Reportagem

Turistas mostram conhecimentos sobre Angola

César Esteves e Hélder Jeremias

O interesse de turistas estrangeiros que querem conhecer Angola tem estado a aumentar nos últimos anos. Na sexta-feira, por volta das 8 horas da manhã, voltou a atracar, no Porto de Luanda, mais um navio de cruzeiro com 230 cidadãos de nacionalidades diversas, um mês depois de já ter estado cá o cruzeiro SAGA PEARL II, com capacidade para 449 passageiros e 252 tripulantes, que permaneceu durante mais de oito horas no mesmo lugar.

Fotografia: M. Machangongo | Edições Novembro

Agora foi a vez do Silver Cloud, um cruzeiro luxuoso pertencente à linha da empresa privada Silversea Cruises.
Com três andares, o cruzeiro, que geralmente navegava nos itinerários europeus, passou a visitar o país devido ao interesse que os turistas estrangeiros têm demonstrado em conhecer Angola.
De cor azul escura e branca, com uma linha vermelha a separar as duas cores, o cruzeiro mede 157 metros de comprimento. A linha de navios Silver Cloud entrou em serviço em 1994 como os primeiros da Silversea.
O cruzeiro chegou ao país na quarta-feira, tendo passado antes pelos portos do Moçâmedes e Lobito, nos dias três e quatro. De forma descontraída, os turistas, na sua maioria cidadãos já de certa idade, desceram as escadas do navio em direcção aos autocarros que os levaram até à Fortaleza de São Miguel, onde tiveram a oportunidade de vislumbrar a beleza da cidade de Luanda a partir de cima.
Aqui, um casal de 62 anos, de nacionalidade canadense, ficou bastante maravilhado com o que viu. Consideraram Angola um país abençoado e com potencial para crescer cada vez mais, no que diz respeito ao turismo. “Por isso é que decidimos vir”, realçaram, para acrescentar que vão voltar mais vezes.
O casal elogiou o trabalho dos guias que os conduziram, por serem muito eficazes. "São pessoas com um conhecimento vasto sobre Angola, o que acaba por tornar a visita mais atractiva", frisou o homem.
Um outro turista do Canadá disse que, apesar da beleza, a cidade de Luanda ainda carece de muito trabalho para se tornar mais linda. Em relação ao Namibe e Lobito, lugares por onde passou antes de chegar a capital do país, o turista considerou os dois lugares muito pobres. Disse que precisam de mais trabalho. Já Jo Grey, da Austrália, acredita que se o Governo aproveitar bem as receitas do petróleo e não só os cidadãos poderão viver dias melhores.
Após terminar a visita neste lugar, o grupo seguiu para o Mausoléu António Agostinho Neto.
Aqui, na ânsia de interagir com um turista mais jovem, uma vez que só tinha falado com cidadãos na casa dos 60 anos para cima, o Jornal de Angola visualizou uma senhora de nacionalidade chinesa que aparentava ter 28 anos.
Depois de indagada, um silêncio com a duração de aproximadamente um minuto instala-se imediatamente no momento. Enganamo-nos. Ela tem 50 anos. O seu corpo franzino e a beleza escondem a idade que tem.
Disse que o segredo para se manter sempre nova é a prática de Ioga e as frequentes viagens que faz pelo mundo.
A cidadã admitiu não saber muito sobre Angola, por isso decidiu visitá-la para me-lhor conhecer.
Um turista norte-americano, de 60 anos, achou a cidade do Moçâmedes mais pequena e mais organizada. Sobre a cidade do Lobito, disse que não obstante ter uma dinâmica maior, em relação à primeira, parece mais desorganizada.
Quanto à capital, reconheceu haver fortes sinais que mostram que está em desenvolvimento. Sublinhou que um país só se torna próspero quando tem no Governo pessoas honestas.
Formado em contabilidade, disse que um país com um elevado índice de corrupção fica refém dela. "A corrupção é um grande cancro. Por mais que as pessoas trabalhem e sejam activas, não se consegue alcançar o progresso”, realçou.

