Reportagem

Sonhos de crianças “mutilados” pela explosão de engenho no bairro Golfe

Augusto Cuteta

Há cerca de um mês, um engenho, encontrado por três menores numa casa abandonada, explodiu num espaço de pesagem de ferro-velho, no bairro Golfe. Resultado: 12 crianças e um adulto ficaram feridos.

Fotografia: Agostinho Narciso | Edições Novembro

“Talvez eu não seja nunca mais a mesma pessoa”. As palavras que fizeram eco nos meus ouvidos são de um menino, de 12 anos, que foi submetido a amputação da perna direita, horas depois de dar entrada no Hospital Geral de Luan-da (HGL), na sequência do rebentamento de um engenho explosivo. 

À medida que a conversa fluía, consegui depreender a tristeza de Milton Esteves, uma das 13 vítimas da explosão de um engenho, na rua da Balatagem, zona do Mercado dos Correios, no bairro Golfe, no dia 27 de Dezembro.
O rapaz, que foi obrigado a abandonar os livros na 4ª classe, há três anos, por incapacidade dos pais, ambos desempregados, de suportarem os seus estudos, tinha um ar desolador. Deu, até, certo arrepio e, por pouco, caíam-me lágrimas ao ouvir aquela voz ténue a dizer que, “assim mesmo, os meus sonhos morreram”.
Como qualquer ser da sua idade, Milton Esteves também tem fantasias próprias da meninice. E muitas. Uma delas é, como ele mesmo disse, o de ser bombeiro, para entrar no meio do fogo e salvar vidas.
“Com menos uma perna, não sei se me aceitariam para esse serviço que tanto quis”, diz, enquanto gemia levezinho, em função das dores nas duas pernas e na zona do tórax, provocadas pelos ferimentos resultantes dos fragmentos do engenho que o atingiram durante a explosão.
Diversas vezes, o diálogo foi interrompido, porque Milton Esteves era obrigado a buscar a melhor posição para se acomodar na cama da sala de Internamento Pe-diátrico I, área de cirurgia do Hospital Geral de Luanda, onde partilha o compartimento com quatro amigos, também vítimas da explosão do engenho, dois deles, ambos de nome Francisco, também sofreram amputação de um das pernas.
Depois de algum esforço, e com ajuda do pai, que esteve sentado numa cadeira de plástico, tom rosado, ao pé da cama, o rapaz retomou a conversa. É nesse momento que explicou que foi ele quem apanhou o objecto estranho, numa casa abandonada, no bairro Palanca, e levou-o, num carro de mão, para o local de pesagem de material ferroso e não-ferroso, onde aconteceu o rebentamento.
“Quando encontrámos aquilo, éramos três, mas eu é que pus no carro de mão. Não sabia o que era, porque vi que era apenas um ferro velho”, contou o menino. A sua versão foi confirmada pelos amigos com quem andou no dia em que apanhou o engenho explosivo.
Milton Esteves, que fazia, há três meses, o trabalho de recolha de sucata, confessou que só soube que se tratava de um engenho explosivo quando aconteceu o rebentamento, que feriu 13 pessoas, sendo 12 menores e um adulto. No momento da explosão, o menino estava com outras crianças, dentro do local da pesagem, uma cobertura de chapas de zinco velhas e a céu aberto.
No local da pesagem, agora abandonado, por o proprietário, um cidadão de nacionalidade estrangeira, que os pais das vítimas desconfiam tratar-se de um guineense, andar foragido, o garoto fazia a entrega das sucatas encontradas em várias lixeiras e casas em construção nos bairros Golfe, Golfe II, Havemos de Voltar, Palanca e Cassequel.
Foi nessa altura da entrega, um pouco depois do meio dia, que se deu a explosão, depois de alguém ter atirado o objecto para um amontoado de sucata, com mais ou menos três metros de altura. Para Milton Esteves e companheiros, os lugares onde faziam a recolha de resíduos de ferro, cobre, alumínio, bronze e plástico e o da pesagem são para esquecer. “Agora, queremos ficar recuperados e aprender a viver outra fase das nossas vidas. Nem todos os sonhos acabaram”, disse.

