Reportagem

Sementes melhoradas geram grande expectativa para a campanha agrícola

Leonel Kassana |

A campanha agrícola 2017/2018 arranca em condições sem paralelo na história agrícola do país.  Desta vez, os  habituais constrangimentos com fertilizantes, sementes e outros insumos estão suficientemente acautelados através de fortes incentivos a empresários para a sua importação e distribuição oportuna às áreas produtivas.

 

Lote de sementes importadas de Marrocos anima os produtores
Fotografia: José Soares | Edições Novembro

Fruto de um memorando entre os governos angolano e marroquino, operadores nacionais importaram, em condições competitivas, fertilizantes, que já começam a chegar ao país. O objectivo é garantir a auto-suficiência em alimentos e favorecer o aumento do rendimento das famílias que vivem do campo.
As provisões em matéria de sementes fertilizantes e outros imputs agrícolas colocam o país em condições de aspirar, nos próximos anos, uma safra de cerca  de seis milhões de toneladas de milho. Este é um número histórico, que pode marcar a ruptura com as importações deste importante cereal na dieta angolana. Na campanha anterior, foram produzidas cerca de dois milhões de toneladas.
Marcos Nhunga, o ministro da Agricultura, destaca os esforços do Executivo para maior rentabilização das zonas agrícolas, visando essencialmente a melhoria da segurança alimentar no país, em linha com o plano de desenvolvimento de médio prazo para o sector e com as políticas de combate à fome e à redução da pobreza.
Com a campanha agrícola 2017/2018 às portas, o Executivo implementa nova dinâmica na sua estratégia para que ao sector produtivo não faltem, sobretudo,  sementes, fertilizantes e outros imputs. O Ministério da Agricultura tem em curso  um conjunto de iniciativas estruturantes e de fomento do sector agrário tendentes a aumentar a produção e a oferta de bens alimentares, assim como proporcionar mais postos de trabalho e rendimento às famílias.
Como garantia segura para o aumento dos níveis de produtividade das áreas agrícolas em diversas regiões do país e, em consequência, a segurança alimentar da população, a campanha agrícola privilegia o aumento da disponibilidade de sementes melhoradas de alto rendimento, assim como de fertilizantes.
O director da Unidade Técnica de Apoio ao Investimento Privado, UTAIP, António Sozinho, explica que está a ser implementada uma estratégia para o aumento da oferta de sementes melhoradas a pensar no da produção em grande escala e comercialização, com reflexos na diminuição das importações. O processo envolve diversos actores.
António Sozinho disse que a problemática da produção de sementes passa, necessariamente, por incentivos aos produtores para facilitar a sua inserção em todo o processo. Pretende-se, assim, tornar mais atractiva essa actividade ao sector privado.
Acordos de parcerias estratégicas bilaterais com países da região, como a Zâmbia, o Zimbabwe, a Namíbia e a África do Sul, que possuem empresas de comprovada capacidade técnica serão celebrados para a implementação de um programa que vai permitir a disponibilidade permanente de sementes melhoradas e de alta rendibilidade no país. Em paralelo, serão promovidas parcerias internas.
Numa primeira etapa, pretende-se que a execução da estratégia preencha o actual défice que Angola regista no domínio da produção e multiplicação de variedades de sementes de milho, massango, massambala, feijão, soja e de batata-rena.
A produção de sementes passa, necessariamente, por incentivos aos produtores para facilitar a sua inserção em todo o processo, pretendendo-se, com isso, torná-la mais atractiva ao sector privado. Uma boa notícia, esta, para os agricultores, pois o aumento da oferta de sementes para a prática de agricultura pressiona para baixo os preços, enquanto a sua chegada em tempo útil resulta em ganhos significativos e evita os habituais constrangimentos.
Dados do Ministério da Agricultura indicam que, até agora, as importações sementes representam quase quase o dobro das aquisições de cereais programadas em 2016.
Este é o resultado mais visível do processo de venda dirigida de divisas para os sectores que o Executivo toma como prioritários, onde sobressaem aqueles que estão directamente ligados à produção de bens alimentares para a população.
O Executivo mostra-se particularmente preocupado com os preços verdadeiramente proibitivos das sementes para o produtor final, as elevadas taxas pela prolongada estadia no porto seco e com os elevados preços de transportação para as áreas de cultivo, nomeadamente nos municípios e comunas.

