Reportagem

Siderúrgica do Cuchi entra em actividade

Edivaldo Cristóvão |

Angola tem cada vez mais dado sinais de que a dependência do petróleo é uma questão de tempo. Hoje por hoje é menos relevante a recuperação do preço do petróleo nos mercados internacionais, tudo porque começam a dar resultados dos investimentos feitos em outros segmentos em outros produtos cotados nos mercados internacionais.

Fornos da Companhia Siderúrgica do Cuchi
Fotografia: Nicolau Vasco | Edições Novembro

No Cuando Cubango, mais concretamente na região do Cutato, a siderúrgica destinada a fabricar o ferro gusa está pronta a funcionar. Até à primeira quinzena de Agosto, entra em actividade a Companhia Siderúrgica do Cuchi, com 3.500 postos de trabalho directos e um número ainda não calculado de empregos indirectos.
Com grande procura no mercado internacional, o ferro gusa é o produto imediato da redução do minério de ferro pelo coque ou carvão e calcário num alto-forno. Normalmente, contém até cinco por cento de carbono, o que faz com que seja um material quebradiço e sem grande uso directo. Geralmente, nos processos industriais, o ferro gusa é considerado uma liga de ferro e carbono, contendo de 2,11 por cento a 5,00 por cento de carbono e outros elementos ditos residuais, como silício, manganês, fósforo e enxofre. É vertido directamente a partir do cadinho do alto-forno para contentores, para formar lingotes, ou usado no estado líquido em fundições. Os lingotes são então usados para produzir ferro fundido e aço, ao extrair-se o carbono em excesso.
O ferro gusa tornou-se uma presença permanente e incontornável na vida das pessoas. Na bicicleta, nos vagões, navios e metros. Na estrutura da sua casa, no secador de cabelo, na turbina do avião, no arado que prepara a terra para o plantio, no silo que armazena os grãos. Na lata que conserva o alimento. Na extracção de petróleo, na central hidroeléctrica. O aço faz parte da sua vida, em todos os aspectos. Ele representa 90 por cento dos metais consumidos pela população mundial. E o ferro gusa é essencial para a produção do aço. O ferro gusa é, basicamente, uma liga de ferro, resultado da redução desse minério, ao absorver carbono num alto-forno. A grande questão à volta da produção de ferro gusa é o uso de grandes quantidades de carvão vegetal. O carvão serve ao mesmo tempo como combustível para manter os fornos a uma temperatura de 1.500°C, necessária para derreter o minério de ferro, e como um agente químico para o processo de redução dos óxidos de ferro.

Grande potencial


A Companhia Siderúrgica do Cuchi vai ter uma produção anual de 500 mil toneladas de ferro gusa e gerar mais de 3.500 postos de trabalho directos e outros indirectos exclusivamente para jovens angolanos. Está previsto o arranque da unidade de transformação de minério de ferro, num investimento avaliado em 226 milhões de dólares. Existe em redor do projecto uma grande expectativa pelo papel que lhe está reservado no processo de desenvolvimento da indústria mineira do país, nomeadamente como fonte de matéria-prima para a produção de aço, que é hoje o produto mais reciclável e reciclado do mundo. Carros, geleiras, fogões, latas, barras e arames tornam-se sucatas, que alimentam os fornos das centrais de energia, produzindo novamente aço com a mesma qualidade.
Além disso, espera-se que venha a ser uma importante fonte de entrada de divisas, tendo em conta a enorme procura internacional de ferro gusa. O projecto começa com a desmatação, seguida da plantação de eucaliptos para a produção de carvão vegetal, para que a fábrica possa transformar o minério.
O projecto está na segunda fase de execução. A primeira foi concluída em Fevereiro deste ano, onde foram instalados os fornos e concluída a zona residencial faltando apenas alguns acabamentos. A segunda fase comporta a expansão do projecto para outras áreas e compreende a construção de um ramal do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes até ao interior da mina.
A conclusão da construção de uma aerogare está para breve faltando apenas a segunda camada da terraplanagem e o asfalto, apôs o fim das obras, a pista vai receber aviões de grande porte. Dentro do projecto estão em fase de conclusão equipamentos de apoio como piscinas, pavilhões multiuso e refeitórios para os trabalhadores.
Existem, na comuna do Cutato, muitas reservas de recursos minerais para a produção do ferro gusa e de outros minérios que carecem de estudos para a sua exploração e para promover o bem-estar da população.
O Governo Provincial do Cuando Cubango tem trabalhado para recuperar rapidamente o troço Cuchi-Cutato, com o intuito de dinamizar a circulação de pessoas e bens e garantir o escoamento dos produtos com segurança. O projecto está localizado numa área onde normalmente a chuva cai com muita intensidade.

