Reportagem

Sistemas do satélite estão todos funcionais

Honorato Silva | Moscovo

Satélite é a “palavra-chave” da semana, para os angolanos e quem prestasse atenção ao país fora das suas fronteiras. Tudo porque às 19h00 de terça-feira, a partir do cosmódomo de Baikonur, Cazaquistão, estava previsto o lançamento do Angosat.

Delegação angolana encabeçada pelo ministro de Estado para a Política Económica e Social, Manuel Nunes Júnior festejou com júbilo, em Moscovo, o lançamento do primeiro do Angosat-1
Fotografia: Rogério Tuti | Edições Novembro | Moscovo

Meia hora antes do tempo previsto para o acto que marcaria a entrada de Angola na engenharia espacial, através da utilização do seu próprio satélite, os “engenheiros cientistas” da estação de controlo de Moscovo ocupavam os seus lugares na sala de comando das operações.
Apenas depois de estarem sentados diante dos computadores instalados em poltronas, na parte central do amplo anfiteatro com o formato de hemiciclo, é que os especialistas da navegação espacial assumiram a posição diferenciada na sala. Pelos auscultadores, recebiam de Baikonur pedidos de confirmação dos parâmetros de telemetria do satélite, bem como da carga de combustível e temperatura do foguete.
A delegação angolana encabeçada pelo ministro de Estado Manuel Nunes Júnior, que teve sempre a seu lado o titular da pasta das Telecomunicações e Tecnologia de Informação, José Carvalho da Rocha, conhecedor da génese do projecto, ouvia de um dos responsáveis da estação explicações das diferentes fases a serem vencidas pelo Angosat até ser dado como totalmente operacional, dentro de um ano e três meses.
O grande painel electrónico no topo da sala, equipado com um moderno sistema de ampliação sonora, mostra vários dados em russo, que para a maioria dos angolanos eram indecifráveis. Mas havia um que dispensava tradução: o relógio digital com a contagem em ordem decrescente do tempo que restava para o premir do botão e disparar o propulsor atestado de carga explosiva.
Enquanto os membros do Governo angolano, integrados na delegação, e convidados de várias instituições públicas e privadas trocavam impressões, procurando interpretar as explicações dadas pelo especialista, os jornalistas escolhiam o melhor ângulo para reportar mais um momento histórico de Angola, Estado soberano.
Os da televisão e da rádio tentavam garantir a entrada em directo, pois segundo a lenda da profissão “tem outro sabor”, enquanto o fotógrafo, com a objectiva apontada, disparava contra tudo que aparecesse no seu horizonte visual, e o redactor, na velocidade de escrita de um estenógrafo, marcava no bloco de notas palavras abreviadas, sendo que muitas eram meros rabiscos difíceis de decifrar, no momento de compor o texto a ser enviado para a Redacção.
De Luanda ligavam com insistência, para garantir a operacionalidade do “plano B”, depois de ter sido abortada, no período matinal, a viagem de Moscovo a Baikonur, por força do mau tempo que tornou impossível a navegação aérea e aterragem na capital do Cazaquistão. Sabia-se que em Angola o momento seria acompanhado em directo pela televisão, com a particularidade de ter sido montada uma tela gigante na Praça dos Eventos, no calçadão da Baía.
Com a sala quase tomada pelo silêncio, o relógio do grande painel indicava 21h55 em Moscovo, menos duas horas em Angola. A TPA e a TV Zimbo estavam com o principal noticiário pronto a ir para o ar. Na RNA o cenário era o mesmo. Ulisses de Jesus pergunta ao repórter Paulo Miranda Júnior se era possível chamar a Comandante Jika, de modo a entrar em directo. A hora avançada há uma semana, 19h, passou a ser apenas um indicativo, uma vez ter sido ultrapassada.
Mas ainda faltavam mais de 60 segundos para o relógio chegar a zero, no ecrã gigante da sala de controlo e coordenação viu-se o acender das chamas e o aumento da combustão do foguete propulsor. Num ápice, o engenho estava separado da base de lançamento. Ouviram-se os primeiros aplausos, acompanhados de cânticos.
