Reportagem

Telefones fixos caem em desuso

Edivaldo Cristóvão

O uso de telefones fixos em Angola diminuiu significativamente nos últimos anos. Dados fornecidos pelo Instituto Nacional Angolano das Comunicações (INACOM) indicam que até Dezembro do ano passado havia o registo de 159.895 (cento e cinquenta e nove mil, oitocentos e noventa e cinco utilizadores de  telefones da rede fixa, número muito inferior aos mais de 200 mil clientes, dos anos anteriores.

Angola Telecom estende os serviços às zonas mais recônditas do país, com o fim de fortalecer a rede de comunicação, atrair clientes e recuperar o terreno perdido
Fotografia: Paulo Mulaza|Edições Novembro

O INACOM aponta que, no mesmo período, foram registados 13.323.952 (treze milhões, trezentos e vinte e três mil, novecentos e cinquenta e dois) números de telemóveis, 4.450.962 (quatro milhões, quatrocentos e cinquenta mil, novecentos e sessenta e dois) utilizadores de Internet móvel e 96.748 (noventa e seis mil, setecentos e quarenta e oito) utilizadores de Internet fixa.
A história das telecomunicações em Angola refere que, no início da década de 1980, os telefones móveis eram usados apenas  em redes privativas do Estado e nas forças de defesa e segurança. Em 1996, a Empresa de Telecomunicações de Angola (ETA) expande os serviços para telemóveis através do sistema AMPS e poucos anos depois, com a digitalização da sua rede, a telefones mó-veis migram para o sistema CDMA. Em pouco tempo, regista-se um crescimento superior ao dos telefones fixos. Além de serem novidade, na época, a mobilidade e as facilidades que oferecem, provocam uma verdadeira febre na procura do telemóvel.
Da parte dos operadores, a relação entre investimento e rendimentos, nos serviços móveis é superior à dos serviços fixos. Esta tendência torna-se cada vez mais acentuada, atendendo ao facto de muitos serviços antes fornecidos através da rede fixa já serem possíveis na sem fio, isso devido a tecnologias como FDMA, TDMA, CDMA, LTE, entre outras, embora a rede fixa ainda tenha a vantagem na largura de banda, usando cabos de fibra óptica e agregando diversas tecnologias.
Tradicionalmente, desde a invenção e instalação dos primeiros aparelhos em 1886, o telefone fixo é um aparelho instalado numa posição localizada e conectado a uma central telefónica através de um sistema que congrega longas linhas de cabos telefónicos e equipamentos de comutação e de transmissão, numa rede primária, secundária e terciária.
Segundo o presidente do Conselho Administrativo do INACOM, Manuel Carvalho, as vantagens de ter um telefone fixo podem ser qualificadas em termos de serviços e de localização. Destaca-se a grande largura de banda e a possibilidade de um serviço “triple play” incluindo (Tv, Voz e Dados) de muita qualidade. Quanto a emergências, estando o telefone num endereço fixo, facilmente se pode socorrer a pessoa que necessita de ajuda, devido à fácil localização. “Acreditamos que a tendência da prestação de serviços em pacotes Triple Play pode contribuir para o crescimento da taxa do serviço de telefonia fixa”, referiu.
O INACOM atribuiu o có-digo com o número 2 à An-gola Telecom, a operadora estatal de telefones fixos, en-quanto o código 8 foi atribuí-
do à Nexus, empresa privada que disponibiliza o mesmo serviço.
Foram ainda atribuídos códigos a outras três operadoras privadas, sendo o 6 para a Mercury, o 7 para a Mundo Startel e o 9 para a Wezacom. Nas províncias, os códigos passam a ser os seguintes: Bengo (34), Benguela (72), Bié (48), Cabinda (31), Cunene (65), Huíla (61), Huambo (41), Cuando Cubango (49), Cuanza Norte (35), Cuanza Sul (36), Luanda (2), Lunda Norte (52), Lunda Sul (53), Malanje (51), Moxico (54), Namibe (64), Uíge (33) e Zaire (32).
Nas ligações do estrangeiro para um telefone fixo em Angola também se aplicam estas regras, sendo necessário marcar o código de acesso internacional (00), o indicativo de Angola (244), se-guindo-se os nove dígitos do número do telefone que se pretende chamar.
Neste momento, o telefone fixo nas lojas custa entre 15 a 25 mil kwanzas. Com a nova oferta de serviços, pela disponibilidade do sinal de satélites e outros programas de melhoramento das telecomunicações no país, os preços serão mais atractivos. A tarifa de cobrança para os custos da telefonia é cobrada em função daquilo que é estabelecido pelo INACOM. Actualmente, os clientes pagam dez kwanzas por cada UTT.
A política de preços é definida pelo Comité de Preços das Comunicações Electrónicas, do qual fazem parte representantes do INACOM, do Ministério das Telecomunicações e das Tecnologias de Informação, Finanças, Instituto de Preços e Concorrência, Instituto Nacional de Estatística (INE). Mensalmente, são analisados e aprovados os tarifários a serem praticados pelas operadoras no mês seguinte, tendo em conta a variação geral dos preços no mercado nacional.
Relativamente ao custo dos números e aparelhos, inserem-se no regime de preços livres.