Inovação tecnológica

A busca de eficiência no processo de dessulfuração do ferro gusa resultou em novos procedimentos e inovações em equipamentos, que aumentaram significativamente a qualidade final do aço e reduziram o consumo de energia, além de transformarem um resíduo tóxico em material inerte.
Os processos actuais usam óxido e carbonato de cálcio que reagem com o enxofre, formando sulfato de cálcio. Como a retirada do enxofre não é muito eficiente, o aço chega a um padrão de qualidade quatro ou cinco, numa escala de um a dez.
O ferro gusa é um subproduto do processo de fundição para se fazer ferro puro. O minério de ferro é aquecido, utilizando alto teor de carbono combustível de coque, o que resulta em ferro fundido com uma característica de carbono muito elevada, geralmente cerca de quatro por cento. Durante a Revolução Industrial o ferro gusa foi amplamente utilizado. Agora, é normalmente fundido em ferro forjado, que é um material mais útil.
O ferro gusa possui propriedades úteis e, devido aos métodos modernos de metalurgia estão agora disponíveis materiais melhores. Todas as formas de gusa contêm entre 3,5 e 4,5 por cento de carbono, juntamente com várias quantidades de enxofre silício, manganês e fósforo. O ferro gusa básico tem menos de 1,5 por cento de silício, menos de um de manganês e quantidades residuais de enxofre e fósforo.
O gusa hematite tem quantidades similares dessas impurezas, mas com quantidades muito maiores de silício, normalmente entre 1,5 por cento e 3,5 por cento. A forma mais comum deste material de ferro gusa nodular não tem silício, mas 0,05 por cento de manganês, de enxofre e de fósforo.

Metal frágil

O ferro gusa é um metal muito quebradiço, devido ao elevado nível de carbono e às outras impurezas que se formam nele. Outros elementos encontrados no ferro gusa também enfraquecem a sua estrutura. O seu ponto de fusão é muito mais baixo do que o do ferro forjado ou aço. Mas isto não é um problema em termos de propriedades físicas, já que permite que seja transformado em ferro cinzento fundido de baixo grau, uma mistura de ferro gusa e sucata de aço e de ferro.
As impurezas do ferro gusa conduzem a outros materiais que se formam durante o processo de arrefecimento. O ferro e o carbono combinados produzem o carboneto de ferro. O carbono restante forma grafite semelhante à encontrada em lápis. Se se deixar o ferro arrefecer muito lentamente, forma-se uma maior quantidade de grafite, enfraquecendo o material.
A maior parte do ferro gusa produzido a partir de 2011 não é usada da mesma forma como antes. Geralmente, é forjada para criar ferro forjado ou o seu nível de carbono é reduzido para formar o aço.

Conservação do ambiente

Com o avanço tecnológico dos fornos e a crescente procura por produtos feitos de ferro e aço, as indústrias siderúrgicas aumentaram a produção. Isso gerou problemas, devido aos gases poluentes libertados na atmosfera pela queima de carvão vegetal. Em meados do século XIX, a produção diária de um alto-forno chegava a cerca de três toneladas, o que elevava ainda mais o consumo de carvão vegetal.
A partir do século XX, as siderúrgicas foram aumentando os investimentos em tecnologia, de forma a reduzir o impacto da produção no meio ambiente, reforçar a segurança dos funcionários e da comunidade, assim como produzir cada vez mais aço com menos insumos e matérias-primas.

  Fonte de carvão está garantida

Como outras siderúrgicas pelo mundo, a do Cuchi tem uma preocupação especial com a fonte de carvão vegetal. Existem outras fontes, mas as mais utilizadas costumam ser a plantação de florestas próprias, apostando no reflorestamento, e extracção de madeira nativa em áreas autorizadas. O projecto Cuchi tem uma área reservada para o plantio de eucaliptos, uma planta de fácil cultivo e menos exigente em termos de humidade e fertilidade do solo. Além disso, cresce rápido como poucas árvores e tem uma grande capacidade de adaptação às condições edafoclimáticas.
Ao mesmo tempo que as obras da siderúrgica do Cuchi estão em conclusão, tem sido produzido numa fazenda local, o carvão para ser utilizado na produção do ferro gusa. O carvão, neste momento, está a ser produzido em 66 fornos instalados no local e é fabricado com a matéria-prima (árvores) extraída do terreno desmatado. A fazenda Vunongue que antes tinha 120 trabalhadores efectivos, agora com 17. A meta é atingir em dois anos 1.700 fornos para atender a indústria do Cuchi. Um forno tem capacidade de armazenar cerca de 11,4 metros cúbicos de lenha para uma produção de 5,7 metros cúbicos de carvão num período de seis dias.
Além de ser útil para a indústria de ferro, por ser mais resistente e durável, o carvão vegetal também serve para uso doméstico. Neste momento, estão armazenadas 500 toneladas de carvão em contentores que aguardam pelo arranque da fábrica.
Os gestores do projecto consideram necessário desfazer-se do carvão armazenado, por não poder ficar muito tempo conservado. Sem o arranque urgente da fábrica de ferro gusa, como principal destino do produto, parte do carvão tem de ser exportado e outra vendida no mercado interno.

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