Reportagem

Vale do Cavaco mostra poderio no abastecimento de hortícolas

Leonel Kassana |

A província de Benguela mantém, há anos seguidos, a hegemonia na produção de hortícolas no país, que são entregues às pequenas e grandes superfícies comerciais de Luanda, sobretudo, e noutras cidades.

 

No Vale do Cavaco agora a preocupação dos produtores de banana é com a qualidade do produto para dar resposta às exigências do mercado interno e externo
Fotografia: Vigas da Purificação | Edições Novembro

Dos vales do Cavaco, Culango, Dombe Grande e outras regiões de Benguela, diariamente chegam dezenas de camiões de tomate, repolho, couves, cebola e outros produtos, como resposta dos agricultores ao desafio lançado pelo Executivo para o aumento da produção, num momento de dificuldades económico-financeiras para o país.
Os dados fornecidos ao Jornal de Angola em Benguela por agricultores de média dimensão, como  Manuel Monteiro, dão uma indicação de que nessa região a aposta em grande escala na produção de bens alimentares está a superar os cenários mais pessimistas. O mercado local está “inundado” de hortícolas e a crise está a servir como um teste à capacidade empreendedora dos agricultores.
Manuel Monteiro, que criou a sua primeira fazenda em 1991 no vale do rio Cavaco, para a produção de tomate e cebola, é um exemplo da criatividade dos agricultores do Cavaco e de outros vales.  A região de Benguela tem condições climáticas ideais para ser considerada a melhor zona do país, e quiçá do mundo, para a produção da banana, disse Manuel Monteiro, para acrescentar: “Desenvolvemos a actividade produtiva durante todo ano.”  A propriedade do agricultor ocupa uma área de 150 hectares onde são produzidas, anualmente, 4.000 toneladas de banana. Uma quantidade bastante significativa, quando se sabe que os números para toda a província apontam para a 15 mil toneladas por ano, para o que concorrem seis grandes produtores da banana  nos vales do Cavaco, Catumbela e Dombe Grande, estas ocupando, na verdade, a maior superfície das terras agrícolas. A estes juntam-se outros 200 pequenos e médios produtores de banana nos vales do Culango e Canjala. Mas as metas para Benguela são muito mais ambiciosas. Nos próximos três anos, a província pretende atingir pelo menos 24 mil toneladas anuais. Especialistas dizem que com 50 mil toneladas estão satisfeitas as necessidades do país e garantidas as exportações para os mercados mais exigentes do mundo.
Ao passar pelo Cavaco, nota-se, claramente, que tudo o que de melhor existe para manter ou aumentar os níveis de produção da banana é levado ao detalhe. Assim, dos 150 hectares disponíveis na fazenda de Manuel Monteiro, apenas 50 hectares são destinados à produção banana por um período de cinco anos e outros a hortícolas, como tomate, beringela e cebola.
O empresário explica: “Produzimos a banana em 50 hectares e fazemos a sua gestão durante cinco anos até tornarem-se poucos rentáveis. Noutros hectares plantamos hortícolas e assim temos sempre espaço s para novas plantações, garantindo a nossa continuidade no mercado.”