O Angosat-1 começava aí a sua viagem rumo à zona espacial e, de igual modo, travava a sua maior batalha pela sobrevivência. De acordo com a história mundial de lançamento de satélites, esse período de 5 minutos é comparado aos primeiros sete meses de vida do homem, findos os quais a criança é considerada livre dos riscos e complicações inerentes à maternidade.
Era a vez dos engenheiros controladores de toda a operação serem o centro das atenções. A partir dos seus monitores liam os parâmetros de telemetria e informavam à equipa de Baikonur, integrada por técnicos angolanos, que durante o processo de execução do projecto do satélite agregaram a formação média feita no Instituto de Telecomunicações (ITEL) os graus académicos de licenciatura, mestrado e doutoramento. Hoje Angola tem quadros preparados para exercer a co-liderança do domínio espacial em África.
Normal passou a ser o código comunicacional. “Pressão normal, carga normal. Aos 15 segundos, funcionamento normal. 80 segundos, telemetria normal. 160 segundos, computador normal”, foi o que se ouviu os coordenadores de operação reportar para a base instalada no Cazaquistão, numa contagem que ultrapassou os 500 segundos, quando o normal é a unidade de tempo mudar para minuto aos 60.
A festa angolana tornou-se mais intensa no momento em que se anunciou a separação com êxito do satélite e o foguete. Catarina Joaquim Dala “Tia Caty”, trabalhadora há 20 anos do Ministério, começa a cantar e a agradecer a Deus, “por proteger” o Angosat: “Obrigado Senhor, Aleluia/obrigado Senhor, Aleluia!”
Naquele momento trocou a tristeza por ganhar durante tanto tempo 23 mil kwanzas, sem saber o que vai levar para a reforma dentro de quatro anos, pela alegria de ver dar certo um projecto que viu nascer de vassoura na mão, na sua tarefa de auxiliar de limpeza. Hoje faz parte do protocolo. Recebe correspondência e conduz visitante.
José Carvalho da Rocha chora de forma compulsiva. Descarrega o peso de uma responsabilidade de quase 10 anos, com muitas vozes a opinar em sentido contrário, por não ser o satélite investimento prioritário num país como Angola, cuja população tem carências básicas de saúde e alimentação. As lágrimas que escorreram no rosto do ministro traduziam a satisfação de ver o país passar sem reserva no derradeiro teste, depois de um trabalho que envolveu “a leitura de 12 mil páginas de comunicação e 3 mil páginas de contrato”, sem perder de vista muitas viagens em “condições difíceis”.
Concluída a contagem, o satélite angolano era dado como assentado na sua órbita de base. Depois de uma hora estava previsto o primeiro processo de abertura dos painéis solares e em 6h55 seria ordenado o bloco de aceleração do Angosat. Estava concluído com sucesso o seu lançamento e, com isso, vencidos os 5 minutos de grande expectativa.
A representar o Governo angolano, Manuel Nunes Júnior dirigiu-se aos presentes. Começou por destacar o empenho de técnicos russos e angolanos, pela dedicação no projecto, e agradeceu à Rússia pela transferência de tecnologia e conhecimento para Angola.
Já no exterior do edifício da sala de controlo e coordenação, o ministro de Estado enfrentou a noite fria de Moscovo, coberta de neve, para falar aos jornalistas, uns com emissão em directo: “Para Angola é um momento histórico. Representa um acto de grande importância para a nossa soberania. Com isso as nossas operadoras vão deixar de exportar divisas, com o pagamento de serviço de satélite no exterior, mudança que vai proporcionar comunicações mais rápidas e mais baratas. Foram 12 anos de maturação. Teremos grandes benefícios sociais, como maior acesso à internet, o que pressupõe maior possibilidade de investigação para os nossos estudantes, a todos os níveis de ensino. O conhecimento é que determina, nos dias de hoje, o desenvolvimento dos países. Vamos agora aguardar pelos três meses para deixar a fase de experiência e passar para a de funcionamento definitivo.”