Sementes e fertilizantes

Apesar de possuir condições naturais e matéria-prima básica para a produção de fertilizantes, Angola investe anualmente somas significativas na sua importação. Esse é um quadro que o Executivo quer inverter com uma estratégia claramente virada para o aumento da oferta de fertilizantes. Aqui se privilegia a promoção e o incentivo ao estabelecimento de parcerias técnicas e tecnológicas com empresas de renome mundial para assegurar o aumento da oferta no mercado.
A UTAIP sublinha que no contexto da produção agrícola, a par das sementes, que representam um dos factores mais importantes para assegurar com êxito a produção alimentar, a fertilidade dos solos, a nutrição e a adubação são componentes essenciais que são acautelados para permir um sistema de produção eficiente.
Empresários nacionais negociaram, com o apoio dos governos de Angola e Marrocos, a aquisição e fornecimento de adubo. O primeiro carregamento de 29 mil, das 150 mil toneladas deste produto começou a ser encaminhado para as diferentes regiões do norte de Angola, a partir do Porto de Luanda onde se encontra atracado um navio proveniente daquele país do país do norte de África.
Trata-se, pois, de uma quantidade muito significativa para as ambições de Angola que, na campanha agrícola 2017/2018, pretende atingir mais de cinco milhões de toneladas de milho.
Os importadores angolanos conseguiram, dos marroquinos, condições favoráveis para a compra dos adubos, que chegam aos produtores a preços mais acessíveis. A OCP, empresa que fornece os fertilizantes, estabeleceu 330 dólares por tonelada, incluindo o transporte até aos portos de Luanda e do Lobito.
Contactos com vários fabricantes de fertilizantes da Federação Russa para aquisição de 80.000 toneladas de adubos simples decorrem nesta altura, no seguimento da estratégia traçada pelo Governo para a produção de sementes, dotar Angola de uma indústria competitiva e sustentável e tornar os solos mais produtivos.
A Rússia é considerada “grande potência” na produção de adubos compostos e simples, bem como de pesticidas e herbicidas. Numa altura em que, em Angola, vários projectos para a produção de fertilizantes aguardam por financiamento bancário, os contactos na Rússia são vistos com potencial para acelerar o arranque da sua produção em grande escala no país.
“Estamos a manter contactos com a Rússia para, numa primeira fase, adquirirmos esses fertilizantes, amónio e ureia e, na segunda, ajudarem-nos na sua produção em Angola”, explica o director da UTAIP, António Sozinho.
Os fertilizantes ocupam, na verdade, um lugar de relevo no programa de segurança alimentar da população, segundo o Plano Nacional de Desenvolvimento que privilegia a disponibilização de divisas. Entre Abril de 2016 e Janeiro deste ano foram alocados ao sector agrícola significativas verbas que permitiram a de 113 milhões de toneladas de fertilizantes.

Tracção animal

A intensificação do recurso à tracção animal e motos cultivadoras na área agrícola familiar destacam-se, também, da estratégia para o aumento da produção e produtividade, permitindo a melhoria da segurança alimentar e incremento do rendimento das famílias.
O ministro da Agricultura, Marcos Nhunga, disse que o sector iniciou a distribuição de charruas para tracção animal em várias províncias, um processo que garante o alargamento das áreas produtivas e a sua rentabilidade. Os camponeses da Huíla, por exemplo, receberam já 6.000 unidades, das cerca de 80 mil a serem distribuídas em todo o país na próxima campanha agrícola.
“O processo de entrega de charruas aos camponeses continua em todo o país”, garante Marcos Nhunga, que destaca o empenho do seu sector no reforço da capacidade produtiva das famílias na cruzada contra a fome e a pobreza.
Na Huíla, uma das principais potências agrícolas do país, estão preparadas para a campanha cerca de 400 mil hectares com uma previsão de colheita de 500 mil toneladas de diversos produtos agrícolas. Na campanha, estarão envolvidas mais de 700 mil famílias camponesas integradas em associações e cooperativas agrícolas, ao que se juntam diferentes empresas agrícolas. As autoridades fazem uma aposta forte na promoção da moto mecanização para a intensificação da produção agrícola no sector corporativo e empresarial em todo a território.
 
