Reportagem

Transporte ferroviário na integração regional

Leonel Kassana |


Dos projectos estruturantes desenhados pelo Executivo para o relançamento da economia do país, o Caminho-de-Ferro de Benguela assume-se como o de maior relevância para a circulação de pessoas e mercadorias e de integração regional, na esteira do “Corredor do Lobito”, uma plataforma que integra terminais marítimos, ferroviários, rodoviários e aéreos, ligando o litoral ao Leste até à fronteira com a Zâmbia e a República Democrática do Congo. 

Fotografia: M.Machangongo

Como dissemos na primeira parte da série de reportagens da incursão que o Jornal de Angola faz às localidades por onde passa a linha do Caminho-de-Ferro de Benguela, o comboio veio mudar definitiva e positivamente o panorama social e económico da população das províncias do litoral, centro e leste de Angola.
A ligação ferroviária do Lobito ao Luau está concluída. São cerca de 1.267 quilómetros de linha que permitem, desde 2012, a circulação de pessoas e o transporte de todo o tipo de mercadorias. As 38 estações ferroviárias construídas entre o Lobito e o Huambo registam, invariavelmente, lotação esgotada, tal é procura, mas a da Caála sobressai.
Por estar localizada na zona de confluência entre alguns municípios do norte da Huíla e sudeste de Benguela, tornou-se o principal destino de muitos agricultores destas regiões, ávidos por escoar grande quantidade de cereais, sobretudo milho, farinha, batata rena, hortaliças, fruta e outros produtos para os mercados do litoral e do leste de Angola. Situada a pouco menos de 20 quilómetros da entrada da cidade do Huambo, essa estação regista nos “dias de comboio” um elevado movimento.
Um autêntico formigueiro com toda a gente a carregar o que puder. Há até pequenas rixas, pontualmente resolvidas pelos funcionários ferroviários (poucos), que não têm mãos a medir para atender toda a gente, levando o comboio a permanecer na estação um tempo considerável, mas compensado pela quantidade de carga.
Na Caála, ainda estão intactos gigantescos silos que serviam no passado de armazenamento para milhares de toneladas de milho, proveniente dos municípios do Chipindo, Chicomba, Caconda, Caluquembe, na Huíla, e do Huambo, antes do seu embarque de comboio  para as diferentes moageiras situadas no “Corredor do Lobito” ou para a exportação.

Satisfação dos agricultores

Com o comboio do CFB, os agricultores destas regiões vêem renovada a esperança no escoamento da produção, em grande escala, do milho, trigo e outros cereais, pois um cenário de falta de escoamento por dificuldades de transporte e mercado está definitivamente afastado. Esse é o sentimento da maioria das pessoas com quem conversámos na Estação da Caála, enquanto acompanhávamos todo o movimento de carga de produtos agrícolas.
O agricultor João Pedro é um dos que acreditam que a retomada da circulação do comboio entre o Lobito e o leste vai levar ao aumento da produção agrícola, sobretudo do milho, batata rena, cenoura, cebola, hortaliças e outros. Reconhece que esses produtos são hoje bem vendidos nos vários mercados de diferentes localidades das províncias por onde passa o comboio.
Joana Elavoko dedica-se à produção de hortícolas na região da Calenga, município da Caála. Quando a interpelámos, preparava-se para embarcar seis enormes sacos de repolho para os mercados do Luena e Luau, actividade a que se dedica desde a reabertura da linha férrea. À nossa insistência, Joana Elavoco, que foge da objectiva de Miqueias Machangongo, não fala em preços, mas deixa escapar que o que ganha dá para aguentar as despesas de casa, como saúde, alimentação e educação dos cinco filhos. “Resta ainda algum para o negócio não morrer.” (risos).
Como esses dois agricultores, centenas de pessoas vêem no comboio uma via segura para melhorar os seus rendimentos, numa altura em que a diversificação da economia está na ordem dia como resultado da baixa dos preços do petróleo no mercado internacional, que se reflectem, como se sabe, no nível de vida da população.
Mas, como que imune às consequências desse fenómeno, a população que vive no traçado do Caminho-de-Ferro de Benguela faz uma aposta forte na agricultura. A produção para a sobrevivência deu lugar à comercialização e com ela o aumento do rendimento das famílias.
Um agricultor da vila do Longonjo, no Huambo, foi  lapidar: “Nós temos o nosso petróleo, que é o milho, batata rena, hortícolas, fruta e outros produtos do campo”. Nada mais assertivo: nos mercados montados próximo das estações principais e intermédias do CFB, a abundância e a diversidade de bens agrícolas e animais deitam por terra qualquer dúvida sobre o potencial dessas regiões.
Hoje, ver em diversas localidades do planalto central centenas de bicicletas, motorizadas e mesmo viaturas de ocasião tornou-se já trivial. É o resultado dos rendimentos provenientes dos produtos do campo que, transportados de comboio, chegam aos maiores centros de consumo do país. A fome e a pobreza estão a ficar para a história de um passado recente. 
Esta realidade acompanha-nos até à vila do Cunje, não muito distante da cidade do Cuito, a capital do Bié, a “nossa” segunda paragem desde que saímos do Lobito nesta viagem de comboio.