Perda do sinal alimenta tese de erro na aposta

A perda momentânea da comunicação entre as salas de controlo de Baikonur, Cazaquistão, e da Funda com o Angosat-1, o primeiro satélite angolano lançado na terça-feira para a zona espacial, motivou um ambiente de grande agitação.
Após uma notícia divulgada por um órgão estrangeiro, suportado por fontes russas, instalou-se uma onda de comentários, com os mais cépticos a concluírem que a quebra na comunicação representava o fracasso do processo de lançamento do satélite, que 12 horas antes tinha sido certificado pelos especialistas russos como bem-sucedido.
Em coordenação com as equipas de Baikonur e Luanda, o ministro das Telecomunicações e Tecnologias Informação, José Carvalho da Rocha, encabeçava a parte angolana que em Moscovo aguardava explicações técnico-científicas dos engenheiros da Rovobono Sport, a empresa russa especializada no transporte de satélite, contratada para colocar o Angosant-1 na sua posição espacial.
Dada a pressão feita pelas redacções a partir de Luanda, numa altura que subia o tom nas abordagens feitas nas redes sociais, com toda a sorte de comentários, uns totalmente fatalistas, a induzir outros, os jornalistas destacados para reportar o lançamento do satélite instaram o ministro a fazer um esclarecimento, de modo a serenar os ânimos.
Talvez descansado pela seriedade e reputação da Rovobono Sport, bem como da responsabilidade por qualquer anomalia, incluindo a perda do satélite, a cargo do consórcio de seguradoras, José Carvalho da Rocha conversou de forma descontraída com os jornalistas.
“Entendo o estado de preocupação dos angolanos e vossa, por ser a primeira vez que o nosso país está numprocesso do género. Mas vamos ter calma, porque o nosso satélite está bem. Houve apenas uma quebra momentânea no envio da telemetria, o que é normal acontecer. Nas próximas 16 horas os engenheiros vão nos dar todos os dados com as razões da falha e a solução”, tranquilizou.
Quinta-feira, dentro da janela temporal definida pelos especialistas, era anunciada a normalização das comunicações entre o Angosat, na posição espacial, e as bases de controlo terrenas instaladas em Luanda e  Baikonur.

Empresa russa confirma operacionalidade do satélite

O primeiro satélite angolano, AngoSat-1, está a enviar dados de telemetria à Terra, confirmou ontem a empresa aeroespacial russa de Energia.
“A informação de telemetria recebida do satélite mostra que todos os sistemas a bordo funcionam bem”, lê-se em um comunicado da empresa.
No dia 28 de Dezembro, uma fonte da indústria espacial informou que os especialistas tinham conseguido restabelecer o contacto com o satélite AngoSat-1 e recebiam já dados de telemetria enviados do aparelho, depois de mais de 40 horas sem interconexão.
O satélite AngoSat-1, de 1.647 quilos, equipado com 16 transponders em banda C e seis em banda Ku, foi lançado por meio do foguete Zenit do Cosmódromo de Baikonur, a 26 de Dezembro.
Posteriormente, uma fonte próxima da indústria espacial comunicou à Sputnik que o contacto com o primeiro satélite angolano havia sido perdido.
O porta-voz do presidente da russo, Dmitry Peskov, ao responder a uma pergunta sobre o lançamento do satélite angolano AngoSat-1, declarou que situações envolvendo lançamentos mal sucedidos na indústria espacial da Rússia são analisadas minuciosamente.
O satélite foi construído por um consórcio russo liderado pela corporação RKK Energia (Corporação Korolev de Foguetes e Espaço Energia), uma das empresas mais importantes da Rússia no sector espacial. O AngoSat-1 deve garantir as telecomunicações e as transmissões de televisão por todo o continente africano.

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