Reportagem

Tributo aos Heróis da liberdade

Kumuênho da Rosa | Lourenço Manuel | Carlos Paulino

O Presidente da República, José Eduardo dos Santos, realiza hoje uma visita de trabalho ao município do Cuito Cuanavale, província do Cuando Cubango, onde inaugura o Memorial que assinala a vitória das forças angolanas na célebre Batalha do Cuito Cuanavale, que se desenrolou entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988.

Região em que ocorreu a maior batalha da História de África dá lugar ao memorial que homenageia a coragem dos combatentes angolanos
Fotografia: Nicolau Vasco | Edições Novembro | Cuando Cubango

A História registou como o maior confronto militar jamais visto em solo africano. Na região do Cuito Cuanavale, província do Cuando Cubango, entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988, tropas das antigas Forças Armadas de Libertação de Angola (FAPLA), apoiadas por militares cubanos, e as forças da UNITA, fortemente apoiadas pelo exército regular sul-africano que na altura ocupava a Namíbia e importantes parcelas do território angolano, envolveram-se no mais violento conflito armado de toda a História da guerra angolana, que ficou conhecido como a Batalha do Cuito Cuanavale.
Hoje, o confronto militar que mais influência teve na história de toda a região austral do continente berço, ao ponto de ser sugerido o dia em que terminou – 23 de Março – como o Dia da Libertação da África Austral, ganha um memorial a ser inaugurado pelo Presidente José Eduardo dos Santos, que enquanto Chefe de Estado e Comandante-Chefe das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), liderou toda a operação que a partir da derrota imposta no teatro militar à toda-poderosa Africa do Sul racista do apartheid, culminou com a libertação de Nelson Mandela, a Independência Nacional da Namíbia e o colapso do apartheid.
A inauguração do “Memorial à Vitória da Batalha do Cuíto Cuanavale” é de um grande simbolismo, por um lado, pela história da região em que foi erguido o monumento, que além de lugar de memória passa a ser uma referência turística para toda a África a sul do Saara, por outro lado, pela pessoa que o inaugura, José Eduardo dos Santos. A poucos dias de deixar as funções com as quais ajudou a tornar realidade o que para muitos pareceu impossível (a libertação da África Austral), o Presidente José Eduardo dos Santos realiza hoje o derradeiro acto público antes da passagem do testemunho.

O Memorial


A primeira fase desta imponente obra, construída numa área de 3,5 hectares, agrupa-se entre outro elemento, um conjunto escultórico na praça memorial designadamente o Monumento dos Soldados, a Bandeira da República, o Grupo escultórico e a Parede dos heróis, que serve para eternizar a grandeza e o sacrifício dos milhares de angolanos que lutaram contra as tropas do regime do apartheid.
Logo à entrada do município salta à vista o Monumento da Bandeira postada num edifício com 55 metros de altura e mil metros quadrados de área útil, revestido depedras graníticas e elementos em bronze caracterizada por uma arma do tipo AKM que a partir da alça de mira, o visitante pode observar com nitidez o Triângulo do Tumpo, último reduto onde se desenrolaram encarniçados combates.
O edifício, equivalente a um prédio de 18 andares, além da arma envolvida pela bandeira com o miradouro apontado ao Triângulo do Tumpo, conta  com o Monumento do Soldado retratado por uma escultura em bronze, no qual dois militares das FAPLA, numa estátua de 21,5 metros de altura e 110 toneladas de peso, erguem o mapa de Angola simbolizando a defesa da integridade territorial do país.
No conjunto escultório feito também de bronze, num espaço de 50 metros de comprimento, estão  gravados os três momentos sequenciais da batalha do Cuíto Cuanavale, nomeadamente o momento que retrata a concentração das unidades militares das FAPLA, a caminhada rumo à vitória e as unidades em defesa da vila, fracassada a tentativa de ocupação de Mavinga e Jamba, os principais alvos a abater na operação “Saudemos Outubro” das FAPLA.
A denominada Parede dos Heróis ocupa uma faixa de 75 metros de comprimento. As esculturas em bronze  simbolizam quatro momentos principais, designadamente a homenagem aos militares das FAPLA, a educação patriótica, a guerra, a destruição, o sofrimento do povo do Cuíto Cuanavale, a firmeza e a determinação dos angolanos na vitória.
Adjacente ao memorial está o museu a céu aberto onde se encontra exposto todo o material bélico usado pelas FAPLA durante os combates com realce para os tanques de guerra BMP-1 e 2, peças de artilharia de 130, D-30 e 76 milímetros aviões de combate Mig-23 e 21, peças antiaérea ZU-23, metralhadoras do tipo PKM entre outro tipo de equipamentos militares usados durante a ofensiva das tropas governamentais.
No recinto foi construída uma vasta sala de conferências para uma plateia de mais de 600 pessoas, uma biblioteca, dois blocos reservados ao laser e 25 casas protocolares do tipo T3 para acomodação de turistas. No mesmo local o visitante pode desfrutar das paisagens naturais que ilustram aquele que foi o cenário dos combates.

