Reportagem

Seropositivos contra a discriminação

Osvaldo Gonçalves |

A discriminação que dizem ser vítimas por parte dos técnicos de saúde é umas das três causas do abandono do tratamento com anti-retrovirais pelas pessoas infectadas pelo vírus da sida em Angola, anunciou esta semana em Luanda o secretário executivo da Rede Angolana das Organizações de Serviços contra a Sida (ANASO), António Coelho.

 

O abandono pelos pacientes do tratamento ministrado nos hospitais tem aumentado
Fotografia: Francisco Bernardo | Edições Novembro

Angola tem 25,7 milhões de habitantes e uma taxa de seroprevalência em VIH/Sida que ronda os 2.8 por cento, considerada uma das taxas mais baixas com relação aos demais países, mas de todas as formas preocupante, tendo em conta que, de acordo com a ANASO, mais 22 por cento dos pacientes controlados abandonam o tratamento à base de anti-retrovirais.
As outras causas apontadas foram as longas distâncias a percorrer pelos pacientes para chegarem às unidades sanitárias e a dosagem prescrita, que é considerada forte. O responsável técnico referiu que mais de 80 por cento dos seropositivos são pessoas de baixos rendimentos, não tendo por isso capacidade de resposta do ponto de vista nutricional. Cerca de 200 mil seropositivos são acompanhados e destes apenas 90 mil estão em tratamento.
“A qualidade dos serviços destinados às vítimas da Sida tem de ser melhorada, além da capacidade e conhecimento dos mobilizadores sociais”, disse António Coelho, pois, embora o Governo disponibilize verbas para a compra de anti-retrovirais, reagentes e testes, ainda se regista ruptura de stocks, um problema que pode deixar de existir se houver uma estratégia de gestão rigorosa das reservas, que passa pela formação contínua dos recursos humanos.
Em Dezembro último, o então ministro da Saúde, José Van-Dúnem, afirmou que a Sida continuava em níveis controlados, mas, se medidas de grande intensidade não forem tomadas, o país pode ter uma situação muito grave. Acrescentou, então, que esta luta não pode ser de maneira nenhuma um problema do Ministério da Saúde nem da sociedade civil e das Ongs, mas sim deve ser todo organizado na Comissão Nacional de Luta contra a Sida com a capacidade de envolver as instituições religiosas e organizações não-governamentais, empresas lucrativas, professores, artistas e jornalistas a ficarem envolvidos no combate, porque é de facto um grande desafio que não permite a exclusão de ninguém.
A ANASO é composta por 315 organizações não-governamentais que trabalham no combate ao VIH/Sida, mas apenas 48 estão a funcionar, “o que demonstra as grandes dificuldades que as organizações enfrentam para  a sua sobrevivência”, disse o secretário executivo da rede.A maior parte das organizações não-governamentais, entre nacionais e internacionais, paralisou a actividade devido à crise económica e financeira.
Uma preocupação manifestada pelo Ministério da Saúde é relativa ao número elevado de mulheres infectadas. Angola tem mais de 13,2 milhões de mulheres, contra 12,4 milhões de homens. A inquietação deve-se ao facto de as mulheres serem as mais afectadas pela pobreza no país, o que aumenta a vulnerabilidade do sexo transaccional.
O abandono do tratamento é uma preocupação recorrente das autoridades da Saúde do país. No Cuanza-Norte, em Abril de 2011, manifestavam-se preocupadas com os seropositivos que abandonavam o tratamento, correndo o risco de aumentar a infecção e contaminar outras pessoas. O coordenador do Núcleo Provincial do Kwanza-Norte de Controlo e Combate à Sida, Mateus Gaspar, dizia que, nos encontros com os doentes infectados se procurava demonstrar “as vantagens do tratamento correcto e as medidas de prevenção. Não desistimos e continuamos atrás deles, para os convencermos a voltarem às nossas consultas”.
Mateus Gaspar disse que a desistência do tratamento é um perigo para o próprio doente, levando-o à degradação física total: “é um crime se este doente ir propagar a doença a outras pessoas propositadamente”.
Em Dezembro do ano passado, a Televisão Pública de Angola noticiava que seropositivos da cidade do Lubango, capital da Huíla, estavam a abandonar a terapia antiretroviral com receio de ser encontrados por pessoas conhecidas no centro médico, receando alguma descriminação.
O abandono do tratamento não é caso exclusivo de Angola. Em Moçambique, um terço dos doentes em tratamento de SIDA abandona o acompanhamento clínico no primeiro ano, situação agravada pela falta de apoio do Governo, segundo a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF).
Do universo de 1,6 milhões de infectados de SIDA em Moçambique, apenas 640 mil procuram tratamento, mas um terço abandona-o logo no primeiro ano, segundo dados oficiais revelados em Maputo durante a apresentação do relatório “Aconselhamento em HIV/TB: Quem está a fazer o trabalho”.
“A maior parte das organizações no terreno está a trabalhar, mas o Governo não está a garantir o seu próprio pessoal e, por isso, existe uma lacuna”, disse à Carlota Silva, analista da MSF para o tema de SIDA, à margem da apresentação do relatório.
“É importante que haja mais vontade política por parte do Governo. Neste momento, os clínicos e enfermeiros são muito poucos”, adiantou Carlota Silva.
O fraco aconselhamento e reduzido número de conselheiros nas unidades sanitárias para HIV/SIDA é considerada maior causa de desistência do tratamento anti-retroviral visto que num universo de 1893 conselheiros necessários para corresponder ao número de pessoas infectadas, apenas 500 e são pagos por financiadores.
“O que as pessoas precisam em TARV (tratamento anti-rectroviral) não é só de médicos, mas de pessoas que conhecem as suas realidades diárias e possam orientá-las a superar os obstáculos. É preciso garantir uma posição nas unidades Sanitárias com ligação ás comunidades que sejam devidamente treinadas, supervisionadas e pagas. Eles (os conselheiros) são um investimento para o futuro”, disse Amós Sibango, representante da RENSIDA.
No Brasil, um terço dos soropositivos abandona a medicação. Cerca de 190 mil pessoas não lutam contra a enfermidade naquele país. Entre os motivos, destaca-se os efeitos colaterais dos anti-retrovirais. Apesar de as drogas serem cada vez menos tóxicas, ainda não existe, por exemplo, um medicamento que seja absolutamente livre de provocar um dos efeitos mais temidos pelos pacientes com HIV: a alteração da distribuição da gordura corporal também chamada de lipodistrofia. Devido ao impacto na auto-estima, muitos sentem-se impelido a abandonar o tratamento, o que dificulta interromper a cadeia de transmissão naquele país.
Um dos aspectos que mais se deve ter em conta no caso das doenças graves, com risco permanente de vida, como é a infecção por HIV, é a tendência natural para os pacientes entrarem em depressão, pelo que precisam ser amparadas e incentivadas a seguir o tratamento e demais medidas com vista a manterem-se social e economicamente activas.
Sendo conhecido o espírito reinante de deixa-andar e mesmo abandono das pessoas infectadas pelo vírus HIV por parte dos amigos, parentes e familiares, cabe ao sector da Saúde dar esse respaldo.

