Reportagem

Toneladas de mangas estão a apodrecer no Dombe Grande

Sampaio Júnior | Benguela

A comuna do Dombe Grande, a sul da cidade de Benguela, estende-se por uma área de 2.762 quilómetros quadrados, treze bairros, 12 aldeias e 44.236 habitantes, que se dedicam maioritariamente à agricultura de subsistência e de rendimento. Dispõe de importantes recursos no seu subsolo, com fortes potencialidades para os sectores agrícola e do turismo.

Fotografia: Edições Novembro |

O Jornal de Angola visitou a região e constatou que é na agricultura que o Dombe Grande tem o seu principal foco para  o  desenvolvimento económico e social.
Em muitas fazendas e propriedades agrícolas verifica-se com frequência a introdução de práticas modernas para a melhoria do processo de produção. A mecanização tornou-se, ultimamente, num factor fundamental para o aumento da produtividade, especialmente na fruticultura e hortícolas, mas infelizmente alguns  factores inviabilizam diversos projectos agrícolas: milhares de toneladas de fruta, sobretudo as famosas mangas de qualidade, não foram escoadas para os mercados de consumo e apodreceram nos campos,  causando enormes prejuízos aos agricultores que apostaram na cultura. “Se tivéssemos uma fábrica de conserva de fruta, poderíamos salvar alguma coisa, mas nem isso temos”, desabafou o empresário e  antigo funcionário da ex-Açucareira 4 de Fevereiro, Jose Kambiete.
 Andar pelos campos de mangueiras é tomar contacto com uma verdadeira calamidade que contraria todos os programas do Executivo virados para o aumento da produção nacional para diminuir  as importações.
A verdade é dura para os homens que apostaram na agricultura, no vale do Dombe Grande. O cenário é de perdas que ainda não estão totalmente contabilizadas e muitos agricultores não acreditam no que aconteceu. As mangas são um produto muito solicitado no mercado interno e os agricultores tinham perspectivas de iniciar a exportação, dada a sua boa qualidade.
Segundo José Kambiete, a região do Dombe Grande possui um imenso potencial em terras e água propício para a produção agrícola, especialmente de manga, tomate e cebola em grande escala.
Os solos são aráveis, atraem os homens que gostam de trabalhar a terra,  mas estes encontram enormes dificuldades na comercialização dos produtos por falta de mercado.
A melhoria de algumas sementes, aliada às novas práticas de adubação e de irrigação por meio de pivôs e sistemas de “gota-a-gota” fazem com que se atinja a produção de centenas de toneladas de vários produtos agrícolas. “Infelizmente, o resultado que obtivemos esta época  é nulo, ninguém consegue vender”, explicou José Kambiete. “O que vemos aqui é um quadro triste”, lamentou o agricultor.

Exportação
Em 2017, Victorino Marques  exportou  para Portugal, a partir do Porto do Namibe, várias quantidades de manga, como resultado de uma parceria com uma empresa lusa ligada ao comércio internacional de hortofrutícolas. “Infelizmente, o projecto não teve pernas para andar, porque umas das partes falhou o acordo de parceria”, lamentou o agricultor. 
Victorino Marques  produz várias espécies, entre as quais três de origem americana (kent, kit e tommy) e uma  do tipo espada ou saibras.

Produto para animais

Sansão Marques, proprietário de uma fazenda familiar na zona do Dombe Grande, fez um grande investimento que tinha tudo para dar certo. As 15 toneladas de mangas que tinha no campo estão a estragar-se por falta de mercado. “Chegamos ao ponto de fazer do produto a base alimentar dos caprinos e suínos, quando a fruta recolhida devia servir  para consumo humano”, lamentou amargurado.
“Há anos que nos queixamos deste triste cenário que vivemos, mas não se deu a devida atenção ao assunto”, afirmou o agricultor, acrescentando que os bens produzidos não chegam ao principal mercado, que é Luanda. “É em Luanda onde se encontram as grandes superfícies comerciais. Neste momento, o grande problema é a estrada nacional 100, devido ao estado de degradação, como se não bastasse  as regras de jogo que nos são impostas pelas grandes superfícies comerciais quanto ao pagamento”, disse.     
Sustentou que as grandes superfícies comerciais estão a ditar regras sobre os preços de venda da manga, que nem sequer suportam os custos de produção. 
Sublinhou que a manga é de alta qualidade e os compradores informais eram principais clientes, mas estes, hoje têm pouco espaço de manobra, por não estarem autorizados a vender  à beira das estradas e nas ruas da cidade. “Outro problema é que os produtores não têm garantias de preço justo e em tempo oportuno. As grandes superfícies comerciais só pagam 90 dias depois. Não existe aqui nenhuma razoabilidade na troca de serviços, o que nos deixa muito tristes”, disse.   
Os agricultores reclamam por melhores vias de escoamento. Sublinham que o estado degradante das estradas não incentiva a produção, ao mesmo tempo que defendem a regulação dos preços.
Victorino Sousa Marques, ex-militar das extintas FAPLA, tem no Dombe Grande 90 hectares de terra para a produção de mangas, desde 1985. Devido à idade, está a passar o testemunho  da  produção agrícola ao  filho Sansão Marques.
Tem duas fazendas,  concretamente a Tchipia Tiri, para a produção de manga e goiaba,  e a Tchitanduluca,  para todo o tipo de cultura.  Ambas têm mais de 200 trabalhadores entre efectivos e eventuais.
 De acordo com Sansão Marques, o supermercado Candando é o seu principal cliente e nunca se queixou da qualidade da fruta.  “Primamos pelo rigor.  O produto é devidamente acondicionado e transportado por camiões para Luanda. As mangas produzidas por nós têm muita qualidade e são muito apreciadas, o  que nos engrandece”, revelou.  
A fazenda fornece semanalmente cerca de 500 caixas de manga ao supermercado Candando, em Luanda, na base de uma parceria existente.

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