Merecida homenagem

O assessor técnico do director do Gabinete de Obras Especiais (GOE), Balduíno Manuel, explicou em declarações à imprensa, que o Memorial à Vitória da Batalha do Cuíto Cuanavale é uma infra-estrutura que está à altura dos acontecimentos de 23 de Março de 1983, nos quais as FAPLA impuseram uma pesada derrota aos invasores racistas sul-africanos que eram auxiliados por elementos da UNITA.
Segundo Balduíno Manuel, nos últimos dias que antecederam o combate final, as FAPLA ficaram sitiadas durante 60 dias, com intensos bombardeamentos com os canhões de longo alcance G-5 e G-6 e, mesmo aquelas pessoas não muito ligadas à guerra no Cuíto Cuanavale, numa primeira visualização da exposição feita no memorial, facilmente  percebem a dimensão e o grau de destruição, sofrimento e a determinação das tropas no teatro das operações.

Balduíno Manuel destacou que o Monumento à Vitória da Batalha do Cuíto Cuanavale tem muita similaridade com os da África do Sul, Namíbia e do Senegal, a única diferença reside no “espelho de água” que em termos museológicos representa os rios Cuíto e Cuanavale que dão o nome ao município, além de uma outra área onde vai ser colocada uma tocha acesa, alimentada por placas solares, para manter a chama eterna que simboliza o renascimento e a reconstrução do país depois da guerra.

O assessor técnico do director do GOE anunciou que a segunda fase de intervenção no memorial contempla a construção de infra-estruturas ligadas à acomodação, hotelaria e restauração, que vão trazer muitos benefícios turísticos e um maior desenvolvimento para o município do Cuíto Cuanavale.

Região do Cuando Cubango continua a ser a mais minada

Face os engenhos
explosivos que foram implantados durante a batalha do Cuito Cuanavale, o Executivo angolano reforçou nos últimos tempos o processo de desminagem, sobretudo no Triângulo do Tumpo, ao redor do bairro Sá Maria e áreas adjacentes, projectados para receber importantes infra-estruturas sociais.
Três operadoras de desminagem, nomeadamente a ONG britânica The Halo Trust, o Instituto Nacional de Desminagem (INAD) e da Brigada de Engenharia Militar, trabalham no local para acabar o “mais rápido possível” com o actual nível de contaminação de minas.
O Triângulo do Tumpo beneficia de trabalhos de desminagem desde o ano passado pela operadora The Halo Trust e constitui a principal prioridade do Executivo, tendo em vista a construção do monumento histórico e de um projecto associado ao monumento, mas que está mais virado para a componente turística.
O gestor provincial da The Halo Trust no Cuando Cubango, José António, disse à reportagem do Jornal de Angola, que apesar de milhares de minas já removidas no município do Cuito Cuanavale, a localidade continua a ser a mais minada a nível do continente africano, de acordo com um levantamento feito por técnicos internacionais.
José António explicou que a par do terreno arenoso, a forma como foram implantados os engenhos explosivos no Cuito Cuanavale e em particular no Triângulo do Tumpo pelos sul-africanos, exige “muita técnica e precaução”. “Por baixo de uma mina antitanque podemos encontrar mais um projéctil de 130 milímetros ou bomba de avião”, alerta.