Aposta na qualidade

A qualidade da banana produzida em Benguela, diz o empresário, não tem qualquer comparação com a de outras regiões do país, como o Bengo, que, entretanto, já tem vindo a exportar para a República Democrática do Congo e Portugal.
Explica que a aposta na utilização de plantas adquiridas no exterior e trabalhadas em laboratório dão um valor acrescentado ao produto   do vale do Cavaco, o que substitui a importação da banana, poupando ao país divisas que vão para outros sectores produtivos.
Primeiro agricultor a investir na irrigação por aspersão e gota-a-gota no país, Manuel Monteiro refere  que “a qualidade da banana que sai do Cavaco está em condições de competir com outra de qualquer parte do mundo”. Manuel Monteiro recorda que no passado, para a sua comercialização, a banana era transportada para Luanda e outros mercados em condições inadequadas.
“Tivemos de melhorar as condições de transporte para dar mais valor comercial à banana”, adianta, realçando a aposta contínua na qualidade. O tomate ocupa, igualmente, largas parcelas do vale do cavaco, sendo hoje responsável pelo abastecimento aos mercados de Luanda e de outras regiões do país.
“O nosso tomate tem condições competitivas em qualquer mercado”, sublinha Manuel Monteiro, notando que  70 por cento do tomate, cebola e banana que entra em Luanda vem de Benguela, 20 por cento do Namibe e dez por cento dos arredores.
Hoje, Benguela testemunha a sucessão de várias gerações de agricultores, sobretudo no vale do Cavaco, sem dúvida, o mais conhecido perímetro agrícola da região. Aqui, mais ambiciosos e competitivos, são estes que assumem, cada vez mais, a liderança na produção de hortícolas. Manejam potentes máquinas, semeadoras, alfaias de última geração, grandes pivôs de rega automática, buldozzers, niveladoras e outros equipamentos. Está, assim, garantida a continuidade do negócio da banana por estes jovens.

Preço da banana

Pode parecer um paradoxo, mas num momento em que a importação da banana  já faz parte do passado, Manuel Monteiro considera que o seu preço -100 kwanzas por  quilograma -, ainda é elevado, mesmo que seja das frutas mais baratas quanto comparada com outras, como a maçã, que chega aos 800 kwanzas ao consumidor.
“Mesmo sendo produtor, entendo que o preço da banana em Angola ainda está caro e isso limita o consumo”, confessa Manuel Monteiro, que destaca a persistência dos agricultores da região de Benguela face à crise económico-financeira que assola o país.
O também presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias de Benguela preconiza a catalogação das terras disponíveis no vale do Cavaco como forma de incrementar a produção de hortícolas. Há casos em que, em 20 hectares, cinco estão preenchidos com banana e  outros 15 com hortícolas. Noutros, apenas dois a cinco, entre 50 hectares, são destinados ao bananal.
No vale do Cavaco existem, segundo apurámos,  2.500 hectares de terra trabalhada, maioritariamente preenchida com hortícolas e cereais, nomeadamente milho, uma opção fundamentalmente ligada a factores de mercado.
/>Resposta dos agricultores

O empresário revela que tem, armazenadas, cerca de 500 toneladas de cebola, da colheita de 2016, um ano que foi particularmente desafiador para os agricultores da região da Benguela que conseguiram travar a entrada de carregamentos deste produto a partir da África do Sul.
“O ano passado as nossas competências estiveram a prova, porque durante a quadra festiva não entrou nenhum camião com cebola da África do Sul”, disse Manuel Monteiro, que destaca que tal só foi possível graças à prioridade que o Executivo atribuiu à disponibilização de divisas essenciais para a aquisição de todo o tipo de insumos agrícolas.
A produção atingiu níveis excedentários, com a cebola, em concreto, a chegar ao consumidor entre 80 a 100 kwanzas o quilograma durante as festas do final do ano. O preço mais baixo nos últimos 15 anos, como pudemos ouvir de diversas vendedoras nos arredores do mercado municipal de Benguela. Mas como a cebola é uma cultura sazonal, o seu preço aos poucos começa a ser animador para os produtores, como Manuel Monteiro, que espera colocar no mercado os produtos em stocks na melhor oportunidade.
A recuperação a que se assiste na resiliência do vale do Cavaco está estritamente ligada à reabilitação, pelo Governo Provincial de Benguela, da barragem do Dungo, no município do Cubal, hoje responsável pela disponibilidade de água para a irrigação dos vastos terrenos agrícolas. Vinte anos depois, os agricultores viram renovadas as esperanças no regresso à produção em grande quantidade da banana, cebola, tomate e outros hortícolas.

