Reportagem

Transporte de energia em rede nacional

André dos Anjos |

A Rede Nacional de Transporte de Energia Eléctrica, sobre a qual incidem avultados investimentos públicos, passa a interligar todas as capitais provinciais do país, dentro dos próximos nove anos, como corolário da estratégia “Angola Energia 2025”, gizada pelo Executivo.

A Rede Nacional de Transporte de Energia Eléctrica aplicou avultados investimentos públicos para a interligação de todas as capitais provinciais
Fotografia: Vigas da Purificação

Datado de 2008 e concebido em linha com o Programa Nacional de  Desenvolvimento de Longo Prazo 2018/2025, o documento, considerado ambicioso por muitos, assenta num conjunto de infra-estruturas, grande parte delas já executadas e algumas em vias de conclusão, que vão permitir que, dentro de dois anos, Angola parta para a auto-suficiência energética.
Conhecedor do sector como poucos, o ministro da Energia e Águas corporiza o optimismo quanto ao êxito do programa que está a conduzir o país à auto-suficiência energética em 2025. João Baptista Borges assegura que o que já foi feito no sector permite augurar essa meta.
Parte significativa da rede de muito alta tensão, de acordo com o governante, está a ser executada com sucesso no âmbito do Plano Nacional de Desenvolvimento de Médio Prazo (PND 2013/2017), que , dentro de dois anos, vai dar lugar ao Programa Nacional de  Desenvolvimento de Longo Prazo, onde se insere a estratégia “Angola Energia 2025”.
Tendo em conta o que já foi feito a nível da Rede Nacional de Transporte, adianta o ministro da Energia e Águas, entre 2018 e 2025, as atenções devem incidir fundamentalmente nos 60kv necessários para apoiar a electrificação rural, outro grande objectivo inserido no Programa Nacional de Desenvolvimento “Angola 2025”. Durante muito tempo, sobretudo nos últimos anos, o forte crescimento do consumo de energia no país, principalmente nos principais centros urbanos, colocou o sector numa situação de “emergência permanente”, concentrando grande parte dos seus esforços na procura de respostas para problemas pontuais.
A estratégia “Angola Energia 2025” marca a rotura com as soluções paliativas e assume o compromisso de garantir o acesso à energia eléctrica à generalidade da população angolana como forma de promover o desenvolvimento humano.
Para garantir uma maior participação de agentes privados no sector, a estratégia “Angola Energia 2025” pretende criar condições para reduzir os encargos  de  exploração e, por via disso, atrair a participação de agentes privados no sector.
Em 2013, quando começou a ser implementado o PND 2013/2017, o país tinha 2.850 km de linhas eléctricas (de 60, 220 e 400kv). Hoje, tem muito mais do que isso, mas o objectivo é atingir os 16.350 km em 2025.
Há relativamente pouco tempo, três anos sensivelmente, o país tinha apenas 36 subestações ao longo da Rede Nacional de Transporte. O número tem vindo a subir, embora ainda esteja longe das 152 estações previstas para 2025.

Segurança energética

As iniciativas do Executivo sucedem-se. Em 2011, foi aprovada, através do Decreto Presidencial nº 256/11 de 29 de Setembro, a Política e Estratégia de Segurança Energética Nacional, com o objectivo de definir as principais orientações estratégicas para o sector e redefinir o respectivo enquadramento institucional.
A longo prazo, a política assume a necessidade de transformação do sector para responder ao enorme desafio associado ao crescimento da procura, ao longo de seis eixos, nomeadamente crescimento do parque de geração, potenciação do papel das energias renováveis, expansão da electrificação, revisão tarifária e sustentabilidade económico-financeira, reestruturação e reforço dos operadores e promoção da entrada de capital e know-how privado.

Investimentos

O Executivo tem previstos vários investimentos na Rede Nacional de Transporte depois de 2017, nomeadamente a construção de um novo corredor de 220 kv, com linha dupla, entre o Norte e o Leste do país. A opção pelos 220kv deve-se à necessidade de garantir redundância e segurança de um corredor de 400 kv, do Queve em direcção a Sul, até à Namíbia, através de Benguela e do Lubango, completando uma espinha dorsal Norte-Sul de 400 kv.
Este novo corredor vai aproximar-se do litoral, criando flexibilidade para, no futuro, escoar geração de energia ligada a um eventual novo local de abastecimento de gás. Estão previstos também a construção de um novo eixo de 220 kv para reforço do abastecimento à cidade de Menongue e o fecho em anel das antenas de 220 kv do Sistema Norte, unindo Mbanza Congo e Maquela do Zombo.

Província de Luanda


No caso de Luanda, os investimentos previstos para 2017 permitiram sustentar o crescimento da carga da cidade até 3,3 gigawatts, com excepção da subestação de Viana. Em 2025, segundo os estudos realizados, a electricidade que circula na tensão de 400 de kv em direcção a Luanda terá tendência para fluir em direcção a Viana, ultrapassando em muito a capacidade de transformação de 400/220 kv aí disponível, caso não se verifiquem novos investimentos.
Com vista a evitar este problema, até 2025, será implementado um conjunto de medidas para minimizar e gerir a pressão sobre a Subestação de Viana, no futuro, com a criação de um andar de 400 kv na subestação de Cacuaco, para seccionamento da linha de 400 kv entre Capari e Catete, substituição e ampliação da transformação de 400/220 kv para 2 x 450 mva em Viana e a criação de novas subestações de 220 kv no centro da cidade de Luanda, em particular na Chicala, aproveitando a nova auto-estrada, e no Zango.