  Diferença no atendimento entre médicos e enfermeiros

Como refere
Amós Sibango, da RENSIDA, em Moçambique não são precisos apenas médicos, mas pessoa, no geral que conhecem a realidade diária dos infectados e os orientem.
Um breve acompanhamento de pessoas portadoras do vírus permitiu-nos confirmar a forma discriminatória como são tratados pelos técnicos de saúde, sobretudo aqueles que têm a responsabilidade de proceder à distribuição dos medicamentos.
Há um verdadeiro contraste entre o atendimento pelos médicos especializados, que acarinham e incentivam os infectados, exortando-os a manterem em cima a auto-estima, a seguirem a sua vida normal, enquanto se cuidam cada vez mais e tomam todas as precauções para evitar o contágio de outras pessoas e evitarem voltar a ser contaminados, e o tratamento dispensado pelos enfermeiros e técnicos de saúde, que, de facto, lidam com os indivíduos infectados.
Podemos aqui dizer que, em várias unidades, também públicas, mas, sobretudo, privadas, é feita a venda de anti-rectrovirais. Existem mesmo esquemas montados para que o necessitado sequer apareça nas unidades de saúde, de forma a evitar suspeitas a respeito do seu estado serológico.
Atendendo à taxa de seroprevalência oficial, Angola tem a obrigação de se prever, fazendo-se munir de profissionais capazes aos mais diferentes níveis para atender às necessidades da população. É preciso que o indivíduo portador do vírus veja no técnico um aliado na luta diária que tem de travar para se activo do ponto de vista social e económico. São conhecidos os esforços que têm sido feitos para formar pessoal médico cada vez mais capacitado para cuidar com o HIV-Sida, emprenho esse que pode ser constatado aos mais diversos níveis do sistema de saúde, desde os grandes hospitais às clínicas e postos de saúde, mas é preciso incluir nesse barco os técnicos de base, aqueles que, de facto, fazem o acompanhamento dos portadores do vírus.
E mais: é preciso que se tomem medidas e se publicitem os casos em que os funcionários são chamados à razão por terem incorrido em actos de discriminação contra os infectados, melhorando-se, outrossim, os mecanismos que permitam a denúncia desses casos, com a salvaguarda da identidade dos denunciantes.

Tempo

Multimédia