Reportagem

Uma cidade carente de serviços

Roque Silva

Agnelo e Mádia regressaram ao Bairro Neves Bendinha, de onde saíram para tentar uma vida nova na cidade do Sequele, uma das novas urbanizações surgidas na província de Luanda nos últimos seis anos.

Fotografia: Vigas da Purificação | Edições Novembro

Depois de terem vivido dez meses no Sequele, Agnelo e Mádia decidiram voltar a pagar renda do que viver em casa própria, adquirida por via do sistema de renda resolúvel.
Agnelo Pedreira diz que a decisão de regressar ao antigo bairro em que sempre viveu foi consensual, porque, no Sequele, as despesas mensais eram superiores ao rendimento do casal.
Contribuiu também para a decisão o cansaço físico por Agnelo Pedreira fazer de carro um percurso de mais de 40 quilómetros de casa à cidade, onde ele e a esposa trabalham.
De 32 anos, Agnelo Pedreira, agente da Polícia Nacional, explica que, enquanto viveu no Sequele, chegava a gastar mais de 250 mil kwanzas com a compra de bens alimentares e o pagamento da creche do filho, salário da empregada, taxa de condómino, consumo de água e luz e combustível para a única viatura do casal, além de outras necessidades pontuais.
No Neves Bendinha, as despesas mensais do casal rondam os 120 mil kwanzas, montante que inclui o pagamento mensal ao Estado pelo apartamento que o casal adquiriu na cidade do Sequele através do sistema de renda resolúvel.
Mádia Pedreira confirma que o facto de o esposo se sentir cansado constantemente e por acordarem cedo para não ficarem nos engarrafamentos pesou na decisão.
A esposa do agente da Polícia refere ter sido difícil a to-mada da decisão de regresso ao Neves Bendinha porque os filhos já estavam a acostumar-se ao ambiente da cidade do Sequele, onde há “alguma qualidade de vida”.
“Era complicado viver no Sequele, já que eu e o meu esposo regressávamos a casa à noite e encontrávamos qua-se sempre as crianças a dormir”, explica.
A cidade do Sequele, que no dia 12 de Agosto completou cinco anos de existência, é, como qualquer outra urbanização da província de Luanda, um local onde há inúmeras queixas de moradores. Porém, também é merecedora de elogios. O morador Carlos Martins considera, por exemplo, o fornecimento de energia eléctrica o melhor serviço público na cidade do Sequele.
“Tem qualidade, quase não oscila e se for cortada há sempre um prévio aviso”, reconhece Carlos Martins, que conclui: “Temos os nossos electrodomésticos bem protegidos.”

Qualidade da água
A qualidade da água potável e o seu fornecimento in-termitente, às vezes, têm preocupado os moradores, que dizem ser absurdo o valor cobrado pelo consu-mo do líquido de “péssima qualidade”.
Aldair Pedro diz que a água que jorra das torneiras varia de cor, sendo turva sempre que há interrupção de pelo menos 24 horas no fornecimento.
O morador da cidade do Sequele acrescenta que não entende a razão por que paga mais de quatro mil kwanzas por mês quando o fornecimento não tem sido regular e o método de facturação ser por estimativa.
“Muitos moradores fervem a água antes de a beber ou utilizar para o banho, um procedimento resultante do surgimento de casos de alergia”, revela.Aldair Pedro defende, por outro lado, que deve haver maior participação dos moradores em questões como o saneamento do meio, com a realização de campanhas de limpeza e retirada de capim.

  Insegurança na centralidade ganha contornos alarmantes

A deficiente iluminação pública e o patrulhamento inconstante são aproveitados pelos “amigos do alheio” para assaltarem apartamentos e roubarem acessórios de viaturas, sobretudo placas electrónicas.

“Vivemos inseguros porque há roubos quase todos os dias em apartamentos e em viaturas”, lamenta Fernando Faisal, que diz ter a situação ganhado contornos alarmantes por haver roubos à luz do dia e “consumidores de droga terem perdido o medo”.
“Até à luz do dia consomem droga”, lamenta Fernando Faisal, que considera preocupante porque dá a sensação de que a droga é adquirida facilmente e em qualquer local da cidade do Sequele.

Transportes públicos
A precariedade do serviço de transportes públicos irrita os moradores e forasteiros que se deslocam à cidade do Sequele.
Quem não quiser recorrer a viaturas ligeiras que fazem serviço de táxi tem de suportar longas filas, empurrões e desconforto, para entrar em autocarros de empresas de transportes colectivos urbanos.
Os carros de serviço de táxi, com as cores azul e branco, a maioria dos quais de marca Toyota Hiace, não entram no Sequele, medida tomada pela Administração do Distrito Urbano do Sequele, que não quer desorganização e embaraços à circulação rodoviária na cidade.

Escolas públicas
A cidade do Sequele dispõe de quatro escolas públicas, três das quais com gestão privada, na base de um contrato que as transformou em escolas comparticipadas.
O sector da Educação no Sequele foi recentemente alvo de abordagem na comunicação social por terem sido registados em três escolas casos de desmaios, cujas vítimas são maioritariamente do sexo feminino.
Um outro assunto que tem merecido acesos debates é o facto de haver cobrança de propinas nas escolas Ernesto Rafael, na 4.078, do I ciclo, e na 4.073, do II ciclo, por estarem sob gestão de uma comissão liderada pelo padre Apolónio Graciano.
As direcções das escolas alegam que a comparticipação dos pais é destinada ao pagamento do serviço de limpeza. Os alunos da 10 ª à 13 ª classes pagam dois mil kwanzas, os da 7ª à 9ª classes 1.500 e os da iniciação à 6ª classe mil kwanzas.
“Não há qualquer imperativo legal que obrigue ao pagamento dessas comparticipações, mas somos obrigados a pagar para evitar que um dia as notas dos nossos filhos não sejam lançadas”, diz Gabriel Simão, que menciona uma situação desconfortante vivida pelo filho por ter havido atraso no pagamento da comparticipação.
Nora Fabrício explica que perdeu o emprego e está sem condições financeiras para pagar os meses que deve à escola onde estudam três filhos. “Não tenho onde tirar agora 30 mil kwanzas, porque a empresa para a qual trabalhava rescindiu o contrato comigo”, explica Nora Fabrício, que diz estar a viver com “ o pouco dinheiro” que conseguiu poupar.

Falta de entretenimento
Na cidade do Sequele, é facilmente visível a falta de espaços de entretenimento e programas atractivos, sobretudo para crianças e adolescentes.
Petra Cajima, uma adolescente, conta que os únicos atractivos condizentes com a sua idade são a exibição, aos sábados, de peças de teatro e um concerto musical realizado uma vez por mês, no Espaço Aplausos.
“O que mais há na cidade do Sequele é ambiente em bares que ficam abertos até à noite”, lamenta Petra Cajima, de 16 anos.
A cidade do Sequele oferece poucas opções de lazer e cultura, acentua Petra Cajima, que diz estar a juventude com poucos atractivos nos tempos livres.“Ficamos carentes no período de férias. Daí haver muitos jovens a consumir bebidas alcoólicas”, lamenta a adolescente.

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