Reportagem

Uma engraxadora ousada

São três mulheres da mesma família: mãe e filhas. Estão na rua para engraxar sapatos. Angelina Maria, jovem de 21 anos, garante que superou críticas, murmúrios e insultos que ouvia, quando decidiu sentar-se debaixo da pedonal da Belavista, em Viana, para engraxar sapatos.

Angelina Maria aprendeu a engraxar com a mãe, que, por sua vez, aprendeu o ofício na igreja.
Fotografia: Edições Novembro

Apesar de ser gozada muitas vezes, não desistiu. Pegou numa caixa, dois bancos, escova, pomadas, água e pôs-se a engraxar os sapatos de quem confiasse na graxa dada por uma mulher.
Angelina Maria aprendeu a engraxar com a mãe, que, por sua vez, aprendeu o ofício na igreja. No dia da reportagem, a mãe estava ausente. A irmã já não engraxa, porque encontrou outro emprego.
Há sete meses que Angelina Maria engraxa sapatos debaixo daquela pedonal. Como estava sem emprego, resolveu aprender o ofício e ajudar nas despesas de casa. A jovem lembrou que, no primeiro dia, apenas um cliente sentou-se no seu banco. Mas porque queria testá-la. Estava atrapalhada, falhava em quase tudo, tanto que o senhor acabou por lhe dar mais dicas.
“Eu estava nervosa e fazia tudo mal. O senhor olhou para mim e pediu-me para ficar calma e que ele havia de ensinar-me como se fazia. No final deu tudo certo e até hoje é meu cliente, além de outros cinco fixos que tenho”, contou.
Angelina comprou a caixa de engraxadora a 1000 Kwanzas, os assentos a 500 e a pomada a 300. Usa três escovas para cada cor de sapatos, que, geralmente, são pretos, castanhos e brancos. Também utiliza água e detergente para lavagem de certo tipo de calçado, como ténis, sapatilhas...
A engraxadora começa a trabalhar por volta das 9h até às 17 horas. Factura 1000 ou 1.500 Kwanzas por dia. Por cada graxa, cobra 150 Kwanzas. Quando chega à ponte, garante, primeiro a limpeza do espaço, estende uma lona no chão, instala a caixa, os assentos e arruma as escovas. Fica tudo organizado. Quando o cliente se senta, o primeiro passo que dá é tirar a poeira dos sapatos com uma escova, depois passar a anelina, que é um líquido preto, e a seguir a pomada correspondente. Usa luvas para não sujar as unhas. Antes, sem elas, Angelina ficava com as mãos queimadas.
"É fácil. Eu só preciso da caixa, das escovas e pomadas para fazer um bom trabalho. Primeiro, tiro a poeira dos sapatos e depois uso uma das pomadas. Se for um preto, ponho anelina", disse, apontando que muitas vezes já foi chamada de "maluca" por estar a engraxar sapatos na rua. Não sente vergonha, porque encara o ofício como um trabalho digno, por via do qual ganha dinheiro honestamente. Angelina Maria está sem estudar, vive com a mãe no bairro Papa Simão, em Viana. Com este trabalho considera-se uma mulher batalhadora.
O nosso carro de reportagem levou quase uma hora a girar as pedonais da Deolinda Rodrigues, à procura da mulher que engraxa sapatos em Viana. Depois de perguntar a muitas pessoas que admiravam e duvidavam da existência de uma mulher no ramo, fizemos o retorno, no sentido de Luanda, e lá estava ela. Eram quase 11 horas de uma manhã de terça-feira do mês de Fevereiro. Estava na pedonal aérea da Bela-Vista, a escovar os sapatos de um rapaz.
“Aí está ela”, disse o Cunha, o nosso motorista. Atenta ao trabalho, Angelina Maria nem deu conta do primeiro flash saído da máquina da nossa fotógrafa, Maria Augusta.

