Reportagem

Testemunho de uma sobrevivente da luta contra o cancro da mama

Kilssia Ferreira

Quando, em 2011, sentiu a presença de pequenos caroços no peito, Luzimira de Carvalho, 39 anos, deslocou-se ao Instituto de Oncologia, em Luanda, mas não lhe passava pela cabeça o que viria dali. Entrou com suspeita de se tratar de um simples e ligeiro quisto, e saiu da unidade hospitalar com uma certeza: Tinha cancro da mama.

O rastreio ajuda na prevenção e tratamento do cancro da mama
Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro

Na flor dos seus 29 anos, Luzimira de Carvalho, na altura sem filho, nem marido, recebeu a informação, como se o mundo tivesse desabado sobre a sua cabeça. Estava perplexa, trémula e não quis acreditar no resultado do rastreio efectuado, porque sobre o cancro “só ouvia falar nas telenovelas”, não sabia nada a respeito da doença que carregava.
A sua família paterna tem histórico de cancro de estômago. O da mama, que é o seu caso, é o primeiro a nível familiar. O médico disse-lhe que, nem sempre o factor hereditário é primordial para desenvolver a doença. Ela está associada a vários factores, nomeadamente ao estilo de vida, sedentarismo, alimentação, excesso de álcool, cigarro, entre outros.
Diante disso, só restou à Luzimira de Carvalho levantar a cabeça, cair na real e cumprir com as directrizes médicas. Começou de imediato, no mês de Outubro de 2011, o combate à doença, à base de quimioterapia, que englobou diversos tipos de tratamentos.
Dois meses depois, o simples caroço se alastrou por completo pela chucha direita, o que levou o médico a requerer a cirurgia para extirpar o órgão mamário afectado. "Foi muito difícil", disse a nossa entrevistada, para reforçar que no dia seguinte, " as dores eram intensas e restou uma cicatriz, para o resto da vida".
Até agora, são passados sete anos desde que iniciou o tratamento, que incluiu a quimioterapia e a cirurgia. Luzi-
mira de Carvalho diz estar “clinicamente curada”, a julgar pelo impacto e pelo tempo em que vem lutando contra a doença, sublinhando que “sou considerada sobrevivente”.
“Estou, há sete anos de sobrevivência, porque normalmente pelo impacto da doença, a pessoa é considerada sobrevivente, cinco anos depois”, disse.

Liga contra o Cancro
Depois de entrar na fase de sobrevivência, Luzimira de Carvalho foi convidada pelo director do Instituto de Oncologia a fazer parte da Liga An-golana contra o Cancro, em 2012, como primeira vogal e, em Julho de 2018, assumiu a presidência da agremiação.
Em princípio, disse queria desistir, mas “depois dei a volta por cima”, argumentando que aceitou o desafio para "emprestar a minha voz e o meu rosto para dizer que o cancro existe". É uma missão difícil, mas dignificante, por se tratar de uma causa solidária e de amor ao próximo.
A Liga Angolana contra o Cancro está a implementar dois projectos, sendo um ligado ao cancro, denominado “Rosa Esperança”, outro “Bola de Neve”, direccionado a crianças que enfrentam a pandemia.
Desde que assumiu a presidência da agremiação filantrópica, os seus membros têm se desdobrado, nos últimos tempos, em acções de sensibilização junto de algumas empresas públicas e privadas, mercados e escolas, com a realização de palestras e rastreios, no sentido de a população saber que o cancro existe e a prevenção é a melhor forma de combate.
“A nossa missão como associação da luta contra o cancro é ir aonde o médico não tem condições de ir”, disse Luzimira de Carvalho, tendo anunciado que a liga trabalha directamente com uma equi-pa de especialistas do Insti-tuto Nacional de Oncologia, o exame de rastreio é feito e o caso é encaminhado e atendido imediatamente.
Outubro Rosa é  um movimento que vem conquistando espaço, em cada ano que passa, com o objectivo de levar à consciencialização sobre a prevenção do cancro da mama, cujo número tem aumentado vertiginosamente todos os anos. 50 por cento dos casos que dão en-trada no Instituto de Controlo do Cancro, são de natureza muito grave.

Apoio familiar

Depois de saber que era doente de cancro da mama, Luzimira de Carvalho encontrou no seio familiar o suporte e apoio que a ajudaram a superar o problema. Mas, durante aquele período teve de deixar de trabalhar durante um ano e meio.
Hoje, aos 36 anos, tem um filho de dois anos e sete meses e deixou de amamentar o bebé recentemente. Lamentou o facto de acompanhar casos em que muitas mulheres que sofrem dessa patologia serem abandonadas pelos  maridos.
“A luta para vencer o cancro, é mais fácil com o apoio familiar”, disse a presidente da Liga Angolana de Luta contra o Cancro, para quem “a vida não termina com um diagnóstico. Qualquer pessoa que esteja viva, pode desenvolver uma patologia”.
Actualmente, Luzimira de Carvalho João, de seu nome completo, voltou a ser reintegrada nos quadros da operadora de telefonia fixa, Angola Telecom, como técnica de auditoria de operações, área que controla todas as ligações do circuito interno do país. 

Números da doença 

Nos últimos cinco anos, 1286 novos casos  de cancro da mama foram diagnosticados pelo Instituto Nacional de Controlo do Cancro, o que representa 21 por cento de todos os pacientes atendidos naquela unidade, disse a médica psico-oncologista, Hilda Sebastião.
O cancro é considerado problema de saúde pública, disse a médica psico-oncologista que acentuou que a maior dificuldade da população alvo está relacionada com o acesso ao serviço especializado.
Hilda Sebastião disse que  a Organização Mundial da Saúde recomenda que todos os países devem desenvolver programas de controlo do cancro, para reduzir a incidência e a mortalidade associada à doença.
O Instituto Angolano de Luta contra o Cancro, localizado em Luanda, é a única instituição que possui o mamógrafo, aparelho para efectuar o diagnóstico precoce, razão que concorre para o aglomerado de pacientes na unidade, em busca de soluções para o problema.
 Para que a planificação e avaliação dos programas de controlo do cancro sejam bem sucedidas, exige-se a disponibilização de dados epidemiológicos relativos à frequência e distribuição da doença em cada região, fornecidos por um registo da base populacional.
A psico-oncologista disse que a ausência deste registo em Angola originou uma falta de conhecimento em relação à doença, limitando o desenvolvimento de uma eficaz política nacional de combate ao cancro.
O cancro da mama é a do-ença que mais afecta o sexo feminino, seguido do colo do útero, da cabeça, pescoço.

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