Turista informado sobre o país

Diferente de muitos turistas que revelaram um desconhecimento total sobre Angola, Chaim Perluk, de 50 anos e de nacionalidade israelita, mostrou estar minimamente informado sobre o que se passa em Angola.
Sabe, por exemplo, que o país assinalou na quinta-feira passada mais um ano de paz efectiva. Falou também da guerra civil que ocorreu em Angola, tendo classificado o acontecimento como “terrível”, que só impediu o progresso do país.
Chaim Perluk deseja que tal situação não volte a acontecer e que daqui para frente o país registe apenas muito progresso.
Revelou que antes de visitar o país tinha lido muitas notícias e artigos que descreviam Angola de uma maneira como ele não encontrou. Ressaltou que de tudo que viu em Luanda mostra que o país está na rota do desenvolvimento.
Questionado se sabe do combate à corrupção que está a ser lrealizado em An-gola, o turista respondeu afirmativamente. Formado em Medicina, Chaim Perluk sublinhou que este combate contra a corrupção é fundamental, pois os seus re-sultados vão se reflectir na melhoria de vida da população. Depois do Mausoléu, os turistas passaram pela Cidade Alta e visitaram a Igreja dos Remédios e o Museu de Antropologia. A visita terminou no Palácio de Ferro. Depois de Angola, os turistas seguem para o Ghana, passando antes por São Tomé e Príncipe, para depois rumarem para o norte da Europa.
A bordo do cruzeiro estão cidadãos da Namíbia, África do Sul, Estados Unidos da América, Canadá, Polónia, Austrália, China, Rússia, Reino Unido, França, Nova Zelândia, Tailândia, Taiwan, Chile, Espanha, Equador, Estónia, Alemanha, Itália, Hong Kong, Suíça e Israel.

Constatar a realidade

Admiração, curiosidade e até cepticismo são expressões que se podem ler no semblante de turistas que descem a escada do navio de cruzeiro “Silver Cloud”, que atracou em Luanda às primeiras horas de sexta-feira. Os visitantes tomam contacto com a realidade da capital angolana, naquilo que configura a nova etapa de um périplo pela costa ocidental do continente berço.

O ambiente é acompanhado ao pormenor pela reportagem do Jornal de Angola, numa manhã em que a Baixa da cidade regista uma serenidade pouco habitual, em virtude do fim-de-semana prolongado, decorrente das comemorações alusivas ao 17º aniversário da Paz efectiva em Angola.
Os lugares reservados às cerca de duas dezenas de mini-autocarros fretados pela empresa de turismo Travel Gel são preenchidos pelos visitantes, ansiosos em viver, por momentos, a realidade da urbe, que conheciam, até então, de livros, revistas e noticiários televisivos.
O trajecto entre o Porto de Luanda e a Fortaleza de São Mi-guel (Museu das Forças Armadas) é o prenúncio de uma estadia agradável, tendo em conta a visão esplêndida projectada pelo novo formato arquitectónico da Baia, assim como a imponência dos vários edifícios que se debruçam baixa adentro.
Os ponteiros do relógio mostram 09h00 em ponto, quando a Fortaleza de São Miguel recebe a primeira metade dos dois grupos de turistas, acompanhados de guias/intérpretes que lhes contam a historia e as várias fases da luta anticolonial e da guerra civil que os angolanos viveram, para alcançar a estabilidade sócio-política. Aliás, o acervo do museu revela estes momentos de forma mais ilustrativa. “Sempre tive uma ideia muito diferente deste país, pois os relatos que tive a oportunidade de ouvir, antes de cá chegar, eram mais relacionados com o facto de Angola ter passado 27 anos de uma guerra civil que dizimou milhões de irmãos desavindos. Por isso, sinto-me bastante admirada, por ver coisas tão lindas, tais como praias, baías, desertos, lagos e edifícios modernos", exclamou uma cidadã de nacionalidade australiana.
Contemplar o panorama paisagístico pelo país adentro é o desejo de uma outra visitante, cidadã sul-africana, que realiza a sua segunda passagem por Angola. No ano transacto, ela passou pela província do Namibe, num cruzeiro que não chegou a atracar em Luanda.
"Sei que as maiores belezas do vosso país estão concentradas no interior, tal como sucede na África do Sul. Posso dar-me por satisfeita, por ter a oportunidade ter visitado o Namibe; ter estado ontem (quinta-feira, 4 de Abril) no Lobito e hoje (sexta-feira, 6) conhecer Luanda. Tenho a convicção de que não faltará oportunidade para conhecer outros destinos desse rico e belo país", disse, optimista.
O Mausoléu Doutor António Agostinho Neto é o segundo destino do "menu", numa altura em que a temperatura ambiental começava a subir e os turistas a consumir mais água. Contudo, as imagens à volta da gesta protagonizada pelo Herói Nacional prende a atenção dos estudiosos. É um intercâmbio de perguntas e respostas, que, desde logo, denuncia a familiaridade com a dimensão política do Fundador da Nação.
"Agostinho Neto foi o primeiro presidente de Angola, cujo percurso passa pela luta anti-colonial, junto de outros nomes de referência na história do continente africano. Foi um homem de letras que deixou uma obra de grande valor político e humanístico. Tenho o imenso prazer de hoje estar no mausoléu em sua homenagem e julgo que os angolanos devem sentir-se muito orgulhosos", salientou um turista de nacionalidade israelita.
Já algo esgotado pela intensidade com que palmilharam os compartimentos da Fortaleza São Miguel e o Mausoléu Doutor António Agostinho Neto, o grupo faz uma curta paragem no Museu de Antropologia, antes de passar pela Igrejas dos Remédios e pelo Palácio de Ferro, localizados na Rua Rainha Ginga e Rua Direita de Luanda, respectivamente.
Satisfeitos com a primeira parte do roteiro, os turistas, de idades compreendidas entre os 34 e 80, regressam aos seus aposentos no imponentes navio “Silver Sea”, para almoçar, descansar e retemperar energias. À espera havia entretenimento, uma sessão teatral do Esquadrão Kamy, entre às 19h30 e às 21h30. A peça narra o papel das heroínas nacionais na Luta de Libertação.
O cruzeiro deixou Luanda no mesmo dia, por volta das 17h00, com destino a São Tomé e Príncipe e Ghana. Os visitantes não embarcaram sem comprar peças de artesanato e outras lembranças no mercado do Benfica.