Angola Telecom
A Angola Telecom é a maior operadora de telefones fixos no país com um registo de 140 mil clientes, tendo já atingido em anos anteriores mais de 200 mil. O coordenador da comissão de gestão interina da Angola Telecom, Eduardo Sebastião, afirmou que a empresa lança em Junho serviços de rede sem fio em todo o país.
Eduardo Sebastião disse à nossa reportagem que um dos motivos para o baixo ín-dice de clientes da rede fixa, nos últimos anos, foi a perda da capacidade de fornecimento dos serviços com eficácia, face à desactivação ou danos de infra-estruturas, ao longo das estradas, em consequência das obras, que acabaram por enfraquecer a rede de comunicação.
Com esta queda, a Angola Telecom foi perdendo capacidade de produção e os clientes o interesse. Para contor-
nar este quadro, o coordena-dor anunciou que em Junho, a empresa vai lançar o siste-ma de rede sem fios para os serviços estarem disponí-veis até nas localidades mais recônditas.
O nosso interlocutor é de opinião que os telefones fixos têm vantagem sobre os telemóveis, no que concerne a localização. “Quando os pais pretendem controlar os filhos à distância, ou mesmo as donas de casas se precisarem dar alguma orientação à empregada, fica tudo mais facilitado, com o uso do telefone fixo”.
O responsável da maior empresa de rede fixa do país garantiu que é fácil aderir aos serviços da Telecom, bastando, para tal, os interessados deslocarem-se às lojas, para requisitar o número. “Depois do primeiro contacto, os engenheiros vão ao local pretendido pelo cliente constatar as condições de instalação. Segue-se a elaboração do pré-contrato e, ao mesmo tempo, marca-se o dia para a montagem”.
Para a instalação dos serviços é cobrada uma taxa de 6.250 kwanzas, valor que não inclui a compra do aparelho. Eduardo Sebastião esclareceu que, anteriormente, a Angola Telecom vendia os números indexados aos aparelhos, adicionando igualmente o processo da montagem, num pacote único. Porém, devido os custos de importação dos telefones, o quadro teve de ser alterado.
O tempo para a montagem do telefone, depois da celebração do contrato, ainda não é o desejável. Por isso, a Ango-la Telecom estuda um plano para estes serviços serem concluídos em menos de cinco dias úteis.
O coordenador garantiu que todas as províncias têm disponíveis serviços da telefonia fixa da Angola Telecom. Uns foram instalados através da fibra óptica e outros por satélite. Está a ser feito um trabalho de recuperação das infra-estruturas para restabelecer o sinal da rede fixa em todos os pontos e neste momento já foram monta-dos cerca de quatro mil quilómetros de fibra.
Eduardo Sebastião adiantou que também está a ser recuperada a fibra óptica de ligação marítima, que vai ligar todas as províncias situadas na costa, como Benguela, Cuanza Sul, Zaire e principalmente Cabinda que, neste momento, tem alguma limitação do sinal das empresas de telecomunicações.
A Angola Telecom é a operadora com maior capacidade de fibra óptica no país e presta serviços a grosso, a muitas operadoras, nomeadamente, Unitel, Movicel, Ms Telecom, Multitel e ITA.
“Através destes serviços a empresa tem arrecadado algumas receitas. Só em 2017 a facturação foi de mais de 13 mil milhões de kwanzas”, disse.
Eduardo Sebastião lembrou que a Angola Telecom tem participado em projectos do Governo, através do Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação. Com a inauguração de pontos públicos de Internet gratuita em várias províncias através do programa “Angola Online”, “onde entramos com a oferta de Internet nestes espaços e nas Mediatecas”.
Eduardo Sebastião aproveitou para fazer uma comparação dos custos anteriores com os actuais que a empresa tem praticado. Um dos exemplos, é o gasto com combustíveis. No último trimestre de 2017 foram gastos cerca de 50 milhões de kwanzas, enquanto, desde o início do ano corrente as despesas foram reduzidas para cerca de 15 milhões. “Reduzimos também alguns custos relacionados com o processo de formação dos trabalhadores fora do país, optamos em dar primazia às escolas nacionais, porque também são capa-zes de o fazer”, considerou o coordenador.
Outra redução de custos assinalada por Eduardo Se-bastião tem a ver com o reajuste na reorganização do sistema, gestão de pessoal, compra da Internet no exterior do país e outros serviços que, de uma forma geral, proporcionaram a redução de despesas em cerca de 40 por cento.

