Reportagem

Túmulo de Ferraz Bomboco preocupa populares

Silvino Fortunato| Kolua, Kitexi

Nos seus arredores, várias árvores frondosas se vergam como que a renderem vénia ao lutador pela independência, que encontrou a morte por doença, mal a caminhada para a independência tinha começado.

Fotografia: Silvino Fortunato | Edições Novembro

A equipa do Jornal de Angola percorreu cerca de dois quilómetros de uma picada sinuosa que atravessa uma fazenda agrícola, no fim da qual deixou a viatura e se obrigou a andar a pé até avistar um campo limpo, de mais ou menos vinte metros quadrados, encontrando-se no centro o sepulcro do nacionalista.
“Nós mesmos todos os anos limpamos a campa do nosso comandante. Assim que a chapa está a ficar velha já estamos a nos preparar para comprar outras”, disse um morador da aldeia de Kólua, que acompanhou os repórteres do Jornal de Angola.
As autoridades provinciais do Uíge, através da administração municipaL de Kitexi, haviam prometido a construção de um memorial para dignificar a memória de Ferraz Bomboco. Passados tantos anos, nada foi feito. Aproveitando-se da presença dos repórteres dos Jornal de Angola, a população da regedoria do Kólua apresentou um manifesto onde clama pelo cumprimento da obrigação voluntariamente assumida pelas entidades provinciais.
Querem que seja construído o memorial onde possam repousar condignamente os restos mortais do nacionalista e um dos primeiros comandantes da luta de libertação nacional, Ferraz Bomboco, falecido a 7 de Abril de 1963, depois de participar nos levantamentos populares do 4 de Fevereiro e do 15 de Março de 1961.
No documento vem expresso o desagrado popular pelo incumprimento do governo provincial do Uíge da sua promessa de erguer o memorial e demais infra-estruturas que possam honrar a memória do herói nacional Ferraz Mayinga Mbombo, que se celebrizou pela sua intensa participação nos primeiros anos da luta de libertação nacional.
A população não entende por que razão as ossadas de Ferraz Bomboco continuam enterradas numa campa artesanal e no meio de um frondoso matagal, em contraste com a sua actividade guerrilheira. “Admira-nos que as autoridades sejam capazes de incumprirem as promessas feitas de pelo menos dignificarem a memória do herói nacional”.
A administradora municipal, confrontada com o “aborrecimento” popular, voltou a anunciar que a sua administração vai erguer um túmulo com características modernas onde vão repousar as ossadas. Segundo a administradora, “vamos alinhar as promessas que fizemos no passado com o actual contexto financeiro do país. Já não vamos asfaltar os 17 quilómetros da via entre a estrada nacional 122 e a aldeia do Kólua, nem construiremos mais o memorial, tal como foi prometido à população do Kólua num passado recente, mas edificaremos um túmulo com características modernas para melhor honrarmos o nosso herói”.
As autoridades provinciais do Uíge projectavam construir uma vila turística na regedoria, transformando a pacata sanzala em uma localidade moderna. Na altura havia a promessa de que em 90 dias seria possível essa transformação. Agora a população está aborrecida e furiosa por esse incumprimento.
“Estamos preocupados com o incumprimento. A crise actual obrigou a que muitos projectos fossem abandonados ou adiados”, sendo, para a administradora, compreensível a revolta da população local.
Garantiu trabalhar com o gabinete da Cultura do Uíge para se encontrarem as novas bases para solucionar a promessa, no actual contexto. “Não mais na dimensão que esperávamos, mas pelo menos levantar a campa. Não podemos continuar a observar que o túmulo continue no meio do matagal e apenas ao cuidado da população”.
Esclareceu ter sido já criada uma comissão que se encarregará de erguer o túmulo em honra do malogrado, embora já não seja na dimensão de um memorial, pelas dificuldades financeiras que a administração está a viver.
O manifesto realça ainda o empenho de Ferraz Bomboco nas actividades guerrilheiras e de reivindicação para a independência nacional, que contrasta com as condições em que os seus restos mortais repousam
A população pede que lhe seja dado um funeral condigno, erguendo-se um túmulo ou um memorial. Entende também não compreender que a maioria dos antigos colegas de armas de Ferraz Bomboco e muito menos os seus descendentes, residentes na aldeia, estejam fora dos benefícios que se atribuem aos outros, nomeadamente os subsídios correspondentes aos antigos combatentes.

