Reportagem

“Sou como uma escrava sem dono”

Mazarino da Cunha |

Eram 18 horas, quando a equipa de reportagem do Jornal de Angola procurou conversar com vendedoras, para conhecer, de modo directo, o dia-a-dia da mulher zungueira, nos arredores de alguns mercados da capital.

Duas mulheres contaram os sacrifícios que enfrentam na cidade para alimentarem os filhos
Fotografia: Miqueias Machangongo | Edições Novembro

Elisabete Gaspar, natural de Malanje, considera os angolanos um povo "falso e chalado". Na visão da zungueira, falar do Março Mulher é uma comédia, na medida em que "boa parte das mu-lheres em Angola passa por humilhações".

Segura no que dizia, Elisabete Gaspar acrescentou que, durante os 18 anos que vive em Luanda, desde que deixou a terra natal, Malanje, fugida da guerra, nunca se sentiu uma "mulher angolana valorizada, mas sim uma escrava sem dono. Só peço a Deus que as minhas filhas não sejam zungueiras", afirmou.
Apesar de estar desempregado, desde 2014, o esposo de Elisabete Gaspar, que zunga roupa interior junto à pedonal do Alimenta Angola, na entrada do Zango, tudo faz para que, no futuro, as filhas do casal não tenham a mesma sorte que a mãe.
Segundo Elisabete Gaspar, vivia em Malanje, mas o conflito armado obrigou-os a abandonar a terra natal e partir para Luanda. Aqui o sofrimento é de segunda a segun-da", disse a filha da terra da Palanca Negra Gigante.

Domingas Handa
"Olha o fiscal, mana! Tira a criança e o pano, e foge. Já chegaram mais, com os vícios deles. Mau hábito! Até a essa hora é para comprar fichas?", alertava Domingas Handa, a irmã mais velha, que vendia junto ao mercado do Zango 1, no município de Viana, em Luanda.
Inicialmente um pouco tímida, Domingas Handa, natural do Bié, disse que, nos dias de hoje, o mais difícil não é zungar de um lado ao outro, mas sim as surpresas que os fiscais fazem, diariamente. "Eles, quando chegam, levam tudo o que en-
contram nas banheiras.
Às vezes choro de raiva, por saber que a vida que levo, há mais de 16 anos, não me leva a lado nenhum", desabafou a jovem, mãe de três filhos, que aparenta ter 25 anos de idade. O pai das crianças, desde que estes vieram ao mundo, não os assiste. São os três filhos, seu maior motivo de alegria, a motivação para ganhar coragem e ir à zunga. Apesar do sacrifício contínuo, é da venda de alho, na rua, que consegue alimentar os filhos.
Domingas Handa, aparentemente nervosa pelo tempo que disponibilizava à nossa equipa de reportagem, disse que sente o peso da sua cruz, cada vez que vai para a cama. "Não é fácil sustentar filhos dependendo da zunga", desabafou.
O filho, Cassoma Handa, de 14 anos, não estuda há dois anos lectivos por falta de escola pública no bairro Estalagem e de dinheiro para pagar um colégio.
Os outros filhos mais pe-quenos, disse a jovem natural do Bié, têm idade escolar, mas não poderão ingressar nela por falta de dinheiro. "O pouco que consigo na zunga, frisou, nem sempre é suficiente para garantir as necessidades".
Filomena Handa, 45 anos, irmã mais velha de Domingas Handa, com o seu filho às costas, acompanhava minuciosamente o diálogo. Mais reservada do que a outra, olhou para a nossa equipa e disse: mano, você vai ter que me dar dinheiro. O tempo que ocupaste, mais de 10 minutos, vai prejudicar o negócio. Vai embora seu fiscal fingido", disse.

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