Reportagem

Terra pede socorro

Osvaldo Gonçalves

O aumento vertiginoso do número de desastres naturais, causados pela acção do Homem, reforça pelos piores motivos a ideia de que a vida no planeta Terra entrou já na útima fase e esta pode terminar mais depressa do que se supõe, se não forem tomadas medidas enérgicas no sentido de travar o ritmo de degradação a que vimos assistindo dos seus mais variados recursos.

Fotografia: Vigas da Purificação | Edições Novembro

Consciente desse facto, a Organização das Nações Unidas adoptou, em 1990, o 22 de Abril como Dia Mundial da Terra, associando-se dessa forma à iniciativa do senador norte-americano Gaylord Nelson, que, em 1990, resolveu realizar um protesto contra a poluição da Terra, depois de verificar as consequências do desastre petrolífero de Santa Barbara, na Califórnia, ocorrido em 1969.
Inspirado pelos protestos dos jovens norte-americanos que contestavam a guerra, Nelson desenvolveu esforços para colocar o tema da preservação da Terra na agenda política norte-americana. A população aderiu em força à manifestação e mais de 20 milhões de americanos pronunciaram-se a favor da preservação da Terra e do ambiente.
Desde então, milhões de pessoas em todo o mundo mostram o seu compromisso na preservação do ambiente e da sustentabilidade da Terra. Neste dia, realiza-se um vasto número de acções de cariz educativo, que vão desde a inscrição de frases e poemas sobre a importância do planeta Terra nas escolas, à realização de campanhas de plantação de árvores e recolha de lixo.
Como actividade associada à data, sugere-se que cada um realize um acto por mais simples que seja, como plantar uma árvore típica da zona em que  vive, pintar um desenho do planeta Terra, incentivar a reciclagem, reutilizar materiais como plásticos e papelões para criar objectos recicláveis, participar na limpeza da escola, pintar um muro com motivos ecológicos e usar menos energia, desligando as luzes quando possível.
Especialistas estimam que a Terra tenha em torno de 4,5 bilhões de anos, sendo várias as teorias para o “nascimento” do planeta, o terceiro do Sistema Solar, tendo a Lua como o seu único satélite natural. Com 510,3 milhões de quilómetros quadrados de área total, a Terra é em cerca de  97% composta por água (1,59 bilhões de quilómetros cúbicos). A quantidade de água salgada é 30 vezes a de água doce, e 50% da água doce do planeta está situada no subsolo. A atmosfera terrestre vai até cerca de 1.000 quilómetros de altura, sendo composta basicamente de nitrogénio, oxigénio, argónio e outros gases.
O relevo da Terra é influenciado pela acção de vários agentes (vulcanismo), abalos sísmicos, ventos, chuvas, marés e acção do homem. A Terra já passou por, pelo menos, três grandes períodos glaciais e outros pequenos. A temperatura média do planeta gira em torno de 15º C e tal ocorre porque existem, naturalmente, gases, como o dióxido de carbono, o metano e o vapor de água na atmosfera, que formam uma camada que aprisiona parte do calor do Sol. Sem esses gases, a Terra seria um ambiente gelado, com temperatura média de -17º C. Esse fenómeno é chamado de efeito “estufa”. A população humana actual da Terra é de aproximadamente 7,5 biliões de pessoas e a expectativa de vida é em média de 65 anos.