Progresso no centro de Angola


Sempre de comboio, deixámos a cidade do Huambo às seis horas, em direcção ao Bié, no centro de Angola. Em Camacupa, está localizado o centro geodésico do país. Para trás, ficaram mais de 500 quilómetros de linha férrea desde o Lobito e o registo de um franco progresso em todas as localidades situadas no traçado do CFB, ressaltando-se aqui a construção de importantes infra-estruturas sociais como escolas, centros e postos de saúde, residências para jovens e outros funcionários públicos, sistemas de captação e distribuição de água potável e de energia.
A mudança é visível. A evolução que se regista nessas áreas está, particularmente, ligada ao CFB, já que, de comboio, o material de construção, como o cimento e outros meios chegam com mais facilidade e em enormes quantidades ao interior do país.
Ao falar com velhos ferroviários e gente que habita ao longo do caminho-de-ferro, percebe-se claramente que as assimetrias entre o litoral e o leste vão diminuindo de forma significativa. Já não há histórias de saudade sobre o regresso do comboio “para breve”, como em 2009, quando testemunhámos a monumental obra de montagem da linha, pois este, desde 2012, passou a fazer parte do quotidiano da gente do planalto central e do leste de Angola.
Desta vez na cidade do Huambo, já não temos um Leonel Barata, das oficinas gerais do CFB, a falar-nos, com nostalgia do monstro em que, então, se transformara a maior empresa ferroviária do país, por culpa dos anos de conflito armado. Como o seu colega Marques Fundões, torneiro e antigo maquinista, o homem que falava dos tempos em que nas oficinas do Caminho-de-Ferro de Benguela era feito todo o tipo de reparações de avarias nas locomotivas, carruagens, vagões e outros meios, passou há alguns anos à reforma.
No seu auge, as oficinas gerais do CFB eram únicas no país. Estavam bem equipadas, com técnicos de grande nível e muita gente jovem com vontade de aprender serralharia, electricidade, carpintaria e outras. Carlos Gomes, 73 anos, torneiro de profissão e antigo maquinista,  actual presidente do Conselho de Administração do CFB, cuja entrevista encerra a série de reportagens sobre o impacto do comboio junto da população, é produto destas oficinas instaladas na cidade do Huambo.
Quando o comboio deixou de apitar no planalto central, as oficinas gerais tornaram-se inoperantes, mas áreas como pintura, electricidade, carpintaria, serralharia passaram a prestar alguns serviços a terceiros, garantindo mínimos rendimentos à empresa.
Os tempos são outros. Visionários, os responsáveis da empresa traçaram uma estratégia que permite o resgate do papel das oficinas gerais do CFB, a começar pela construção de um centro para a formação de técnicos nas mais variadas especialidades e uma linha para a formação prática na condução de veículos ferroviários.
Os ATL (automóveis para  transporte de linha) são reparados nas oficinas do CFB para garantirem, no futuro, um transporte mais personalizado de passageiros. Com dois confortáveis quartos, WC, cozinha, escritório, sala de visitas e outras ­comodidades são utilizados, sobretudo, por altos funcionários da empresa, entidades oficiais e visitantes. Podem ser também alugados para o transporte de turistas já que dispõem de todas as comodidades.
Até chegar ao município do Catchiungo, o comboio tem paragens mais prolongadas nas estações do Dango, Santa Iria, Santo Amaro, Boas Águas e Chicala Choloango. Todas essas regiões destacam-se pelas suas potencialidades agrícolas. O cenário não se altera muito entre as várias localidades. Camponeses provenientes das mais variadas comunas e povoações, mesmo de municípios relativamente distantes, como o Bailundo e o Mungo, têm agora no comboio o principal meio de escoamento da produção do milho, batate-doce, abacate, hortícolas e outros produtos.
Aí, via de regra, a produção de bens agrícolas, sobretudo cereais, é feita em grande escala, não sendo fortuita a designação de “celeiro de Angola” dada ao planalto central. Com o comboio, esse estatuto pode ser reforçado, pois a possibilidade de os produtos deteriorarem-se no campo é remota.
Comboio. Sempre de comboio pelo planalto central. A mais de 16 ­quilómetros do Catchiungo está o município do Chinguar, à entrada da província do Bié, pela linha do CFB. Não muito distante daqui, aparece o Cutato.  Com uma população estimada em cerca de 300 mil habitantes, o Chinguar é outra importante região agrícola das muitas que existem no centro de Angola.
Aqui, a oferta de bens no mercado montado não muito distante da linha férrea confirma a abundância de boas safras, fruto da regularidade das chuvas e da criatividade de um povo talhado para trabalhar a terra. Daqui, o comboio “recolhe” tudo para o Leste de Angola. Milho, fuba, feijão, hortaliça, batata rena, repolho, couve e outros produtos do campo preenchem as carruagens de carga.
Mais criativos, alguns comerciantes de ocasião (candongueiros) instalaram em povoações situadas próximo do caminho-de-ferro, no planalto central, aquilo que mais se parece com autênticas “centrais de compras” de produtos agrícolas, que depois são revendidos nas cidades e vilas a preços manifestamente especulativos. Um quilo de feijão manteiga vendido a 450 kwanzas em Catabola, Camacupa ou noutra zona qualquer do Bié ou Huambo custa hoje em Luanda quase o dobro. Este é apenas um exemplo da especulação que não falta por essas paragens.
Cada vez mais apinhado de gente, o comboio segue depois para a vila de Cunhinga na bifurcação para o Andulo e Nharêa. Há sinais claros de progresso e é impossível ver nas ruas gente de mão estendida a pedir esmola. A passagem do comboio é garantia segura da venda de produtos. A localidade de Capeio surge de rompante, antes do comboio pernoitar na comuna do Cunje e onde está uma estação de primeira grandeza, como as do Lobito, Cubal, Huambo e Luau.
No CFB, tudo parece ter sido pensado ao detalhe. Além dos serviços de carga e de passageiros, a paragem do comboio nas estações principais permite a sua completa limpeza, assim como o reabastecimento, fundamentalmente, de água.

