Reportagem

Soltou-se o fio que ligava Maria à vida

Alexa Sonhi

Fatalidade ou negligência dos funcionários da empresa sub-contratada pela Sinohydro? Esta é a pergunta que mais se ouviu no enterro, quinta-feira, 25 de Abril, de Maria Umba, 27 anos, que teve a cabeça cortada por um cabo de alta tensão, no bairro Belo Monte, em Cacuaco.

Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro

Com dois filhos e marido desempregado, Maria Umba morreu na tarde de segunda-feira, 22 de Abril, quando regressava do serviço, depois de ser surpreendida por um cabo de alta tensão que se desprendeu, na altura em que funcionários de uma empresa tentavam içá-lo.
Testemunhas afirmam que Maria, que acabava de descer de um táxi e falava ao telemóvel, nem teve tempo de perceber o que se passava. A cabeça foi separada do corpo e, com o impacto, projectada para o outro lado da estrada. O corpo manteve-se hirto durante alguns segundos, até cair, gerando pânico geral numa zona de grande movimento de pessoas e viaturas.
Gonçalves Salvino, vizinho da vítima, que presenciou a tragédia, contou que os funcionários da empresa chinesa estavam a esticar o cabo eléctrico e, por descuido, escapou-se-lhe das mãos, devido à forte pressão, indo ao encontro de Maria, que acabava de descer do táxi.
“Depois de um ou dois minutos, o corpo, já sem a cabeça, caiu ao chão. Aquilo foi tão assustador, que ninguém entendeu como aconteceu. A cabeça saltou como uma pedra para o outro lado da Via Expresso e o corpo ficou exactamente onde ela tinha acabado de descer. Até os trabalhadores chineses e os agentes da Polícia, que estavam de passagem, ficaram admirados”, explicou o vizinho.
Gonçalves Salvino disse que, naquela altura, Maria levava consigo um pouco de tomate, cebola e outros ingredientes, aparentemente para preparar o jantar do marido, que está desempregado, e dos dois filhos, um de sete e outro de três anos.

Desolação
Gomes Mateus, de 36 anos, marido de Maria, esperava pela mulher, quando alguém bateu a porta para anunciar a tragédia. Minutos antes, falara com ela, que garantira que acabava de descer do táxi e estaria em casa em poucos minutos. Gomes tranquilizou então as crianças, que aguardavam pela mãe para preparar o jantar, já que não “havia comida em casa”.
No dia do funeral da esposa, Gomes Mateus era um homem desolado e completamente desesperado. Desempregado há três anos e a viver em casa arrendada, também ele dependia da mulher, que trabalhava num armazém, na Vila de Cacuaco. O homem culpa os “chineses” por terem destruído os sonhos da sua vida. Nos últimos dias, o casal fazia planos para o casamento.
“Agora o que é que vou fazer?”, não parava de fazer a mesma pergunta, com o rosto banhado em lágrimas.

Criminalização

A empresa Sinohydro entregou um milhão de kwanzas, para custear as despesas do óbito. Mas a família pede responsabilização criminal. Estável Rodrigues, tio de Maria, fala em negligência da empresa chinesa, que estava a realizar trabalhos daquela perigosidade numa zona de grande circulação e sem a devida sinalização.
“Eles deviam vedar o perímetro, para que as pessoas passassem ao redor, mas não o fizeram”, explica, ao mesmo tempo que pede ao Governo da Província de Luanda e ao Comando Geral da Polícia Nacional que responsabilizem criminalmente a empresa chinesa. Estável Rodrigues lembra a sobrinha como uma menina educada, obediente, trabalhadora e com princípios religiosos.
“Queremos que justiça seja feita. A minha sobrinha tinha apenas 27 anos e era pai e mãe na sua casa; o marido não trabalha. Com o pouco que ganhava, pagava a renda de casa e sustentava a família toda”, lamentou Estável Rodrigues, sublinhando que a sobrinha tinha planos para casar em breve.

 

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