Reportagem

Uma orquestra sinfónica num bairro de terra batida

Ferreira Fernandes

A Orquestra Sinfónica Kaposoka fica numa rua de terra batida de Luanda, onde debicam galinhas e pintainhos, numa grande vivenda que é um improvável lugar de cultura. Meninos e meninas aprendem a ser homens e mulheres através de Mozart, Beethoven ou Verdi.

Fotografia: Paulo Mulaza

 A estrada da Samba une o casco urbano, da velha Luanda, hoje de arranha-céus, à nova Luanda, Talatona, construída a sul, de condomínios e ministérios. A estrada começa por o que já foi uma colina sobre o mar e é hoje o morro da Samba, um susto apinhado à espera da próxima chuvada que faça despenhar as cubatas mais próximas do desfiladeiro. A estrada segue com a mesma noção de urbanismo: vitalidade desesperada e desorganização. Duas vias com gente a ameaçar pôr o pé na passadeira até que os automobilistas se convençam de que é melhor ceder à ameaça.

Esta rua entre duas cidades - a que foi quatrocentona (agora é só modernaça, pontuada de saudade) e a sem alma - atravessa um movimento como o do antigo Carnaval colonial. Nos anos 1940 e 50, dos musseques vinham corsos mascarados, à moda da Baía ou com máscaras africanas, dançando e batucando em direção à Baixa - a metáfora era evidente, os negros fingiam ocupar a cidade branca.

Quando começou a guerra colonial, em 1961, as autoridades acabaram a brincadeira ameaçadora. Era, então, uma pequena cidade de 400 mil habitantes. Agora, que tem seis ou sete milhões e o movimento sendo o mesmo, talvez a sua causa não seja só social e política mas telúrica: trata-se só do mato querer chegar à praia, que é para onde se debruça a Samba.

Pedro Fançony pôs-se a pergunta clássica: o que fazer? Num bairro tão confuso havia que focar. Música! E tinha de ser clássica, que a angolana não tinha pautas.

Afinal, as pessoas imitam o rio que fez a pátria (o Kwanza nasce quase no exato centro geodésico do país imenso, une as etnias que fizeram UNITA e MPLA e recusa-se a sair das fronteiras, ao contrário dos outros grandes rios angolanos, o Zaire, Zambeze, o Cubango...), as pessoas imitam o rio que fez a capital (o Kwanza desagua a 60 km a sul e aproveita a corrente fria de Benguela, que sobe, para arrastar as terras que vão criar as ilhas, de facto pequenas penínsulas, ilha do Sumbo, do Mussulo e finalmente ilha do Cabo, a da baía onde nasceu Luanda)...

As pessoas dos musseques, do Prenda, do Rocha Pinto, constroem sem nexo, deixam um embondeiro no meio de uma rua, cimentam blocos no telhado de uma vivenda que foi graciosa, escrevem cartazes que estrebucham ("Tira-se fotocópias nesta janela"), movimentos desordenados... E, afinal, todos procuram, tão-só, a brisa mais limpa da cidade, a da Samba.

Este é um movimento allegro con brio de que poderemos sair por onde aponta uma tabuleta: "Orquestra Sinfónica Kaposoka". Uma rua de terra batida, onde debicam galinhas e pintainhos, uma tasca com anúncio da Cuca e, logo, um quintal com grades que protegem uma grande vivenda. Miúdos e adolescentes entram e saem com sacos em forma de violino, onde há, surpresa na confusão do bairro, violinos.

Recebe-nos um senhor magro e alto, de voz que seria monocórdica não fosse pousar-nos o olhar para dizer o muito que quer falar connosco. Há dez anos, nomeado administrador do bairro, Pedro dos Reis Fançony perguntou-se o que tinha de fazer. Nasceu onde os pais estavam emigrados, no Kassai, então Congo Belga, regressaram e ele estudou no seminário do Bié e, na independência, fez-se militar. Reparem na dupla formação, religiosa e militar, e concluam: disciplina. É o fio desta história. Para o agravar ou aperfeiçoar, foi estudar para a Alemanha, onde fez um curso de Direito de Família. A Alemanha de Beethoven - "ah, Beethoven!", diz sem subir um meio-tom.

Disciplina, pois, mais música e Direito de Família (fez mestrado em Coimbra e ensina na Universidade Agostinho Neto) e a declaração de interesses está feita. Então, nomeado administrador do bairro, Pedro Fançony pôs-se a pergunta clássica: o que fazer? Num bairro tão confuso havia que focar. Fançony fez-me parar frente a uma foto pendurada no corredor: "Olhe para o olhar vencido das crianças." Olhei. De facto. Para Fançony fez-se som: tan-tan-tan-taaaam! Música! E tinha de ser música clássica, que a angolana não tinha pautas. No seminário ele só aprendera harmónio, mas a Alemanha - "ah, Beethoven!" - deu-lhe asas. Acresce que um dia viu o filme "daquela senhora com os violinos no telhado..."

