Reportagem

Sambizanga ganha nova imagem

Victorino Joaquim |

Alguns anos depois da Independência de Angola, o bairro do Sambizanga conheceu um grande crescimento desordenado. Foi uma zona caracterizadas por condições de habitabilidade, segurança e acessibilidade precárias, os seus difíceis acessos dificultavam a intervenção de órgãos do Estado, como a Polícia no eventual apoio aos populares. Uma grande parte da população habitava em casebres.

Mudanças estão a ser visíveis na vida dos citadinos da capital
Fotografia: Vigas da Purificação | Edições Novembro

O Sambizanga é um dos seis distritos do município de Luanda,  capital do país,    constituído pelas comunas do Bairro Operário, Ngola Kiluanje e Sambizanga.
Com 14.5 quilómetros quadrados e cerca de 600 mil habitantes, o Distrito do Sambizanga faz parte das localidades em que estão a ser implementadas obras de requalificação urbana.
Iniciado em Novembro de 2011, o programa de requalificação urbana do Sambizanga prevê estar concluído  dentro de 20 a 25 anos.
Passados apenas seis anos, os moradores já sentem os benefícios da implementação do processo de requalificação urbana. Em alguns bairros  do distrito observa-se já uma nova imagem.
Hoje,  quem passa pela via construída na encosta do Miramar, o viaduto próximo ao prédio do Livro do São Paulo, as ruas  Kima Kienda  e  Lueji Anconda, as zonas do campo Mário Santiago e do ex-mercado Roque Santeiro e Rotunda da Boavista, já pode  observar o novo rosto que ganharam estas localidades.
Estão em curso obras na intercepção com a Major Kanhangulo, Rei Mandume e com a rua Ndunduma. O tráfego rodoviário está, agora, mais fluído. Para quem circula do município de Cacuaco para  São Paulo  o trajecto demora 30  minutos. “Quando antes fazíamos este mesmo trajecto em quase duas horas”, disse o taxista Fernando Jacinto.
O troço da Rotunda à Ilha de Luanda faz-se de 12 a 15 minutos. “Quando antes fazíamos este trajecto em 35 a 40 minutos”, referiu o taxista Domingos Santana. Para ele, os constrangimentos vividos no  passado com os constantes congestionamentos e  crateras na rua já fazem parte do passado. “Hoje, a corrida é mais rápida”, acrescentou o jovem.
Os passageiros embarcavam e desembarcam sem esperar  muito tempo. Com a reabilitação da via e a construção do viaduto da Rotunda da Boavista, “as viagens são feitas de forma mais célere e podemos fazer cerca de sete a dez viagens por dia, deste forma temos transportamos cada vez mais passageiros”, disse José Manuel.
Enquanto embarcava numa paragem na antiga rotunda, a estudante de Enfermagem Ana Gunza disse: "Desde que a via foi reabilitada, os atrasos na sala de aula acabaram". No Bairro Marconi, na comuna do Ngola Kiluanji, num espaço de cerca de mil hectares, foram erguidas  estruturas habitacionais e sociais num período de 18 meses.  A nova urbanização é composta por uma variedade de lotes com cinco e nove andares e apartamentos de diferentes tipologias.
Nesta comuna foram ainda construídas moradias, escolas, creches,   estruturas comerciais e administrativas, postos de polícia, instalações médicas, desportivas e recreativas, arruamentos, redes eléctricas, de abastecimento de água e de drenagem.
Existem ainda obras em curso na Avenida Ndunduma, antigo Mercado do Roque Santeiro e na Rotunda da Boavista.

Realojamento
Um dos maiores constrangimentos na implementação do processo de requalificação do Distrito do Sambizanga foi o realojamento das famílias que viviam em áreas de intervenção para obras.
Mesmo depois do registo, havia cidadãos que se infiltraram, com o objectivo de obter uma casa. Alguns tentaram enganar as autoridades. “Recebiam a casa e voltavam a reclamar por mais uma casa”, disse João António, que residia num casebre junto ao Roque Santeiro e hoje vive numa residência condigna.
Muitas  obras ficaram impedidas de avançar devido à presença das famílias. Para resolver a situação, foi criado, por orientação do Presidente da República,  José Eduardo dos Santos, um grupo de trabalho.
O grupo operativo era composto por técnicos dos ministérios da Construção, do Urbanismo e Habitação, Administração Local, Gabinete de Coordenação dos Trabalhos Técnicos da Província de Luanda, e Gabinete de Reconversão Urbana do Cazenga. 
Quatrocentas famílias foram realojadas nos bairros Zango Três e Zango Quatro e na nova urbanização Marconi.
“O processo de realojamento é contínuo. Na medida em que vão ser definidas as áreas de implementação de equipamentos sociais, habitação, espaços verdes e outras  estruturas, de acordo com o plano director existente, vão-se providenciando os realojamentos”, realçou Bento Soito,  director do Gabinete de Reconversão Urbana do Cazenga, que também fez parte do grupo de trabalho para o realojamento.
Para Bento Soito, é difícil fazer tudo de uma vez. Houve várias situações que atrapalharam o bom andamento do processo, mas, tudo está a ser resolvido para que ninguém fique sem ser realojado.
O processo de reconversão programado para ser concluído dentro de 15 a 20 anos prevê também o realojamento de 400 mil famílias.

                                                                                   Famílias são realojadas
Maria Demetilha foi uma das primeiras a receber uma residência na urbanização Marconi. Doméstica de profissão, de 54 anos, viu a sua casa em que vivia na rua 12 de Julho, destruída, para facilitar   as obras públicas em execução naquela área.
A rua 12 de Julho era uma rua que tinha várias crateras. Na época de chuvas acumulava águas paradas, mosquitos e lixo. “Era um grande transtorno. Já a morar aqui estou melhor. Afinal nós esperamos ver um dia o Sambizanga moderno, com universidades, lojas, ruas bonitas”, acrescentou Maria Demetilha.
Em Viana, a zona do Zango continua a ser o destino dos cidadãos que viram as suas residências destruídas para dar lugar às obras de construção de  infra-estruturas rodoviárias. A morar no quarteirão C do Zango Três, há cerca de seis meses, numa casa do tipo T3, vive Isabel Fernandes, 42 anos, com os quatros filhos, irmão e esposo.
Isabel Fernandes saiu do bairro da Boavista para dar lugar as obras para a construção do viaduto e nova estrada.
De princípio, Isabel Fernandes e os vizinhos resistiram a sair do seu bairro. As insistentes jornadas de conversações para a retirada dos cidadãos acabaram por convencer Isabel Fernandes e outras pessoas a aceitarem abandonar o local.
As conversações entre os técnicos do grupo operativo  e os moradores da zona começou em 2000. Em 2013, foi feito o registo e devido registo de todos os moradores, cujas residências estavam abrangidas para serem demolidas. Depois de vários contactos, só no dia 18 de Fevereiro deste ano foi concretizada a mudança para o Zango Três.

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