Reportagem

Uma curta passagem por Cuito Cuanavale

César Esteves

A data (23 de Março) marca o fim da batalha do Cuíto Cuanavale, ocorrida entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988, opondo os exércitos das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), apoiadas pelos cubanos, e das Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA), então braço armado da UNITA, que contava com o apoio da África do Sul.

Fotografia: Mota Ambrósio| Edições Novembro

De acordo com a literatura histórica nacional e internacional, essa foi a maior batalha militar já alguma vez vista no continente africano, ao Sul do Sahara. Reza a história que o fim dessa batalha, que completou 32 anos de existência este ano, marcou o ponto de viragem decisivo na guerra em Angola e deu lugar ao acordo entre sul-africanos e cubanos, para a retirada das suas tropas e a consequente assinatura dos Acordos de Nova Iorque.

Este acto, segundo ainda dados históricos, deu lugar a uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que permitiu a independência da Namíbia, o fim do regime racista do apartheid e a libertação de Nelson Mandela, na África do Sul, além de trazer a paz e a estabilidade política e económica em toda a região Austral.
Em função disso, decidiu-se, então, que 23 de Março passasse a ser celebrado como o dia da libertação da África Austral.
Desde o ano passado, o país passou a parar neste dia, realizando uma actividade para homenagear os combatentes perecidos na batalha que permitiu a libertação da região, no Cuito Cuanavale, onde foi erguido um majestoso memorial em homenagem aos guerrilheiros que se bateram para a concretização do feito.
No ano passado, neste mesmo lugar, realizou-se uma actividade política de massa que visou saudar o primeiro aniversário da instituição da data. Encabeçada pelos Chefes de Estados de Angola, João Lourenço, e da Namíbia, Hage Geingob, o evento contou ainda com a presença dos Presidentes de outros países da região, nomeadamente Emmerson Mnangagwa, do Zimbabué, Félix Tshisekedi, da RDC, e Denis Sassou-Nguesso, do Congo Brazzaville.
Este ano, devido às recomendações de prevenção à pandemia da Covid-19, que desaconselha, entre outras, a concentração de muita gente num só lugar, foi realizada apenas uma cerimónia simbólica de deposição de uma coroa de flores no Memorial à Vitória da Batalha do Cuito Cunavale, tendo congregado um número muito reduzido de pessoas.
O acto foi presidido pelo ministro da Defesa Nacional, Salviano de Jesus Sequeira, acompanhado pelo ministro dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, João Ernesto dos Santos "Liberdade", do governador da província do Cuando Cubango, Júlio Bessa, do Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas Angola (FAA), António Egídio de Sousa, e dos comandantes dos três ramos das FAA.

O memorial

O Memorial à Vitória da Batalha do Cuito Cuanavale, erguido para eternizar a grandeza e o sacrifício dos angolanos que deram as suas vidas para livrar o país daquele ataque, é uma imponente estrutura erguida numa área de 3, 5 hectares. Situada no município do Cuito Cuanavale, a 189 quilómetros da cidade de Menongue, o monumento agrupa um conjunto de peças que simbolizam a Batalha do Cuito Cuanavale, tais como o “monumento dos soldados”, o “monumento da bandeira nacional”, um “grupo escultórico” e “uma parede dos heróis”.
O “monumento dos soldados”, por sinal a peça que mais chama atenção no memorial, é uma escultura em bronze de dois soldados em pé, segurando uma arma em cada mão, enquanto com outros braços, cruzados, em direcção ao ar, empunham o mapa de Angola. Essa peça mede 21,5 metros de altura e pesa 110 toneladas.
O monumento da bandeira é, na verdade, um edifício com 55 metros de altura e 1000 metros quadrado de área útil, revestido de pedras graníticas e elementos em bronze. O edifício, na verdade, é uma arma envolvida pela bandeira nacional, possuindo um miradouro no seu ponto de mira, com acesso principal feito de elevador. A partir daqui, é possível contemplar o Triângulo do Tumpo.
O “grupo escultórico” é um conjunto de soldados ladeados de peças de armamento militar, feitos em bronze, com 55 metros de comprimento. Este representa três momentos sequenciais da Batalha do Cuito Cuanavale: concentração das unidades, batalha defensiva e caminhada rumo à vitória.
A “parede dos heróis”, com 75 metros de extensão e numa parede majestosa, representa, em solidez, a homenagem e respeito pela determinação dos heróis da batalha. As esculturas em bronze simbolizam quatro momentos principais: homenagem aos heróis da batalha, educação patriótica, guerra, destruição e sofrimento do povo angolano e, por último, firmeza e determinação do povo angolano na vitória.
A escassos metros do Aeroporto “23 de Março-Cuito Cuanavale”, que permite um acesso fácil ao local, o monumento empresta uma imagem mais apelativa àquele lugar. O grande erro reside no facto de estar numa zona ainda órfã de estruturas sociais de apoio, que possam ajudar a atrair visitantes para lá. O monumento está praticamente isolado naquela zona, apenas com capim à sua volta.

Obra ainda não terminada

Em declarações à imprensa, o governador da província, Júlio Bessa, disse que o projecto ainda não está concluído, estando em falta, entre outras infra-estruturas importantes, um hotel de três estrelas. A ideia, ressaltou, é transformar o local num património mundial, mas, para tal, admitiu, é necessário ainda a criação de um plano director de desenvolvimento da municipalidade e a introdução de algumas infra-estruturas comerciais. “Porque quem vem fazer turismo, precisa de algum apoio, um conforto”, salientou.
Questionado se o município já começou a angariar alguma receita com visitas ao monumento, o governador da província não precisou, mas disse que o local tem recebido muitas visitas provenientes da África do Sul.
Júlio Bessa atestou que, com a reparação da Estrada 140, que liga Caiundo-Catuitui, vai facilitar a vinda de mais turistas ao local.
O governador disse que o desenvolvimento de infra-estruturas turísticas na zona vai impulsionar o turismo nacional porque há já muito interesse de cidadãos nacionais em conhecer o local.
“Gostaríamos que as escolas e as universidades se deslocassem ao local, para desenvolverem trabalhos de investigação”, convidou.
Acrescentou que o objectivos passa, também, por dar maior dignidade ao Cuito. Garantiu que as autoridades competentes, em colaboração com o governo provincial, já estão a trabalhar no sentido de se alcançar esse objectivo.
Júlio Bessa garantiu estar em curso a preparação do plano de desenvolvimento da província, que contempla, também, o plano de desenvolvimento para o Cuito Cuanavale “porque isso ainda está muito pouco explorado”, acentuou.

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