Maquinista resiste aos"solavancos" da linha

Laurinda Praia é outra mulher de "punho forte". Apesar dos inúmeros acidentes que teve no comando de comboios, ela soma e segue. Trabalha há 12 anos como maquinista dos Caminhos -de-Ferro de Luanda. Num choque com um camião, ela foi atirada de um lado para outro dentro da locomotiva. Ela não usa cinto de segurança. Caiu mal e acordou no hospital, com uma perna partida. Ficou sete meses em casa, com a perna numa tala. Infelizmente, como acontece com outros maquinistas dos CFL, a sua consciência pesa por mortes (três) ocorridas por acidentes na linha férrea. ­­­­
Por dia, a maquinista conduz quatros comboios, ida e volta, da Estação do Bungo até Catete. Um dia foi surpreendida com pedras no vidro, uma acção de populares, revoltados por causa das mortes na linha férrea. Entre as sete maquinistas com quem iniciou na profissão, é a única que resistiu aos solavancos e continua a tripular as máquinas, apesar de considerar a profissão de "muitos riscos". Ela também faz viagens longas, até Malange, por exemplo.
Laurinda contou que uma nova maquinista teve um acidente terrível e agora não pretende voltar a conduzir comboios. Há dois anos, ela colidiu contra um camião que carregava tambores de alcatrão. A jovem passou por uma cirurgia, foi-lhe retirado um órgão e a saúde já não é a mesma. Agora trabalha na área administrativa. A locomotiva ficou inoperante.
Por ser mulher e maquinista, a Laurinda já chamaram “matadora”; ouviu ainda várias outras ofensas, insultos por causa da profissão que escolheu. Mas também já recebeu elogios e mensagens de encorajamento.
"Os cidadãos têm sempre em mente que, se o comboio colheu alguém na linha, a culpa é sempre do maquinista. Mas a máquina dificilmente sai da linha férrea para ir ao encontro de alguém", justificou.
Durante as viagens, Laurinda fica na locomotiva com mais dois colegas, o condutor e o revisor. Antes de subir e de buzinar para anunciar a partida, é trabalho dela averiguar os níveis do combustível, óleo, água e areia da máquina.
Passageiros a bordo, máquina ligada, última buzina e a viagem do Bungo até Catete, começou eram 7h30 de uma quinta-feira de Fevereiro. Foram quase 12 horas de viagem, ida e volta, ao lado de Laurinda. Durante o percurso ela não tirava os olhos e o dedo do botão vermelho, o chamado "botão do homem morto", que deve ser pressionado sempre, para alertar que a maquinista está presente. De outra forma, ela sente-se abandonada e o comboio pára.
Outro botão usado repetidamente é o da buzina, quando se aproxima duma estação ou de uma passagem de nível, para alertar os peões que atravessam a linha. Contavam-se os segundos que ela relaxava. Também aumentava e reduzia constantemente a velocidade, consoante as subidas e descidas do comboio na linha.

Como tudo começou

Laurinda Praia fez seis meses de estágio, com prática, no Instituto Nacional dos Caminhos de Ferro de Angola, onde adquiriu a carta de Maquinista. Conta que no primeiro dia em que subiu no comboio para tripular suou bastante, teve medo, ficou atrapalhada, tanto que o instrutor notou o tremor de suas mãos. O maior receio era não conseguir ligar a máquina e guiá-la, contando com tantos obstáculos que se colocavam à frente da linha, o que tornava o trabalho mais difícil.
“O mais difícil foi ter de encarar a máquina. Pensei que não havia de a conseguir tripular. Eram muitas as funções a executar ao mesmo tempo e eu perdia-me", disse.
A maquinista acrescentando que só pegou o jeito depois de dois anos. Hoje, vê como fácil o trabalho, apesar dos acidentes, obstáculos e as dificuldades causadas pelos pões, que insistem em arriscar a vida atravessando a linha férrea, e os automobilistas que não respeitam as passagens de nível.
Dificilmente a sua família apanha o comboio com ela a tripular. Normalmente, chega a casa às 16, depois do trabalho que começa às 6 horas. Vive no Sequele, é casada e tem duas filhas. Quando começou a tripular, estava casada há 9 meses. A reacção do marido foi de espanto, quando soube que ela havia mesmo de dirigir um comboio.
Laurinda Praia considera-se uma guerreira por causa do trabalho, que diz ser muito difícil e pouco valorizado.
"O trabalho de maquinista em si exige muito de nós", concluiu.

Tempo

Multimédia