Reportagem

Um Presidente angolano volta a Lisboa, quase dez anos depois

O Presidente da República, João Lourenço, inicia quinta-feira a sua primeira visita de Estado a Portugal, nove anos depois da última deslocação oficial de um Chefe de Estado angolano, com José Eduardo dos Santos, em 2009.

Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço
Fotografia: DR

A visita, de três dias, a convite do Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, surge depois de João Lourenço ter realizado deslocações oficiais, no seu primeiro ano em funções, a França e à Bélgica, além da África do Sul e China.
Além do Chefe de Estado e da Primeira-Dama, Ana Dias Lourenço, a delegação  angolana integra vários ministros, com a perspectiva de assinatura de acordos bilaterais.
Em Lisboa, o programa oficial da visita prevê o en-contro de João Lourenço com o homólogo português, Marcelo Rebelo de Sousa, e o discurso na Assembleia da República, em sessão solene do plenário, ainda no dia 22 de Novembro.
Ainda na capital portuguesa, o Presidente João Lourenço recebe as chaves da cidade, em cerimónia preparada pela autarquia e tem prevista uma passagem pelo Mosteiro dos Jerónimos, além de contactos com a comunidade angolana.
Na cidade do Porto, João Lourenço vai participar no seminário económico Portugal-Angola, que juntará homens de negócios dos dois países. Em Fevereiro de 2009, José Eduardo dos Santos foi recebido em Portugal pelo então Chefe de Estado Cavaco Silva, que um ano depois, em Julho de 2010, retribuiu a deslocação e viajou para Luanda.
Os dois Chefes de Estado acordaram então as bases de uma parceria estratégica que nunca saiu do papel, em grande medida devido ao desconforto de Angola com as investigações da Justiça, em Portugal, a elementos da elite angolana, próximos de José Eduardo dos Santos.
Em 2017, a crispação subiu de tom, ao avançar a acusação em Portugal contra Manuel Vicente, à data vice-Presidente da República de Angola, por suspeitas de corrupção sobre um magistrado português, quando era presidente da petrolífera Sonangol.
Em Setembro de 2017, José Eduardo dos Santos deixou o cargo de Presidente da República, que ocupou durante 38 anos, e logo no discurso de posse, ao qual assistiu o Presidente português.
O desanuviamento das relações entre os dois países, e do episódio que ficou co-nhecido como o “irritante”, só chegou ao fim em Maio deste ano, com o Tribunal da Relação de Lisboa a enviar o processo de Manuel Vicente, que agora é deputado, para as autoridades judiciárias angolanas, como era pretensão do próprio Chefe de Estado.
Em Janeiro deste ano, João Lourenço foi mais claro e afirmou que as relações entre Portugal e Angola iriam “de-pender muito” da resolução do processo de Manuel Vi-cente, classificando a atitu-de da Justiça portuguesa – que inicialmente recusou a transferência do processo para Luanda - como “uma ofensa” para Angola.
Ultrapassado o “irritante”, João Lourenço recebeu em Setembro, em Luanda, o Primeiro-Ministro português, encorajando António Costa a manter “uma linha de diálogo permanente” com Angola.
Apesar do interesse na atracção das empresas portuguesas, João Lourenço lembrou que para ter em conta os objectivo de reforço de cooperação, é necessário que “prevaleçam sempre o bom senso, pragmatismo e sentido de Estado”, para “vencer” as “visões pessimistas” que por vezes surgem.
“Encorajo, pois, a mantermos uma linha de diálogo permanente entre nós”, recomendou o chefe de Estado angolano.