Deus colocou a Sua mão!

Na pesagem, os sinais da explosão são visíveis, encontrando-se no local chapas com uma dezena de pequenos furos, feitos por estilhaços, pedacinhos do engenho espalhados pelos cantos do espaço que ocupa uns cinco metros, além do “abandono” a que ficou votado o local.
Bem ao pé do lugar, há homens que prestam o serviço de balatagem de cintas, discos de embraiagem e de calços. Apesar do sucedido nas proximidades, eles continuam a ter o lugar como a única fonte de sustento. Na ausência de clientes, o jogo de damas e conversas intermináveis ocupam os momentos em que não há trabalho por fazer.
Para os “balatadores” e alguns moradores da zona, o espaço de pesagem deve ser removido o mais rápido possível, uma vez que o amontoado de sucata retira a boa imagem que se podia ter do local. O lixo anda acumulado junto a uma cabina eléctrica, que alimenta diversas artérias do bairro.
“Não sabemos quem ganha com esse negócio, para que este senhor continue a explorar crianças sem que ninguém lhe faça nada”, lamentou um “balatador” de cintas de viaturas.
Os profissionais da balatagem acusam a Administração Municipal do Kilamba Kiaxi, o comando municipal da Polícia e o Serviço de Fiscalização por, mesmo sabendo da existência dessas casas de pesagens que exploram menores, fecharem os olhos ao problema.
“Apesar do impacto da explosão, não morreu ninguém, porque Deus estendeu as Suas mãos. Mas, um dia, algo pior pode acontecer, caso não se trave o raio de acção de cidadãos estrangeiros que saem dos países de origem para vir explorar e escravizar crianças angolanas”, desabafou um dos trabalhadores da balatagem, que acabou por ser derrotado no “jogo de damas”, por ter ficado entretido na conversa com o repórter.

Muito trabalho por quase nada

Há quase três semanas, Milton Esteves, Salvador Quissanga, os dois rapazes que se chamam Francisco e dezenas de outros meninos, com idades entre oito e 17 anos, saíam cedo de casa para ir à busca de carros de mão, cedidos pelo patrão, para irem à procura de plásticos e metais ferrosos e não-ferrosos.
A rotina, que, até ao dia da explosão do engenho, era do desconhecimento de alguns pais e encarregados de educação, pre-enchia toda a manhã dos garotos, que, sem comer nem beber e, às vezes, sem fazer a higiene pessoal, rompiam ruas e ruelas em busca de resíduos para ajudar a manter as “panelas de casa acesas”.
Questionados sobre as razões que os levaram a aderir ao trabalho, mesmo sendo menores, as respostas foram quase no mesmo sentido: ajudam no sustento da casa por os pais desempregados estarem. Uma versão negada pelos pais de alguns meninos.
Uma das vítimas que já receberam alta hospitalar é Salvador Quissanga, de 13 anos e aluno da 7.ª classe. Salvador Quissanga era trabalhador da pesagem da Balatagem, há mais de seis meses, e foi atingido na mão direita, tendo corrido o risco de perder três dedos.
Em recuperação, depois de ter recebido alta, ele afirmou que teve muita sorte, porque viu ainda alguns amigos com partes das pernas quase desfeitas, olho furado e pescoço rasgado. “Fazíamos muito trabalho e o ganho foi essa desgraça”, lamenta o pe-queno, garantindo que, apesar da escassez de alimentos em casa, nunca mais vai voltar ao serviço que prestou até ao dia 27 de Dezembro.
Filho de pai pedreiro e mãe vendedora de bens agrícolas no Mercado dos Correios, Salvador Quissanga falou da exploração de que eram vítimas. Alguns menores ficavam na rua toda a manhã e outros à tarde à procura de resíduos e, no fim de cada jornada laboral, recebiam, por cada quilo de ferro, apenas 25 kwanzas, de cobre 1.300 kwanzas e de plástico 180 kwanzas.
O valor é o mesmo que se paga pelas mesmas quantidades noutras casas de recolha e pesagem de sucatas. No Golfe, na zona do Balumuka, há dois locais em actividade, onde encontrámos dezenas de crianças, chefiadas por Zé Simão e por Paulo David, ambos com 18 anos.
Os dois jovens, sob orientação de um cidadão, supostamente guineense, têm a missão de receber, seleccionar e pesar os resíduos, chegando a conseguir entre 200 e 300 quilos, diariamente, das 7h00 às 17h00.
As sucatas, adquiridas pelas casas de recolha e pesagem, são transportadas, bimestralmente, em grandes quantidades para fábricas de reciclagem e transformação de resíduos, instaladas no município de Viana.
Zé Simão e Paulo David, que auferem, mensalmente, 25 mil kwanzas, disseram que o trabalho está a mudar as suas vidas e a de muitos menores. “Com o pouco que ganhamos conseguimos adquirir alguma coisa. Esses miúdos só trabalham quando não têm aulas e conseguem comprar cadernos e lápis, assim como alimentos”, acentuou um deles.

