado pela comunidade científica como um dos maiores do género já realizado no mundo.
Ainda de acordo com especialistas, o estudo garante previsibilidade às futuras gerações, que vão poder explorar os recursos minerais do país, partindo de bases seguras e cientificadas.
A dois anos do fim, o estudo já levou à descoberta e mapeamento de importantes reservas dos mais diversos minérios e à confirmação de outros tantos de que se tinha memória, mas que deixaram de ser explorados depois da Independência ­Nacional, devido à instabilidade militar que paralisou alguns sectores importantes da economia, colocando o país sob dependência de praticamente dois únicos recursos, o petróleo e o diamante.
Optimista, o ministro da Geologia e Minas vaticina que, dentro de  15 a 20 anos, Angola é um país mineiro por excelência, senão o líder do sector em África. “O país tem condições para atingir essa posição.”
Mas o governante reconhece que Angola só chega lá com o concurso do empresariado nacional que, de um modo geral, “está limitado por insuficiências financeiras e tecnológicas”, como faz questão de sublinhar.

 

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