 

Rumo à ponte sobre o rio Kwanza

 

Chegar à comuna do Kwanza, município de Camacupa é, seguramente, uma das etapas mais empolgantes numa viagem de comboio. Camacupa notabiliza-se também pela sua tradição na cultura do arroz, numa altura em que surgem iniciativas empresariais para a sua reactivação em grande escala, cujo escoamento para os principais mercados encontra, certamente, no comboio um parceiro privilegiado. Dir-se-ia que ao comboio nada escapa.
Sobre o rio Kwanza com o mesmo nome, foi erguida uma imponente ponte que permite a passagem segura do comboio do mar ao Leste e vice-versa, passando pelas localidades do Cuemba e de Munhango, ainda no território do Bié. 
Até chegar aqui, ainda atravessámos as áreas da Chipeta e de Catabola, cuja população também vibra com a chegada do comboio, pois uns sabem que podem vender produtos à sua passagem e outros embarcam para outras localidades atravessadas pela linha do Caminho-de-Ferro de Benguela.
Camponeses com quem conversámos no Kwanza confirmam isso. Dizem que antes da chegada do comboio havia enormes quantidades de produtos agrícolas nos campos a aguardar  por transporte para os grandes centros urbanos. “Agora, vendemos muito milho, feijão e arroz em muitas cidades, porque o comboio é barato e seguro”, diz uma camponesa, das muitas que por momentos deixam as lavras para virem até à linha férrea, tal como em Cangona, Cangumbe, Cachipoque e  Chicala, a caminho do Luena, a próxima etapa desta viagem do Jornal de Angola do litoral angolano ao Luau.

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