Insumos mais próximos

Com incentivos do Governo, Benguela aos poucos vai-se transformando numa importante plataforma logística para a distribuição de todo o tipo de insumos agrícolas no território nacional. Na vila da Catumbela foi montada, há 14 anos, uma empresa para esse efeito. Trata-se da FertiAngola que se dedica exclusivamente à comercialização de sementes, adubos solúveis, sistemas de rega, agroquímicos, fertilizantes e todo o tipo de equipamento em diferentes províncias.
O Centro Logístico da Catumbela está dotado de equipamentos que permitem a descarga de mercadorias com rapidez e eficiência, o que garante a sua chegada, sem grandes constrangimentos, às diferentes regiões agrícolas do país. Só em Dezembro, foram descarregados e armazenados em três dias 7.000 toneladas de diferentes insumos, disse Manuel Monteiro, mentor do projecto.
Satisfeito com receptividade dos camponeses e agricultores, Manuel Monteiro indica que a estratégia é colocar os insumos agrícolas mais próximos dos produtores. “Com os insumos disponíveis, os agricultores sentem-se mais motivados para trabalhar, pois poupam recursos com deslocações para a sua aquisição”, acrescenta, para notar que foram abertas dez lojas em regiões como Benguela, Huambo, Namibe, Huíla, Bié, Luanda e Cuanza Sul.
Manuel Monteiro adianta que, além dos insumos agrícolas, a FertiAngola presta assistência técnica aos agricultores e organiza, regularmente, seminários ministrados por especialistas estrangeiros, nomeadamente da Bayer, cujos produtos representa.

Exportações

Animados com os crescentes resultados na produção, alguns fazendeiros têm vindo a apostar na exportação da banana, sobretudo para o mercado europeu. A Fazenda Agroindustrial Bacilin, na localidade do Culango, por exemplo, iniciou em Outubro último a exportação mensal de 40 toneladas de banana para Lisboa, depois de uma, bem-sucedida, primeira experiência em Maio, quando um navio italiano zarpou do Lobito com um carregamento de banana.
As quantidades a exportar podem subir progressivamente, segundo um técnico desta empresa, que explica que “num mercado tão exigente, como o europeu, a banana de Benguela foi aceite sem dificuldades”.
Outros produtores seguem a linha das exportações. Este mês, mais de 37 toneladas de mangas produzidas numa fazenda da comuna do Dombe Grande foram exportadas para Portugal a partir do Porto de Moçâmedes, como resultado de uma parceria com uma empresa portuguesa ligada ao comércio internacional de hortofrutícolas.
Essa fazenda agrícola estende-se por uma área de 92 hectares e tem uma produção estimada em cerca de 1.600 toneladas de mangas. Em 2010, plantou 18 mil pés de mangueiras, no ano seguinte foi feita a primeira colheita em pequena escala e, a partir do terceiro o mercado interno começou a receber grandes quantidades  de manga.
Mesmo sendo um mercado recente, a produção da manga é outro segmento que ocupa uma parte significativa dos agricultores nos diferentes vales de Benguela. Nesta altura, as ruas das cidades de Benguela e Lobito e mesmo de Luanda estão “inundadas” de zungueiras a venderem mangas das fazendas dos vales agrícolas de Benguela. Só na fazenda de Manuel Monteiro existem 50 mil mangueiras em produção.

Aposta na pecuária

Mas se Benguela é hoje auto-suficiente em hortofrutícolas, no interior da província surgem iniciativas que podem melhorar a oferta de carne de qualidade à população. Na  fazenda Utalala, no município de Cabula, está a ser criado gado especialmente para abate, um investimento privado que nesta altura conta já com cerca de 1.200 cabeças de gado bovino. Os primeiros resultado do projecto começam a ser conhecidos na primeira semana de Junho no “Dia do Criador”, um evento em que os criadores de gado mostram as suas potencialidades.
Na fazenda Utalala está a ser feita inseminação de gado com sémen importado do Brasil e França, com o objectivo de melhorar as diferentes matrizes. O objectivo é criar raças puras, atingir as 3.000 cabeças na fazenda Utalala e começar a fornecer carne ao mercado, segundo os promotores do projecto desenvolvido através do “Angola Invest”, o programa criado pelo Executivo para incentivar o aumento da oferta de bens em áreas como ovos, carne e leite.

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