Reportagem

“Se não mudarmos a nossa vida, podemos já não ter vida para mudar”

Alexa Sonhi

É preciso rever o investimento em políticas ambientais, regulamentar os mercados de carbono, apoiar os países que sofrem com catástrofes ambientais e evitá-las sempre que possível.

Este é o desafio que o secretário geral das Nações Unidas, António Guterres, deixa aos mais de 190 países presentes na Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, que começou ontem, em Madrid.

No discurso de abertura da cimeira, o português deu aos presentes duas opções: a inacção ou a luta contra as alterações climáticas, in-centivando, no entanto, "o caminho da esperança". António Guterres lembrou os relatórios das Nações Unidas sobre o ambiente, divulgados nos últimos dias, que alertavam para um nível histórico de emissões de gases na atmosfera.
É preciso reduzir mais de cinco vezes a quantidade de emissões, sob pena de as ondas de calor e das tempestades atingirem a Terra de forma irreversível. Se estas metas não forem ajustadas e cumpridas, a temperatura do planeta pode subir 3,2 graus centígrados neste século, deixando para trás o objectivo dos 1,5ºC.
"As consequências já se estão a fazer sentir. Se não mudarmos a nossa vida, podemos já não ter vida para mudar", afirmou António Guterres, que defendeu uma mudança concertada que envolva todos os intervenientes sociais.
"É necessário mudar a economia, o trabalho e os actos individuais. Se queremos a mudança, temos de ser a mudança. Não há tempo, nem razão para adiar a mudança. Temos a tecnologia e a ciência necessárias, só temos de mostrar a vontade".
E a COP25 (como é conhecida a Conferência das Partes sobre as Alterações Climáticas) é o lugar para começar a dar passos nesse sentido. O sucesso da reunião mundial depende das negociações que decorrerão nas próximas duas semanas e dos anúncios que se espera que os países façam para tornar mais ambiciosas as metas do Acordo de Paris (2015), insuficientes para travar a luta contra as alterações climáticas.
Na cimeira do próximo ano, que acontecerá em Glasgow, no Reino Unido, os países terão obrigatoriamente de rever as metas estipuladas no tratado assinado na capital francesa e Madrid será a primeira etapa para alcançar a mudança.

Empenho espanhol
Pedro Sánchez, Primeiro-Ministro espanhol, anfitrião da cimeira com organização conjunta entre Espanha e o Chile (que deveria ter recebido a conferência, mas que a cancelou por causa da onda de protestos que tem assolado o país), já deu o primei-
ro passo. Num discurso feito a seguir ao secretário-geral das Nações Unidas, Pedro Sánchez mostrou o empenho espanhol, anunciando que o país está preparado para duplicar a sua contribuição na redução das emissões de gases.
O chefe do Governo espanhol afirmou que "há que ir mais longe e fazer as coisas mais rápido" em matéria de emissões poluentes, já que ou há um "ponto de inflexão" ou se entra em "ponto de não retorno". Sánchez afirmou que a "Espanha está pronta para dar um passo à frente" e vai aumentar "a taxa de redução de emissões" definida até 2030, tendo os olhos postos na cimeira de Glasgow, a sede da próxima Cimeira do Clima.
"Devemos chegar à Ci-meira de Glasgow 2020 com contribuições nacionais muito mais ambiciosas" e com es-tratégias de descarbonização a longo prazo "ordenadas, justas e eficientes", afirmou. Pedro Sánchez manifestou a esperança de que a cimeira "marque um antes e um de-pois" e que faça de Madrid a "capital mundial na luta contra a emergência climática" e o multilateralismo, que na sua opinião terá de ser reforçado.
Sánchez enfatizou que "apenas alguns negam as evidências" das mudanças climáticas e que, neste momento, "não há alternativa senão agir com factos, com acções". A batalha contra a emergência climática, defendeu, exige coragem e determinação, solidariedade e liderança e, acima de tudo, passar das palavras para a acção.
Meia centena de líderes mundiais estiveram ontem na abertura da Cimeira sobre Alterações Climáticas, em Madrid. Ao todo são esperadas delegações de 196 países, assim como os mais altos representantes da União Europeia e várias instituições internacionais.

Temperatura média pode subir 3,2º C

A temperatura média do planeta pode subir 3,2 graus centígrados neste século, se as metas das emissões globais de gases não se tornarem mais ambiciosas. É preciso reduzir mais de cinco vezes a quantidade de gases lançados na atmosfera, sob pena de as ondas de calor e de as tempestades atingirem a Terra de forma irreversível. A conclusão está expressa no Relatório sobre a Lacuna de Emissões de 2019, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), divulgado na terça-feira, dia 26.
O objectivo é não ultrapassar 1,5º C em relação à época pré-indústrial e, para isto, há que mudar o paradigma nos sectores de energia, construção e transportes. De acordo com o documento, a utilização de fontes renováveis pode, até 2050, reduzir as emissões de dióxido de carbono em 78% na energia, 83% na construção e 72% nos transportes.
"Temos de compensar os anos em que procrastinámos", defende Inger Andersen, a directora executiva do PNUMA.
Mais de 10% da superfície do planeta está coberta por gelo, segundo a ONU, e durante este século os oceanos deverão sofrer alterações "sem precedentes", com consequências irreversíveis para os habitats marinhos.
Entre 2006 e 2015, o mar avançou 3,6 milímetros por ano devido ao aumento das temperaturas, da acidez das águas, com menos oxigénio. Estima-se que o aumento do volume dos oceanos, causado pelo aquecimento global, possa atingir 300 milhões de pessoas no mundo, sendo a Ásia o continente mais afectado. Só na China, estarão em risco 93 milhões de pessoas.

Um milhão de espécies ameaçadas
Dos oito milhões de espécies de animais e plantas que existem no mundo, cerca de um milhão está em vias de extinção nas próximas décadas. De acordo com o relatório da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos, considerado o estudo mais abrangente já publicado sobre as espécies, 40% dos anfíbios e mais de um terço dos mamíferos estão ameaçados.
Quase todos os stocks de pescas do mundo estão em declínio, por causa da sobre-exploração, e as florestas perderam 2,9 milhões de hectares desde 1990, o equivalente ao tamanho da Alemanha. Desapareceram ainda, nos últimos 250 anos, 571 tipos de plantas - um número que deverá continuar a aumentar nos próximos tempos.

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