O país está a nascer para o turismo

Dinis Martins, director comercial da Travel Gest, empresa de turismo responsável por receber e guiar os turistas que chegam ao país, quer de barco, quer de avião, disse que Angola está a nascer para o turismo. O responsável revelou que de Outubro de 2012 até a presente data o país recebeu 38 navios, incluindo este último.
O responsável acrescentou que o país regista uma média de cinco a seis navios por época, que atracam em Luanda e no Lobito. A época, segundo esclareceu, começa em Outubro de um ano e termina em Abril do outro. Dinis Martis recordou que o país já chegou a registar, na época de 2006 a 2007, nove navios. O porto do Namibe, prosseguiu, é o que menos cruzeiros recebe por época. Só regista um, por sinal o Silver Cloud, que visita o país há quatro anos.
O director comercial da Travel Gest explicou que a primeira vez que a companhia chegou a Angola trouxe um navio mais pequeno, denominado Silver Explor, com capacidade para 130 passageiros. Contou que dessa vez decidiu usar um navio com mais lugares, porque o interesse dos turistas estrangeiros em querer conhecer Angola aumentou.
Dinis Martins deu a conhecer que o cruzeiro Silver Cloud vem a Angola todos os anos, desde há quatro anos para cá, e é o único navio que faz três portos em Angola, nomeadamente Namibe, Lobito e Luanda. O responsável disse que o Silver Cloud é um navio, de certa forma, selectivo. "Traz pessoas ligadas à investigação científica e outros", frisou.
Dinis Martis ressaltou que o interesse dos turistas por Angola resultou de um trabalho de promoção e marketing sobre os principais pontos turísticos do país, por eles feito, junto dos agentes de navegação. "Apresentamos programas de interesse turístico aqui de Angola em fotografias e vídeos. Eles gostaram e, em função disso, adicionaram o nosso país na rota deles, de modo que os turistas passem a conhecer Angola", realçou.
Revelou que os turistas que visitam o país são detentores de fortunas e estão sempre a viajar pelo mundo. Devido ao interesse que eles têm demonstrado por Angola, continuou, os navios que passam pelo nosso país estão a ser muito solicitados, razão pela qual chegam sempre quase com lotação esgotada.
Além de turistas que chegam por via marítima, o responsável avançou haver outros tantos que chegam ao país por via aérea. Como prova disso, prosseguiu, chegou ontem ao país um avião com 26 turistas sul-africanos que vêm visitar monumentos e locais turísticos, sobretudo os históricos. “Eles vêm fazer um levantamento científico desses locais”, acentuou. Do ponto de vista económico, Dinis Martins disse que o país pode ainda não sentir o reflexo dessas visitas, mas num futuro próximo os resultados já serão visíveis.
Dinis Martins realçou serem necessários, para que os turistas se sintam mais bem acolhidos no país, autocarros e táxis regulares a circular, bem como outros tipos de meios de transportes fundamentais para o turismo.
Acrescentou ser ainda importante que a cidade ofereça outros atractivos aos turistas, para que gastem mais do que o previsto, algo bom para a economia do país. Dinis Martins defende, para que mais navios cruzeiros cheguem a Angola, a criação de melhores condições de atracagem nos portos de Luanda, Lobito e Namibe. “É necessário investir mais no sector”, acentuou. 

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