Por aquela altura da nomeação e da epifania, calhou ir a Singapura. Num jantar com o embaixador Flávio da Fonseca (irmão do atual embaixador angolano em Lisboa) ouviu os filhos dele tocar, cada um, dois instrumentos. Aproveitou para contar a sua ideia : a salvação (quer dizer, vontade, persistência, eficácia e, sagrada palavra, disciplina) pela música. O embaixador levou-o a uma fábrica de instrumentos. Pedro Fançony foi buscar-me um livro grosso em que organiza o passado: "Não sei se vou encontrar... está aqui!" Estendeu-me um cartão da fábrica, "Syswin Music". Voltou para Luanda com os preçários.

Apesar do atrevimento do nome, Orquestra Sinfónica, apostou quase exclusivamente em cordas, violinos e contrabaixos, e alguma percussão, congas, e desdenhou as madeiras, os metais e as teclas. Arranjou quem, incluindo o governo das vacas gordas, com o petróleo a cem dólares, lhe pagasse a ambição. Mandou vir centenas de violinos de aprendizagem e alguns semiprofissionais.

Contratou três professores filipinos, que apesar de serem de instrumentos de sopro sabiam como segurar o arco. Da última vez que filipinos tinham estado em Luanda, foi logo a seguir à Independência, tinham sido contratados às centenas para a limpeza da cidade - houve desaparecimentos de cães, talvez boato devido à gastronomia filipina, mas eles deram conta do recado.

Quando os seus meninos, "já tocavam, pensávamos nós, bem", estiveram capazes de uma audição pública, arrancaram lágrimas.

Um jovem talento japonês veio dar um curso, fez uma audição aos alunos e foi sincero: "Daqui não tiro nada." Apesar disso, ficou duas semanas e já partiu satisfeito. A desmesura dos violinos é porque Fançony apostou na quantidade para meter o máximo de miúdos do bairro na experiência.

Os mais atilados podem levar o violino para casa, mas a maioria dos instrumentos guardam-se na vivenda. Suzy, que chegou com 13 anos para uma audição de voz e nunca vira um violino, agora, dez anos depois, abre a porta de uma sala que expõe centenas de violinos pendurados.

Pedro Fançony conta que a sua escola, pois é uma, optou pelo método Suzuki, nome de um pedagogo japonês (Shinichi Suzuki, 1898-1998) que via no ensino da música uma porta para o resto a conhecer. Quando os seus meninos, "já tocavam, pensávamos nós, bem", estiveram capazes de uma audição pública, arrancaram lágrimas. "Agora vamos arrancar clamores e lágrimas", decretou Fançony.

Entretanto, parou frente a outra foto do corredor e mostrou-me a embaixadora americana Nina Fite, que tomou posse no ano passado, a ouvir a Orquestra Sinfónica Kaposoka. A diplomata tinha uma lágrima no canto do olho, como diz a canção do Bonga. O aparentemente negro retinto Pedro Reis Fançony, por razões também de história familiar, preferiria que eu citasse Verdi.

No velho cemitério do Alto das Cruzes, em Luanda, há uma lápide, datada de 1875, de Domenico Del Re Fançony, falecido com 81 anos. Há notícia de outro Fançony chegado a Trombeta, perto de Ambaca, em 1821. Era um dos napolitanos degredados para Angola por serem anarquistas. Ambaca foi berço de várias famílias crioulas, intermediárias de duas culturas, a europeia e a africana, que dão pinceladas caribenhas a um país que cultural e politicamente - o MPLA nasceu e cresceu disso - é muito mestiço.

A experiência da Orquestra Kaposoka já expandiu para outro bairro problemático luandense, Zungo, e fez núcleos em mais localidades, Catete e Sumbe. Também já ganhou prémio na Argentina, fez digressões pela Europa (Alemanha, Itália, Espanha e Portugal) e trocou experiências com El Sistema, as célebres escolas de orquestras venezuelanas criadas por José António Abreu, recentemente falecido. Entre tanta música, Fançony destaca-me esta glória: "As digressões têm mais de 50 jovens e gosto de ver, nos hotéis, primeiro a curiosidade, depois a admiração: à mesa, os miúdos têm o guardanapo sobre o joelho e comem banana com faca e garfo."

Depois de me pôr a ouvir uma trecho de Verdi (Va Pensiero) e também do angolano Teta Lando, com violinos e duas congas, Fançony levou-me ao quintal. Meninos e meninas experimentavam os primeiros passear de dedos pelas cordas.

"Meninos digam ao senhor jornalista que é também da nossa terra: obrigado!" E eles: "Obrigado!" Fançony: "Agora é a vez das meninas, digam: obrigado!" E elas: "Obrigada!" Fançony: "Meninas, eu disse para dizerem: obrigado!" As meninas: "Obrigada!" Pedro dos Reis Fançony, pedagogo: "Assim é que é!" Soou-me a música dos deuses.

 

 

 

 

 

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