Reportagem

Suspensão de catamarãs causa transtornos aos habituais utentes

César André

Os utentes dos catamarãs, na sua maioria funcionários públicos, residentes nos bairros do Morro Bento, Benfica, Ramiros, Mundial, Centralidade do Kilamba e Mussulo, em Luanda, estão a sentir os transtornos resultantes da suspensão dos serviços das embarcações, por falta de manutenção e devido à ilegalidade da empresa gestora dos meios.

Catamarãs transportaram milhares de passageiros, na sua maioria funcionários públicos, muitos dos quais chegaram a poupar dinheiro na compra de combustíveis para as suas viaturas
Fotografia: Contreiras Pipa | Edições Novembro

“A coisa está a ficar preta", começou por dizer ao Jornal de Angola a funcionária pública Telma Luís, para quem a utilização dos catamarãs servia também para aliviar o stress provocado pelos engarrafamentos no trajecto do Kilamba ao centro da cidade de Luanda.
Além de evitar os engarrafamentos nas principais vias de acesso ao centro da cidade, o maior ganho com o funcionamento dos catamarãs está no facto de ter deixado de acordar à madrugada para ir ao serviço e fazer  algumas poupanças na compra de combustível para a viatura, ressaltou a entrevistada.
Moradora da Centralidade do Kilamba, Telma Luís, que desde 2014, altura em que começaram a funcionar os catamarãs, utilizava com frequência aquele meio de transporte marítimo nas suas deslocações ao centro da cidade, onde fica a empresa em que trabalha, é uma das vítimas da suspensão desse serviço.
Telma Luís diz não compreender como foi possível uma empresa ilegal conseguir convidar altas entidades do Executivo, inclusive o ex-Presidente da República, para a inauguração do serviço em causa.
“Gostaríamos que o Executivo resolvesse, no mais curto  espaço de tempo, o problema dos funcionários dos catamarãs, que ao que se sabe, não recebem os seus ordenados há 11 meses e posteriormente a questão da manutenção das embarcações”, sugeriu.
Erivaldo Paquete, morador da Centralidade Vida Pacífica, situada no  distrito do Zango Zero, em Viana, diz que a suspensão dos serviços dos catamarãs, além de criar transtornos aos cidadãos que vivem a Sul de Luanda, vai também originar um elevado absentismo por parte dos trabalhadores que geralmente utilizavam aquele meio de transporte marítimo.
“Haverá muitos funcionários públicos que não vão poder chegar a tempo aos locais de trabalho, no centro da cidade, devido aos engarrafamentos nas primeiras horas da manhã nas zonas do Morro Bento, Corimba, Morro da Luz e do Antigo Controlo”, disse Erivaldo Paquete.
O cidadão lembrou que o Executivo tem várias formas e mecanismos para  ultrapassar essa situação delicada que, em seu entender, poderá afectar a produtividade das empresas e consequentemente a economia nacional.
Carla Modesto mostrou-se incrédula com o facto de a empresa gestora dos catamarãs não ter “sequer personalidade jurídica, desde a sua criação. Isso é incrível”, disse a propósito, para acrescentar que a sua suspensão é  um dos sinais dos ventos da mudança que o país está a registar nos últimos tempos.
Moradora do bairro dos Ramiros, a 45 quilómetros do centro da cidade, Carla Modesto aplaude a iniciativa das entidades marítimas, mesmo reconhecendo os efeitos constrangedores que a suspensão dos catamarãs lhe está a causar. />
Embarcadouro empoeirado
No embarcadouro marítimo do Kapossoka, o Jornal de Angola constatou um vazio total nas instalações, onde a poeira faz morada no guiché destinado à comercialização de bilhetes de passagem.
No guiché, encontrámos um comunicado da antiga empresa gestora, estampado numa vitrine, com os seguintes dizeres: viagem económica, rota Kapossoka/Porto de Luanda/Kapossoca, são 250 kwanzas, e para a classe executiva, na mesma rota custa 1000 kwanzas. Além do comunicado colocado no vidro, é possível observar mais de uma dezena de Bilhetes de Identidade e cartões de eleitor perdidos e achados no local, e duas fotografias de trabalhadores da empresa falecidos recentemente.
Uma anciã que vende, próximo do embarcadouro do Kapossoka, bombó com ginguba, disse que desde que foi decretada a suspensão dos serviços de catamarãs o seu negócio não tem sido rentável.
 “O meu negócio arreou, porque os clientes já não passam por aqui, com excepção de uns que fazem a travessia para o Mussulo”. 
A suspensão dos serviços de catamarãs não inviabilizou o movimento frenético no embarcadouro do Kapossoka. Ontem, embarcações de pequeno porte navegavam num vai e vem, transportando pessoas e bens.

As razões da retirada dos catamarãs
As embarcações de catamarãs, usadas no transporte de passageiros entre o  Porto de Luanda e a Ilha do Mussulo, foram suspensas devido a falta de manutenção e por a empresa gestora ser ilegal, disse o secretário de Estado para os Sectores Marítimo Portuário e Avião Civil, António Cruz Lima. 
António Cruz Lima assegurou, em conferência de imprensa, que logo que se certificar a manutenção das embarcações, os catamarãs poderão voltar a navegar, mas enquanto tal não acontecer, “os meios não deverão sair do cais onde estão ancorados”.
“É intenção do Ministério dos Transportes fazer operar os catamarãs para as outras províncias depois da reestruturação que a empresa poderá conhecer, com a criação de uma comissão de gestão”, disse o governante.
A suspensão das operações de transporte de passageiros com os catamarãs é a primeira consequência do programa “Mar Seguro”, lançado na última sexta-feira, 7, pelas autoridades marítimas, com vista  a corrigir as irregularidades existentes no sector.
A TMA Express tem à sua disposição cinco navios para transporte de passageiros, dois dos quais estão avariados e três carecem de manutenção e não há garantia de quando poderão voltar a prestar serviços em condições de navegabilidade e de segurança para  os utentes.

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