Históricos
A Angola Telecom é uma empresa pública, criada pelo Decreto Nº 10/92 de 06 de Março como resultado da fusão das anteriores Empresas estatais ENATEL e EPTEL.
A EPTEL, Empresa Pública de Telecomunicações foi criada por Decreto Nº 95/76 de 23 de Dezembro como resultado da aquisição pelo estado do património da Companhia Portuguesa Rá-dio Marconi que operava em Angola explorando as ligações internacionais.
A EPTEL iniciou assim em 1977 a sua actividade como operador público de telecomunicações no regime internacional, tendo a então Di-
recção dos Serviços de Correios e Telecomunicações continuado a explorar o serviço público no regime interno.
A ENATEL, Empresa Na-cional de Telecomunicações foi criada pelo Decreto Nº17/80 de 13 de Fevereiro por cisão da Direcção dos Serviços de Correios e Telecomunicações que deu origem à Empresa Correios de Angola.
Assim, a partir de 1980 e até à efectiva constituição da Angola Telecom, as telecomunicações no país foram asseguradas por dois operadores públicos, mutuamente complementares, dedicando-se a EPTEL às comunicações internacionais e a ENATEL às domésticas.

Serviços da TV Cabo
A TV Cabo é das poucas operadoras do país que tem os serviços de “Triple Play” que inclui televisão, voz e dados. Mas a rede fixa tem demonstrado muitas debilidades, como foi descrito ao Jornal de Angola por alguns clientes.
Gilson Mendes morador da centralidade do Sequele, em Cacuaco, contou à nossa reportagem que, após aderência aos serviços da TV Cabo, há mais de três meses, ainda não conseguiu utilizar o telefone fixo. “Até agora estou à espera e a ficar aborrecido com isso. Desde que aderi ao serviço nunca vieram resolver o problema. Depois de algum tempo fui obrigado a voltar a pagar 1.800 kwanzas para a montagem, mesmo assim não vieram montar. É uma situação triste e desconfortável para quem paga e não usufrui dos serviços”, lamentou o jovem.
Gilson Mendes contou que já teve de faltar ao serviço pa-ra ficar à espera dos técnicos em sua casa e de nada serviu o sacrifício. “Levei uma fal-ta sem necessidade porque não apareceram. Não sei até quando vou ficar sem telefone fixo”.
Outra reclamação foi feita na Centralidade do Kilamba, por um cliente que não quis revelar a identidade e contou à nossa reportagem que raramente utiliza a rede fixa, por causa da quebra do sinal. "Há dias em que funciona e noutros não.
O interlocutor disse que já reclamou várias vezes, mas sem sucesso. Outros clientes da TVCabo reportaram que já não se chateiam e preferem ignorar que dentro do pacote existe o telefone fixo.
O Jornal de Angola tentou contactar várias vezes a di-recção da TV Cabo na sua sede, mas não teve sucesso. Nem sequer os responsáveis do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa se mostraram disponíveis a receber a nossa equipa de reportagem.

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