Reportagem

Stanlay Ho, o Rei dos Casinos que falhou em África

Miguel Gomes

O empresário nasceu em Hong Kong, no dia 25 de Novembro de 1921, e morreu no dia 26 de Maio de 2020. Stanley Ho, de tripla nacionalidade (chinesa, portuguesa e inglesa), foi um magnata que construiu a sua fortuna em Macau (antiga colónia portuguesa na Ásia, actual território chinês), com a exploração de casinos ainda durante a administração colonial. Investiu em Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau e Moçambique, mas os negócios raramente atingiram o potencial anunciado.

Fotografia: DR

Em 2006 revelou, em entrevista à agência Lusa, que pretendia “explorar minerais, petróleo e gás em Angola e Moçambique, para alimentar as necessidades crescentes das empresas chinesas”.

Na altura, Stanley Ho afirmava que o crescimento económico chinês precisava de energia e que, nesse contexto, Moçambique e Angola seriam “mercados muito importantes no futuro”.
“O rápido crescimento económico chinês faz com que as necessidades energéticas sejam cada vez maiores, nomeadamente de petróleo, gás natural e minerais”, disse na altura.

E mais: “isso pode ser obtido, actualmente, em áreas muito limitadas do globo, pelo que países como Angola e Moçambique estão em posição de se tornar parceiros importantes para a China”, assinalava o empresário. Não estava longe da realidade. A década que se seguiu aproximou, efectivamente, os países africanos e a China, uma relação alimentada pela necessidade de recursos, no caso de África, e de matérias-primas, para o gigante asiático.

Stanley Ho acreditava ainda que Macau, um antigo território português que se mantém como região autónoma da China desde 1999 (com uma política bem mais dócil relativamente ao território continental do que Hong Kong), poderia transformar-se numa “plataforma que encoraje as relações comerciais entre a China e os países de expressão portuguesa em África”.

Nesta vertente, já não foi tão certeiro: Macau é praticamente irrelevante para a relação de Angola e Moçambique com a China.
Os seus negócios estavam centrados na exploração de casinos (cerca de 40 unidades só em Macau e as restantes em Portugal) e também no imobiliário, construção, sector financeiro e turismo. Macau continua a ser a única região chinesa onde o jogo é permitido. Para actuar fora do eixo principal, Stanley Ho criou a Geocapital, em Macau, em parceria com empresários portugueses. Um dos principais objectivos era desenvolver a região do Vale do Zambeze, onde se situa a barragem de Cahora Bassa, em Moçambique.

Também chegou a ser ventilada a hipótese da Geocapital assumir uma posição no Banco Privado Atlântico (BPA), movimento que incluía a Sonangol e o Banco Comercial Português (actual Millenium BCP), onde era accionista ao lado da petrolífera nacional.

Não se sabe ao certo o que aconteceu neste caso, sendo que, em 2015, BPA e Millenium Angola anunciaram mesmo a primeira fusão de bancos em no país. A movimentação deu origem ao Banco Millenium Atlântico.

O pontapé de saída da Geocapital no sector bancário aconteceu na Guiné Bissau, no início de 2007, ao adquirir uma participação maioritária no Banco da África Ocidental, a maior instituição financeira do país, seguindo-se a Geogolfo, orientada para as energias renováveis.

Seis meses mais tarde, foi a vez de Moçambique, através do lançamento do Moza Banco, detido em 51 por cento pela Moçambique Capitais - sociedade que incorpora 250 investidores locais - e em 49 por cento pela Geocapital.

Stanley Ho procurou, igualmente, oportunidades na África do Sul e investiu noutro banco moçambicano, o Banco Mais, onde a Geocapital mantém 25 por cento do capital. Paralela à criação do Moza Banco, com os mesmos accionistas, surgiu ainda a Moza Capital - sociedade financeira que visava, à semelhança do modelo seguido noutros países, participar nos grandes projectos programados para a área energética, com destaque para os biocombustíveis.

Jogo em Angola

Em 2009, preparava-se para entrar em força no mercado do jogo em Angola, em parceria com Isabel dos Santos. O objectivo era competir com a empresa Plurijogos, de Kundi Paihama, que detém até hoje a maioria das casas de jogo no país.