Milho da Zâmbia

Para a campanha agrícola 2017/2018, Angola tem uma boa notícia para as suas ambições de tornar-se auto-suficiente na produção de sementes de milho. O Governo da Zâmbia, um dos maiores produtores desse cereal em África, acaba de anunciar a oferta de 5.000 toneladas de sementes de milho a serem utilizadas em diferentes regiões agrícolas.
Trata-se de uma quantidade muito significativa para as ambições do país em matéria de segurança alimentar, quando é público que na campanha agrícola 2015/2016 foram colhidas pouco mais de dois milhões 238 mil toneladas de milho em todo o país, significando tal um aumento de 360 mil 151 toneladas em relação ao período precedente.
Angola prevê produzir pouco mais de 4, 5 milhões de toneladas de cereais na próxima campanha agrícola, cifra para a qual pode contribuir, decisivamente, a quantidade de sementes a ser disponibilizada por uma companhia da zambiana.
De país deficitário em cereais há 10 anos, a Zâmbia tem hoje uma produção excedentária, calculada em 3.000.000 de toneladas por ano. Parte dessa produção é comprada pelo Governo para a agência de reserva alimentar. O Governo criou, para os produtores de milho, políticas adequadas que permitem esse excedente cerealífero.
Pretende-se, assim, replicar em Angola o que de melhor se faz no país vizinho para garantir, a médio prazo, a auto-suficiência em cereais, a partir de um programa dirigido e que contempla aspectos como correcção de solos, adubos, combustíveis, transporte e outros aspectos em toda a cadeia produtiva do milho.
Peritos de uma empresa zambiana produtora de sementes vêm ao país para, com equipas angolanas do Ministério da Agricultura, determinar com rigor as regiões e a tipologia de sementes a enviar para Angola em função das características dos solos, a garantia é do próprio ministro da Agricultura de Angola. “Vamos receber uma equipa de técnicos zambianos para definirmos as variedades de sementes a serem enviadas para Angola, num trabalho a ser feito com os nossos quadros”, diz o ministro Marcos Nhunga.

Projectos agrícolas

Mas a agricultura na Huíla ganha um aliado de “peso”, com a entrada de empresários polacos que pretendem investir na produção de cereais, como milho, trigo e outros no perímetro irrigado do município da Matala, onde o Governo disponibilizou uma área de 1.000 hectares de terra.
Trata-se de um projecto que foi elaborado para que, dentro dois a três anos, a produção de cereais tenham um impacto significativo na vida da população da Matala, primeiro e, depois, para escoamento às outras regiões do país. “Vamos trazer aqui (Matala) as novas tecnologias que a Polónia utiliza, sobretudo no cultivo e recolha de milho, trigo e outros produtos e contribuirmos no desenvolvimento e melhoria das condições de vida dos habitantes da Matala”, garante um representante da empresa polaca, Drzew Owocowych Krzewow Roz, responsável pela execução do projecto.
Kulifikowana Szkolka refere que vão começar, já, os trabalhos de análises de solos e a criação das infra-estruturas de apoio à produção, enquanto os dois governos terminam os aspectos jurídicos do projecto.
A Matala é, aliás, um dos principais polos de desenvolvimento agrícola na região sul de Angola, o que é favorecido por um perímetro irrigado a partir do rio Cunene. Na Huíla, tem vindo a ganhar espaço a criação de silos para receber a produção cerealífera. No município de Caconda, por exemplo, estão disponíveis três silos para 12 mil toneladas cada. É um dado muito significativo para garantir a segurança alimentar da população.
Da Sociedade de Desenvolvimento da Matala (Sodmat), que gere o perímetro irrigado da Matala, vem a garantia da produção de mais de 100 mil toneladas de produtos diversos na campanha agrícola 2017/2018. Esse é o resultado do alargamento, pelas cooperativas, das áreas de cultivo de milho, feijão, batata rena, alho, couve, cebola e outros produtos.

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