Relações estratégicas

O director do programa sobre África do Instituto Real de Relações Internacionais britânico (Chatham House), Alex Vines, considerou, em entrevista à Lusa, que as relações entre Portugal e Angola são “estratégicas por razões políticas e económicas”. “A realidade é que as relações entre Portugal e Angola são estratégicas por razões políticas e económicas e a disputa sobre o caso judicial de Manuel Vicente foi uma distracção que acabaria por ser resolvida, já que era do interesse estratégico de ambos os países que se encontrasse uma fórmula aceitável”, disse o investigador.
Questionado pela Lusa sobre o significado da visita oficial do Chefe de Estado angolano, João Lourenço, a Portugal, Alex Vines disse que “a viagem do Primeiro-Ministro de Portugal a Angola [em Setembro] foi mais um passo para a normalização das relações bilaterais e a visita de João Lourenço a Portugal vai cimentar esse processo”.
Para Alex Vines, Angola tem actualmente “uma economia frágil, que sofre de alto endividamento e inflação”, com o Produto Interno Bruto (PIB) a cair 0,1% este ano, mantendo-se em recessão, e está “à mercê da produção petrolífera”.
“A economia dominada pelo petróleo está à mercê da produção petrolífera, que atingiu o pico nos últimos anos e desde então caiu fortemente”, disse o analista, acrescentando que com a produção a dever cair 36% até 2023, “João Lourenço precisa de abrandar este declínio e garantir às companhias petrolíferas internacionais que existe um futuro lucrativo em Angola”. Neste aspecto, Vines salientou que o Presidente João Lourenço “prometeu introduzir reformas na indústria petrolífera e novos incentivos, incluindo a criação de uma nova agência até 2020 para substituir a Sonangol como o principal regulador de novas concessões” e admitiu que “no papel houve muitas reformas neste sector”, mas sublinhou que “as acções têm sido surpreendentemente lentas sob a liderança do sucessor de Isabel dos Santos, Carlos Saturnino”.

Falta de condições nos alojamentos preocupa doentes

Cerca de 200 doentes angolanos estão em Portugal para receber tratamento médico que não está disponível em Angola, mas queixam-se da falta de condições nas pensões em que estão alojados, a cargo do Estado angolano.
Em declarações à agência Lusa, em Lisboa, Gabriel Tchimuco, presidente da Associação de Apoio aos Doentes Angolanos em Portugal (ADAP), explicou que as pensões que acolhem estes doentes “nunca foram restauradas, recuperadas e apetrechadas”, preocupações que gostariam de fazer chegar ao Chefe de Estado angolano, João Lourenço, durante a visita oficial a Portugal.
“As camas de há 15 anos, continuam a ser as camas de hoje, os colchões de há 15 anos, continuam a ser os colchões de hoje. A alimentação dos doentes é paupérrima”, lamentou.
Para Gabriel Tchimuco, o sector de Saúde é o “principal culpado” do estado actual: “O que se está a passar, é que o sector de Saúde não paga ao proprietário das pensões, há quase três anos”.
“Não se fazem omeletas sem ovos”, salientou Tchimuco, referindo-se ao facto de o sector de Saúde da Embaixada de Angola não pagar aos proprietários das pensões, que, por sua vez, não conseguem garantir “uma boa alimentação aos doentes”. “Estamos a falar de um almoço pobre e de um jantar que se reduz a uma simples sopa”, acrescentou.
O presidente de direcção da Junta Nacional de Saúde, Augusto Lourenço, admitiu em Julho último, em Luanda, que o Estado angolano deve mais de cinco milhões de euros ao sector de Saúde de Portugal, de despesas com pacientes abrangidos pela Junta Médica.

  “Ti Celito” à RNA

O Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, só há pouco tempo soube que, em Angola, é tratado por “Ti Celito”, mas ficou sensibilizado quando o homólogo João Lourenço lhe contou a “expressão carinhosa” dos angolanos para lhe manifestar afecto. “Noutro dia o Senhor Presidente João Lourenço disse-me baixinho (estáva-mos na Cimeira do Sal): sabe como é que é chamado cá? Não, não sei! Ti Celito! Ai é? É! Quando lá foi, criou-se uma expressão carinhosa, no senti-do de as pessoas gostarem de si...”, contou o Chefe de Estado português, numa entrevista à Rádio Nacional de Angola, ontem difundida.
Conhecido em Portugal como “o Presidente dos afectos”, Marcelo Rebelo Sousa ficou “sensibilizado” com a forma carinhosa como os angolanos olham para si, desde que em Setembro de 2017 se deslocou a Luanda para a cerimónia de tomada de posse do homólogo João Lourenço.
“Eu fiquei muito sensibilizado. Não sabia. Uma coisa é certa: é que eu tenho família em Angola, primos já afastados. Há uma ligação muito antiga através de muitos alunos an-golanos que sempre tive. Das várias vezes que estive em Angola, nomeadamente para ensinar, guardei as melhores das recordações, ensinei alunos, estive em júris de provas muito variadas, tive contactos populares muito diversificados”, lembrou.
Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou ainda para recordar o afecto sentido na visita que fez a Luanda por ocasião da posse de João Lourenço.

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