Naquela altura, a Plurijogos perdeu para Ho e Isabel dos Santos o contrato de gestão do casino do novo Hotel Intercontinental, em Luanda. Mas a referida unidade hoteleira continua por inaugurar, apesar das obras praticamente concluídas há vários anos.

Esta unidade hoteleira e mais três torres pertencem a um consórcio entre a Sonangol e o grupo Suninvest, uma empresa liderada pelo antigo responsável da Fundação Eduardo dos Santos (FESA), Ismael Diogo, que chegou a ser detido, em 2018, por suspeita de burla, corrupção activa e branqueamento de capitais.
Também o casino previsto para o Complexo Gika, em Luanda, deveria ser gerido pela empresa de Isabel dos Santos e Stanley Ho, de acordo com as notícias publicadas na época. Ainda está em construção.


De Macau para o mundo

Conhecido pela perspicácia e capacidade de negociação, Stanley Ho adorava dançar e aconselhava os mais próximos a manterem-se longe do jogo.
Detinha uma fortuna pessoal estimada em 6,4 mil milhões de dólares, de acordo com a informação disponível em 2018, ano em que se reformou oficialmente, escreveu o South China Morning Post, um jornal de Hong Kong.

A empresa mais conhecida de Stanley Ho é a Sociedade de Jogos de Macau (SJM), ligada à Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) e dona de 19 casinos em todo o mundo, incluindo o casino do Hotel Lisboa e o Grand Lisboa, em Macau, e o grupo Estoril Sol em Portugal (Casino de Lisboa, Estoril Sol e o da Póvoa do Varzim, na região norte daquele país).

A SJM/STDM foi a única empresa autorizada a gerir casinos em Macau durante quase 40 anos. Nos seus melhores anos, o império de Ho chegou a representar metade das receitas (via impostos) do Governo de Macau.

O negócio mudou, em 2002, quando a China acabou com o monopólio e lançou um concurso para a liberalização do sector e a entrada de vários operadores. Os norte-americanos e australianos fizeram-lhe concorrência, mas ficaram longe de roubar a hegemonia. O empresário manteve-se através dos filhos Pansy e Lawrence. Em 2017, o jogo em Macau movimentou 27 mil milhões de euros.

Stanley Ho era um dos herdeiros da abastada família Ho Tung, de ascendência chinesa e europeia. O dinheiro, no entanto, não durou muito: o pai de Stanley Ho perdeu tudo no mercado de acções e fugiu para o Vietname, abandonando mulher e filhos.

O “grande salto”

Com 13 anos na altura, ficou sem nada. Em 1941, fugido da invasão japonesa a Hong Kong, em plena II Guerra Mundial, Ho radicou-se na então portuguesa Macau (Portugal manteve-se neutro na guerra). Trabalhou em importantes empresas locais e, segundo algumas fontes, aproveitou-se do comércio ilegal de mantimentos para a China continental. O próprio Ho admitia que se tinha tornado milionário aos 20 anos.
Em 1962, deu o “grande salto” em frente, ao ganhar a concessão do jogo em Macau, juntamente com alguns sócios.

Polígamo, Stanley Ho teve 16 filhos, de quatro mulheres. A primeira, a macaense Clementina Leitão, única com quem de facto casou, em 1942, morreu em 2004. Robert, o primogénito, também já faleceu, na sequência de um acidente na marginal de Cascais, em Portugal, no início da década de 1980. Clementina Leitão foi uma das peças fundamentais do seu sucesso. O casamento permitiu-lhe entrar para o círculo da elite política de Macau, favorecendo os seus negócios na região.

Para além de ser accionista maioritário do grupo Estoril Sol, esteve ligado à Fundação Oriente e criou, em Portugal, a Fundação Stanley Ho, ligada a “acções de carácter social, cultural, educativo e filantrópico” com enfoque no território português.

Os negócios de Stanley Ho no mercado português incluíam também a Portline (transportes marítimos), Banco Português Atlântico, Crédito Predial Português e a EDP, para além do Millenium BCP. Outro investimento de relevo foi no imobiliário, sobretudo em Lisboa, e em grandes projectos de infra-estruturas em Macau e na China continental.

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