Ruas de Luanda exigem cautela

João Pedro |
7 de Agosto, 2013

Fotografia: Jornal de Angola

Circular nas ruas de Luanda, de carro ou a pé, durante a noite requer muita atenção e prudência. O risco de atropelar e ser atropelado está sempre à espreita, devido à falta de iluminação pública e à condução perigosa dos automobilistas.

Dados da Direcção Nacional de Viação e Trânsito (DNVT) apontam para o registo, no primeiro semestre de 2013, de 1.766 acidentes, dos quais 497 atropelamentos.
Os números preocupantes da DNVT exemplificam bem o quanto Avenidas como a 21 de Janeiro, Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, Deolinda Rodrigues, Estradas da Samba, da Boavista, Cacuaco, Ruas do Sanatório, dos Comandos e Via Expresso, se tornaram autênticas “auto-estradas da morte”. Se, nos dias úteis, a situação do trânsito nestas vias é preocupante, devido às longas filas dos engarrafamentos, ela ganha contornos alarmantes aos fins-de-semana, com os atropelamentos fatais e os choques contra obstáculos fixos e entre viaturas.
Na Avenida Deolinda Rodrigues, também conhecida como Estrada de Catete, tornou-se uma moda os automobilistas circularem em alta velocidade, mesmo com a presença dos agentes reguladores de trânsito. A reportagem do Jornal de Angola circulou entre as 21h00 e as 23h00 naquela avenida e assistiu ao capotar de duas viaturas e a três embates contra obstáculos fixos, todos eles devido a excesso de velocidade e condução sob o efeito de álcool.
Idêntica situação se verifica quotidianamente na Via Expresso, no sentido Estádio Nacional 11 de Novembro em direcção ao município do Cacuaco.
Na estrada entre a vila do Cacuaco e a rotunda da Boavista, uma criança quase perdeu a vida ao ser atropelada por uma viatura que fazia o serviço de táxi e circulava em alta velocidade, mesmo perante a falta de iluminação pública. A vítima, que mais tarde viemos a saber ter 12 anos, sofreu pequenas escoriações e recebeu os primeiros socorros no Centro de Saúde do bairro da Petrangol, mas o motorista, como já é hábito nestas circunstâncias, pôs-se em fuga.
Helena Francisco, residente no Zango 4, disse assistir três vezes por semana a casos de atropelamentos mortais na estrada de Viana. “Já se tornou hábito encontrar pessoas atropeladas mortalmente no troço entre o supermercado Shoprite e Viana, principalmente à noite”, contou.
A quantidade de acidentes, principalmente choques entre viaturas, que se verificam à noite nesta avenida, é de tal modo assustadora que Helena decidiu deixar de conduzir, depois de o seu jeep ter sido batido por um camião, quando ia para casa com os filhos no carro.  
“Não há semana que não veja uma pessoa morta estendida na estrada que vai do Shoprite para Viana. É triste”, lamenta.

As causas dos acidentes

Dados da DNVT referem que os números alcançados pela sinistralidade rodoviária no país reflectem bem o estado de insegurança que muitos automobilistas e peões enfrentam todos os dias nas estradas e ruas. O excesso de velocidade, ultrapassagens irregulares, condução sob influência de álcool, uso de telefones durante a condução e a incorrecta travessia de peões são algumas das causas apontadas como factores de risco para o aumento da sinistralidade.
As províncias com maior índice de acidentes são Luanda, com 1.766, Benguela, 893, Huíla, 558, Huambo, 491, Bié, 443, Lunda-Sul, 401, e Kwanza-Sul, 389 acidentes. Os atropelamentos representam 30 por cento do total dos acidentes.
A alta taxa de prevalência da sinistralidade rodoviária na província de Luanda deve-se ao desenvolvimento socioeconómico, à elevada concentração demográfica e ao aumento do parque automóvel. De acordo com a DNVT, a indisciplina do trânsito é uma das graves causas do aumento de acidentes rodoviários, atitude que as autoridades querem combater com eficácia e sem tréguas.

Condutores e peões impacientes

A indecisão quanto à cedência de prioridade é outro dos factores que está na base dos muitos casos de atropelamento. Os automobilistas apontam o dedo acusador aos peões, que quase sempre atravessam em locais impróprios e de forma desordenada.
Os peões, por sua vez, acusam os automobilistas de não abrandarem, nem mesmo nas passadeiras, locais devidamente sinalizados para o efeito.
Mário da Costa, motorista há mais de 30 anos, reconhece que, apesar da clara melhoria da sinalização do trânsito ter ajudado a mudar o comportamento dos peões e dos automobilistas na via pública, a falta de entendimento e paciência tem levado o luto a muitas famílias.
“É triste ver o número elevado de pessoas que são atropeladas todos os dias nas estradas”, lamentou, para depois alertar para a necessidade de haver uma maior colaboração entre automobilistas e peões, no sentido de fazer reduzir os números assustadores da sinistralidade.
“Não basta as campanhas de sensibilização da Polícia Nacional, é preciso também uma mudança de mentalidade dos automobilistas e dos peões quando estão na via pública, para que este índice de acidentes seja reduzido”, explicou Mário da Costa com semblante triste.
Mário recordou o dia em que o irmão foi atropelado nas imediações da Estalagem e foi levado para o Hospital Américo Boavida: “Fiquei das 22h00 até às 10h00 do dia seguinte no hospital e vi chegarem ao Banco de Urgência muitos casos de atropelamento. Foi nesse dia que me apercebi da necessidade de sermos prudentes na estrada, calmos e respeitar as regras do trânsito”.
Júlio Miguel, que trabalha como segurança no Hospital Américo Boavida, conta que as crianças e jovens têm sido as principais vítimas dos atropelamentos. “É triste ver a preocupação das pessoas quando chegam à procura de informações sobre o estado de saúde de um familiar vítima de acidente”, disse.
Por tudo o que já viu e sentiu, Júlio Miguel não hesita em afirmar que defende a adopção de medidas mais severas contra quem insiste em desrespeitar as regras de trânsito. “É altura de a Polícia Nacional começar a aplicar as sanções previstas no Código de Estrada”, disse peremptório. Joaquim da Silva, que vive no Calemba 2 e trabalha nas imediações da Mutamba, sai de casa todos os dias às 6h00 e regressa por volta das 20h00, dependendo do trânsito. 
Também ele considera “muito preocupante” a falta de iluminação pública em ruas e avenidas de Luanda, factor que também influencia o aumento da criminalidade. “Várias vezes quase atropelei uma pessoa por falta de iluminação e de cuidado do peão ao atravessar. É preciso ter muito cuidado no trânsito, porque a mínima distracção pode resultar em tragédia”, alertou.

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