Países vizinhos


A interligação de Angola à rede regional da SADC é importante, face à forte aposta na hidro-electricidade. Em anos hidrologicamente favoráveis, Angola terá excesso de energia que, ou desperdiça, ou exporta. Em anos “secos”, a possibilidade de importar energia em vazio das centrais de carvão da África do Sul ajudará o sistema.
Em termos de interligações com países fronteiriços, prevê-se três, até 2025, à República Democrática do Congo, entre o Soyo e o Inga, de 400 kv, entre Cabinda e o Inga, de 220 kv, e entre Luachimo e Kananga, de 220 kv. A Sul, estão previstas duas ligações à Namíbia, via Baynes, de 400 kv, e a Ondjiva, de 60 kv.
Com a ligação ao sistema Inga, pretende-se exportar energia para a cidade de Kinshasa. No Leste, a ligação a Kananga ajudará a reforçar a estabilidade do sistema. A Namíbia, a Sul, constitui um potencial cliente, em particular nos meses com menos produção hídrica, devido à importância da barragem de Ruacaná.
A Namíbia está ligada à região, constituindo uma espécie de ponte para a África do Sul, Zimbabwe e Zâmbia. A central hidroeléctrica de Baynes constitui o ponto natural de interligação de 400 kv.
Propõe-se ainda um novo eixo opcional a desenvolver para a zona do “Copper Belt” na Zâmbia. Todavia, só se prevê que este eixo seja desenvolvido se for viabilizado por iniciativa privada. Nesta óptica, Angola disponibilizaria aos promotores do projecto a possibilidade de construírem a central hídrica do Túmulo do Caçador e uma do Ciclo Combinado no Lobito.
A figura abaixo mostra a utilização da Rede Nacional de Transporte (RNT) de forma simplificada num ano hidrológico médio, em particular a direcção principal dos fluxos de energia entre os principais nós da rede, o volume de energia transportado e a taxa de utilização dos diferentes corredores. Em cada nó, é calculado o custo marginal de geração ao longo do ano, que será maior quanto mais restrições se verificarem no transporte.
O corredor de 400 kv assume uma importância estrutural no transporte de energia em 2025, sendo neste nível de tensão que circula a maior parte da energia.
O maior fluxo de energia parte do Soyo e das centrais do rio Kwanza em direcção a Luanda, não se verificando restrições. A ligação de 400 kv, entre o Norte e o Centro e entre o Centro e o Sul, apresenta uma maior taxa de ocupação, verificando-se um aumento do preço marginal da geração para o Sul.
A nível dos corredores de 220 kv, o destaque vai para a ligação entre a Jamba e o Sistema Sul (Lubango e Menongue), que será utilizada em pleno, bem como para o corredor entre o Norte e o Leste, com uma elevada taxa de utilização.
Constata-se que a diferença de preços entre os vários nós não é significativa, com excepção do Sistema Sul, Leste e Cabinda, onde se verificam preços superiores. Esta aproximação de preços e as reduzidas restrições nos corredores são indicadores de que o sistema está próximo de comportar-se como uma rede única e interligada. As interligações permitirão exportar em ano médio e, no caso do Sul, importar energia em anos secos, durante as horas de vazio.

Investimento primário


Os grandes investimentos no sector energético começaram, como não podia deixar de ser, nas fontes geradoras, o que implicou a reabilitação, ampliação, modernização e a criação de novas barragens e de uma central de ciclo combinado de produção e transformação de energia.
Se em relação às barragens pouco resta para dizer, já o Ciclo Combinado do Soyo tem especificidades técnicas que não se esgotam numa só abordagem. A começar pelo facto de todo o seu processo de geração de energia começar com a queima de gás, antes de passar por um processo não menos industrial de vapor de água, portanto, fora dos sistemas tradicionais de produção de energia.
Orçada em 900 milhões de dólares, a central do Ciclo Combinado do Soyo tem uma capacidade de produção bruta de 750 megawatts de energia eléctrica. Mas, comparada com os outros dois grandes projectos, em termos de quota de produção, a central do Soyo é uma espécie de “irmão mais novo”, depois de Laúca (2.070 megawatts) e de Cambambe II (960). Calcula-se que, no conjunto, os três contribuam com mais de quatro mil megawatts.
A previsão é que, adicionada à capacidade existente, a produção de Laúca, de Cambambe e do Soyo ajude a ultrapassar os cinco mil megawatts, a  grande meta do PND 2013-2017.

Soyo interligado a partir de hoje

A partir de hoje a cidade do Soyo passa a estar ligada à rede nacional de energia eléctrica, a partir da estação de 60/15 quilovolts construída naquela localidade, no quadro do projecto da Central de Ciclo Combinado que prevê gerar a partir do próximo ano 750 megawatts para a província do Zaire e o resto do país.
Para a interligação ao sistema nacional foi construída uma linha de transporte de energia de alta tensão de 400 kv, no itinerário Soyo-Nzeto-Capari-Catete, no âmbito do projecto do Ciclo Combinado do Soyo. Esta semana, a vila do Nzeto passou a integrar a rede nacional de energia proveniente da barragem de Cambambe, província do Cuanza Norte. A partir da sala de comando das operações da  estação eléctrica de 60/15 quilovolts, situada na periferia da sede municipal do Nzeto, foi accionado o mecanismo de interligação. Coube ao ministro da Administração do Território, Bornito de Sousa, accionar o sistema eléctrico para os bairros da vila do Nzeto. O gesto de Bornito de Sousa foi seguido pelo governador provincial do Zaire, José Joanes André, e pelo ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges.
A  estação eléctrica do Nzeto de 60/15 kv tem uma potência instalada de 16 megawatts e vai beneficiar cerca de 1.300 famílias, numa primeira fase, número que pode elevar-se com a extensão da rede de distribuição aos novos bairros da sede municipal. A vila passa a contar com mais três postos de transformação de energia.

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