Situação clínica é menos preocupante

Por sofrerem danos não muito graves, Salvador Quissanga e mais seis vítimas da explosão do engenho receberam alta hospitalar nos dias seguintes ao incidente. Ainda a receber cuidados médicos estão cinco crianças, encontrando-se no grupo Milton Esteves e os dois rapazes que com ele estavam no dia em que encontrou o engenho numa casa abandonada.
Entre os que saíram dos cuidados do corpo clínico do Hospital Geral de Luanda está um menor que perdeu um olho, depois de ter sido atingido por estilhaços, e está a receber assistência ambulatória no Centro Nacional de Oftalmologia. O menor foi também submetido a uma cirurgia abdominal.
Apesar do estado em que os rapazes chegaram ao Hospital Geral de Luanda, a situação de cada um é, agora, menos preocupante”, assegurou um membro do corpo clínico, que disse estarem a vítimas do engenho explosivo a receber tratamento à base de “antibióticos de amplo espectro”.
Os menores que tiveram múltiplas lesões, sobretudo nos membros superiores e inferiores, no tórax e no abdómen, problemas resolvidos com intervenção cirúrgica e curativos, ainda correm o risco de contaminação das feridas, alertou a fonte médica.
Por causa disso, embora estejam a ter uma boa evolução do quadro clínico, os médicos preferem que as cinco crianças continuem internadas por mais uma semana.

INAC assegura acompanhamento

O Instituto Nacional da Criança (INAC) assegurou que vai desencadear uma série de mecanismos para garantir que as crianças, vítimas da explosão de um engenho no Mercado do Golfe, sejam melhor acompanhadas.
Paulo Kalesi, director-geral do INAC, disse que decorre, neste momento, um levantamento para serem aferidas as condições e as reais necessidades das famílias das crianças vítimas do engenho que explodiu no Golfe.
Com base no trabalho em curso, que vai resultar na elaboração de um relatório, Paulo Kalesi salientou que vão ficar identificadas as situações que são da competência do município, da província e do Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher.
O director-geral do INAC reconheceu que a situação dos meninos tem a ver com a exploração de menores e do trabalho infantil e avançou que a prioridade da instituição é procurar os apoios mais adequados para as crianças lesionadas e prevenir situações do género.
O Jornal de Angola procurou ouvir responsáveis da Fabrimental, uma indústria de transformação de sucatas, mas sem sucesso. O mesmo se deu com o Instituto Nacional de Desminagem,que também não abordou a questão, por achar que o assunto era da responsabilidade da Comissão Nacional de Desminagem.

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