Sem desenvolvimento
A aldeia vive mergulhada em várias dificuldades, como a falta de água potável, escola e unidade médica. “A população aventurou-se a canalizar a água a partir de um riacho para o bairro”, informou o ancião João de Castro, antigo subordinado de Ferraz Bomboco, explicando que a população sente-se vencida pelas dificuldades para a conclusão dos 20 metros que faltam para a água chegar à povoação.
“Conseguimos escavar e colocar mais de 200 metros da tubagem comprada com a contribuição da população, mas agora faltam-nos 20 metros de tubagem para concluir a nossa iniciativa”.
Para o ancião João de Castro, a aldeia continua com a mesma estrutura que tinha “quando fomos para a matas lutar contra a colonização portuguesa. Não há desenvolvimento”.
Acentuou que em alguns casos o povo vive pior do que na época em que combatiam a exploração colonial.
Do ponto de vista do brigadeiro reformado Mabonzo, por causa das dificuldades a aldeia agora tem menos gente que a aldeia da época colonial. Muitos fugiram por causa da continuidade e agravamento das insuficiências.
Lembrou que quando começaram a luta de reivindicação pela emancipação nacional, a autoridade colonial já projectava elevar a regedoria de Kólua à categoria de posto administrativo, por causa da sua grande densidade populacional, tal como o fez com a vizinha Kambamba.
Disse ser boa a água consumida na sede da regedoria, porém, é transportada à cabeça a partir de fontes que distam longa distância da sanzala.
A povoação fica a 40 quilómetros da sede comunal da Vila Viçosa. Uma distância que é enfrentada quase sempre a pé, sempre que houver doentes na regedoria. “Não temos como fazer. Ou esperamos por uma carrinha dos negociadores de bombó e de outros produtos agrícolas ou os jovens carregam o doente na tipóia”.

Quem foi Ferraz Bomboco

Nasceu a 7 de Junho de 1932, na aldeia de Israel, próximo de Kólua, a aldeia sede da regedoria. Israel é uma criação dos primeiros missionários, de confissão cristã protestante, que expandiram a envangelização a partir da região de Mufuki, pertencente ao então posto administrativo colonial de Kambamba.
Depois de concluir os estudos primários, Ferraz Bomboco, que assim se apelidou para escapar à perseguição da polícia política portuguesa, rumou para Luanda onde frequentou o nível seguinte na escola de São Paulo (São Domingos).
“Numa das suas idas e vindas, achamos estranho o seu comportamento”, disse o brigadeiro João de Castro.
Ferraz Bomboco deixara de frequentar os convívios com a mocidade do seu tempo e as partidas de futebol que ele tão bem sabia jogar, às tardes, na sanzala.
Privilegiava agora a discrição e a ida às lavras, de onde somente voltava noite adentro. Saía novamente muito cedo, mal se vislumbrava o sol no horizonte. “Depois começamos a ouvir que se tinham passado alguns acontecimentos em Luanda, que havia lá alguma revolta e que muitos jovens que tinham participado nela estavam a ser procurados pela PIDE”.
Foi assim que a população começou a desconfiar do comportamento do mano Mbombo, disse o brigadeiro João de Castro, acrescentando que ele mesmo depois juntava os jovens de então e procurava saber “porque é que aqui as pessoas estavam de braços cruzados”.
Mais tarde, Ferraz Bomboco se juntou a jovens das aldeias de Kambamba, Ambuíla, Nambuangongo, Kibaxi, Mbanza Nkina, Ndanjy ya Kitexi, entre outras, e promoveram o levantamento de Março de 1961.
“Nós aqui começamos no dia 13 de Março, em Ambuíla, no dia 17. Mas o ataque forte foi mesmo o que organizamos e em que enfrentamos os colonos no dia 15 de Março, junto da aldeia Kumbi Kalembe e Kipedro, aqui mesmo no Kitexi”, salientou João de Castro.
A intensa entrega de Ferraz Bomboco à causa da luta para a libertação nacional galvanizou muitos jovens da região, e não só, fazendo com que, mais tarde, o seu nome fosse atribuído a colunas de guerrilheiros.
Com o olhar voltado para as recordações das “esfregas” do passado, com o vigor que já lhe vai faltando, o brigadeiro lamentou: “Estas pessoas que fizeram muito para a libertação do paísnão deviam ser esquecidas assim”.

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