José António salientou que o Executivo angolano tem estado a envidar esforços para que dentro de pelo menos três anos o Cuito Cuanavale possa estar livre de minas, com vista a permitir a construção de importantes infra-estruturas sociais para o seu desenvolvimento socioeconómico, assim como para atrair turistas nacionais e estrangeiros que anseiam conhecer esta localidade histórica mundialmente.

“Por este facto é que os nossos efectivos em coordenação com o INAD e Engenharia Militar estão concentrados no Cuito Cuanavale devido à intensidade de minas nesta região”, disse, para acrescentar que tudo está a ser feito para acabar o mais breve possível com todos os engenhos explosivos a nível do município, com realce para o Triângulo do Tumpo, ao redor do bairro Sá Maria e áreas adjacentes.

Historial da batalha

A histórica
batalha do Cuíto Cuanavale que deu origem à Independência da Namíbia, à abolição do regime do apartheid da África do Sul, à libertação de Nelson Mandela e à implementação da Resolução 435/78 do Conselho de Segurança da ONU, teve o seu início em meados de 1987, com a definição dos objectivos da operação “Saudemos Outubro”, pelos estrategas militares das FAPLA.
Mas foi no dia 15 de Novembro de 1987, depois de se ter cumprido ao pormenor com a preparação dos efectivos, a concentração de todo o aparato militar que as FAPLA, sob as ordens do Comandante-em-Chefe José Eduardo dos Santos, deram início à ofensiva para a tomada das localidades de Mavinga e Jamba, a base central de logística da UNITA e o quartel-general de Jonas Savimbi, a partir da qual ordenava a destruição do país e o assassinato de milhares de angolanos.
Frente a esta realidade e ao recrudescimento das acções de pilhagem praticados pela UNITA em todo o território nacional, o Comandante-em-Chefe das FAPLA e Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, determinou a operação “Saudemos Outubro” que contou com a participação da primeira agrupação chefiada pelo então tenente-coronel Ngueto, integrado pela 16.ª e 21.ª brigadas e pelo primeiro grupo táctico.
A segunda agrupação das tropas chefiadas pelo então major Seba Haitalisseni (Tobias Domingos) integradas pela 47.ª e 59.ª brigadas e pelo primeiro grupo táctico, avançaram do Cuito Cuanavale até as margens do rio Longa sem grandes dificuldades empurrando as FALA que constituíram batalhões regulares e semi-regulares para posições mais recuados.
As FAPLA tinham ainda outras unidades de apoio designadamente a oitava, a 25.ª, 66.ª e a 13.ª brigadas de infantaria motorizada, a 52.ª brigada de defesa antiaérea equipada com lança foguetes Osaka, a 24.ª brigada equipada com foguetes Petchorra e a 68.ª brigada de artilharia terrestre.  
O município de Mavinga estava na iminência de ser tomado pelas FAPLA e foi quando Jonas Savimbi pediu socorro às tropas racistas sul-africanas que ocupavam ilegalmente a Namíbia. As unidades do regime do apartheid que se encontravam no Rundu, em poucas horas chegaram ao terreno. Equipado com técnica militar moderna, o exército sul-africano, por intermédio do Batalhão Búfalo, atacou inicialmente a 47ª brigada das FAPLA que já tinha contornado a nascente do rio Longa, tendo esta recuado para outra posição depois de várias horas de encarniçados combates.

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