Descoberto importante auxiliar do homem

Numa altura em que o Mundo se aprestava a assinalar mais um Dia Mundial da Terra, cientistas da Universidade de Porstmouth e do Laboratório Nacional de Energias Renováveis dos EUA brindaram a comunidade internacional com a notícia de uma descoberta fulcral para a sobrevivência no Planeta. Esses cientistas submeteram uma enzima a intensos feixes de raios-x (10 mil milhões de vezes mais brilhantes que o sol), para estudar a sua estrutura e o resultado foi uma “proteína mutante”, capaz de “digerir plástico”, segundo o estudo publicado na revista “Proceedings of National Academy of Sciences”.
“O acaso desempenha um papel fundamental na pesquisa científica e a nossa descoberta não é excepção", afirmou John McGeehan, director do Instituto de Ciências Biológicas e Biomédicas da Universidade de Portsmouth.
O investigador disse que este é um “melhoramento modesto”, mas que “sugere que é possível melhorar ainda mais estas enzimas, o que nos aproxima de uma solução de reciclagem para a montanha de plásticos” que cresce a cada hora. Esta descoberta, que terá ainda de ser estudada mais pormenorizadamente, é um grande passo para melhorar o processo de reciclagem. A descoberta do “glutão” parece ter acontecido por acaso. Apesar de a versão natural ter sido encontrada há vários anos, num centro de reciclagem japonês, os investigadores estavam agora a estudá-la para criar uma proteína, mas, acidentalmente, acabaram por conceber um melhoramento na enzima, fazendo com que esta consiga digerir polietileno tereftalato, conhecido como PET e usado no fabrico de garrafas de plástico e outros recipientes.
A nível mundial, são conhecidos os efeitos dos plásticos sobre a fauna e a flora do Planeta. Como referiu o Jornal de Angola, em artigo publicado em Março de 2017, “a primeira referência usada para demonstrar os danos dos sacos plásticos pode até parecer um elogio ao produto, quando se refere que leva entre 450 e mil anos a decompor-se, mas, durante esses quatro séculos, ele contribui para sobrecarregar os aterros, em particular os sanitários, que têm assim o período de vida útil reduzido, contribuem para as inundações das grandes cidades, ao entupir as sarjetas e redes de esgoto, matam mihares de animais por asfixia ou ingestão, libertam substâncias tóxicas, que contaminam a natureza e os animais”.
O plástico contém Bisfenol A, substância proibida em vários países, suspeita desde 1930 de ser prejudicial à saúde humana. O consumo excessivo dessa substância está ligado a doenças como cancro da mama e da próstata. O artigo do JA lembrava que estudos recentes dão conta da existência de 40 mil toneladas de plástico a flutuar nos oceanos, o que corresponde apenas a um por cento do que os cientistas esperam encontrar.
A comunidade científica supõe que os restantes 99 por cento ou afundam ou são ingeridos pelos animais marinhos. Estimativas apontam que a quantidade de plástico lançada ou enviada de forma inadvertida nos mares seja de 17,5 milhões de toneladas por ano até 2025, o que significa cerca de 155 milhões de toneladas de lixo plástico nos oceanos. É apontado pelo sistema da ONU que em 25 anos haverá nos mares mais plásticos que peixes.
Um dado curioso, dizia-se ainda, é que cada 2.6 quilómetros quadrados de oceano possui 46 mil pedaços de plástico flutuantes. Além da ingestão, sobretudo, por alguns mamíferos marinhos, outros animais acabam emaranhados no plástico e morrem.

Medidas em Angola
A nível interno, o Ministério do Ambiente anunciou já que vai impor a utilização de um tipo de saco para a recolha de lixo, ainda não definido, por os de plástico serem prejudiciais ao ambiente.
Essa determinação reforça a ideia de um empenho cada vez maior do Governo angolano na luta contra a deterioração dos solos, conforme a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD). De facto, a degradação da terra provoca a redução e a perda de produtividade biológica e económica do solo, provocando danos estimados em 490 mil milhões de dólares à agricultura global.
O director do Gabinete das Alterações Climáticas do Ministério do Ambiente, Giza Martins,  disse, durante a abertura do workshop de lançamento do Programa de Definições de Metas Voluntárias Nacionais de Degradação de Terras Neutras, que esta realidade é causada por actividades resultantes da acção humana, que, combinadas com processos naturais e ampliadas pelas alterações climáticas, transformam-na  em matéria merecedora de políticas e programas tendentes à sua contenção e propensas à eliminação.
Em 2011, cerca de 25 por cento da superfície terrestre global foi degradada e, anualmente, 12 milhões de hectares são adicionados à área total de terras degradadas.

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