Reportagem

Valor acrescentado na produção de milho

Arão Martins | Huíla

Angola em 2015 produziu cerca de 28 mil toneladas de farinha de milho, representando um acréscimo de cinco mil toneladas em relação a 2014. O aumento da produção deveu-se à implementação do programa dirigido de farinha de milho.

 

 

Fábrica de transformação de grande capacidade garante mercado para as famílias produtoras de milho no norte da Huíla
Fotografia: DR

Dados da Administração Geral Tributária (AGT) indicam que o país importou, em 2015, cerca de 256 mil toneladas de farinha de milho. Em 2014 foram 314 mil toneladas. Essa redução, que deve assentuar-se a cada ano, resulta de vários factores. O primeiro, quiçá mais relevante, é o aumento da capacidade de transformação no país, que acaba por gerar uma pressão sobre os produtores.
Um bom exemplo dessa constatação encontramos no Cussesse, comuna da Negola, município de Caluquembe, no Lubango, onde uma fábrica de transformação de farinha de milho está a transformar a vida das famílias e da comunidade.
A fábrica surgiu no âmbito do Programa de Crédito Agrícola de Investimento, através do programa Angola Investe, num valor global de 41 milhões de kwanzas financiados pelo Banco de Desenvolvimento Angolano (BDA). Em actividade desde o início do ano, a fábrica absorve a maior parte da produção de milho  da região norte da Huíla. As famílias produtoras de Chicomba, Caconda, Quipungo, Quilengues, Cacula e Caluquembe, que são zonas tradicionalmente produtoras de milho,  já não se podem queixar de falta de escoamento da produção.
César Daniel que é um dos responsáveis do grupo empresarial CEMAKE Agro-industrial, proprietário da fábrica, conta-nos a história da marca “Osema Ipepa” , que em português quer dizer “Fuba boa”. Ele explica que desde o início que a principal motivação do projecto foi corrigir algo que estava completamente errado: a forte presença de farinha de milho importada na Huíla.
Essa foi, na verdade, a principal motivação do projecto, cujo financiamento saiu em 2013, no âmbito do Programa de Crédito Agrícola de Investimento, que é um dos incentivos do Executivo angolano à produção de bens da cesta básica. César Daniel conta que a montagem da fábrica levou algum tempo e exigiu um grande esforço até ficar em condições de operar.
Com capacidade de processar uma tonelada de milho por hora, além da transformação do milho em farinha, a fábrica processa ainda o gérmen e o farelo para ração do gado bovino, suíno, caprino e avícola, distribuídos em sacos de 10 e 25 quilogramas.
A grande prioridade do momento é mesmo a farinha de milho por fazer parte da cesta básica. As populações estão duplamente satisfeitas  com a existência da fábrica, por passarem a consumir produto nacional fresco,  e porque centenas de famílias produtoras de Chicomba, Caconda, Quipungo, Quilengues, Cacula e Caluquembe, estejam ou não organizadas em cooperativas, passaram a produzir com maior segurança. “Ter certeza de que o produto tem mercado é uma alegria para qualquer produtor”, afiança o empresário.
Para César Daniel a decisão de avançar com o projecto foi também motivada por uma observação pragmática sobre o que podia ser uma oportunidade de negócio. “A ligação entre a cadeia produtiva e de transformação no meio rural potencia o mercado de consumo. É neste sentido que decidimos, com os incentivos do Executivo, criar uma indústria de transformação de milho em farinha”.
Afiança que os produtores demonstram muita capacidade para produzir, mas a ausência de unidades de transformação representam um entrave a qualquer intenção de aumento da produção. Foi por isso, sublinha, fundamental o apoio do Executivo para que a empresa decidisse  avançar com o projecto que no fundo aproxima-nos do produtor, motivando-o deste modo a produzir mais e cada vez melhor. “É obvio que o resultado disso é a erradicação da fome e da pobreza, que não deve ser só uma preocupação do Executivo, mas de toda a sociedade”.
Com a marca “Osema ipepa”, disse César Daniel, foram eleitas empresas de distribuição que estão a levar a produção às províncias do Cunene, Benguela, Luanda, Cuando Cubango e Huambo. Com a fábrica em funcionamento e o mercado em forte expansão, o cenário parecia perfeito. Mas não é bem assim. A história da “Osema ipepa”, que tinha tudo para ser perfeita, tem na energia eléctrica o seu único e maior problema.
Segundo César Daniel, a falta de energia da rede pública leva a que a única fonte de energia da fábrica seja aquilo que em projecto seria a fonte alternativa: os geradores. Essa situação torna a produção muito mais cara do que era de esperar, já que se gasta muito com combustíveis nos geradores para manter as máquinas a trabalhar. “Isso prejudica qualquer negócio”.

Produção de sacos

A necessidade da criação de uma fábrica vocacionada na produção de sacos é outro objectivo traçado pelo grupo, que actualmente utiliza sacos do Brasil e da Namíbia. A aquisição de qualquer matéria-prima no exterior requer divisas. “Estamos a trabalhar com as estruturas competentes, para que no âmbito das políticas e prioridades, seja facilitada a aquisição de cambiais nos bancos comerciais, para facilitar a compra de sacos de embalagens para empacotar a farinha de milho”.
A fábrica está dimensionada para processar uma tonelada de milho por hora, na razão de mil quilogramas. Em cada uma tonelada de milho, 70 por cento é aproveitada para a farinha de milho, 12 para gérmen e 18 por cento para o farelo. A indústria transformadora de farinha de milho do Cussesse permitiu criar mais de 50 postos de trabalhos directos e mais de 200 indirectos, com toda mão-de-obra constituída por jovens habitantes da comuna.

Vida mais facilitada

Homens e mulheres oriundos das aldeias de Santiago, Katchiombo, Tchikala, Calonguluve, Tchissãssã, Waba, Caluna, Longongo, Vulutue, Mbomba, município de Caluquembe concentram-se em grandes filas em frente da fábrica de transformação de milho.  À medida em que a fila diminui, outras pessoas se dirigem à unidade fabril, que foi instalada numa zona considerada estratégica para a produção de milho.
O movimento das pessoas é dinâmico. Há quem prefere vender o milho no local ou depois de tranformado. Outros optam por transformá-lo em farinha para o consumo.Paulina Cangombe, de 46 anos, veio da localidade de Waia, arredores de Sandula. Sobre uma motorizada de três rodas, a famosa “Aleluia avo veio”, carregou consigo 200 quilogramas de milho branco. Para ela, a fábrica veio em boa altura. Assim já não tem que pisar o milho na pedra para produzir farinha.
André Marcelino e Manuel José empregam uma força enorme para retirar do carro de mão, cerca de 300 quilogramas de milho para moer. A tradição da fabricação de farinha de milho artesanal é longa no município. O surgimento das novas tecnologias está a ser recebido pela população local com muito agrado.
O milho tem presença quase dominante na dieta dos habitantes de Caluquembe. Com uma área de 4.240 quilometros quadrados e uma população estimada em cerca de 200 mil habitantes, Caluquembe é uma região conhecida pela quantidade e qualidade do milho que produz.
O cereal que atravessou séculos chegou à tradição da cozinha do povo local como igrediente fundamental para a dieta da maioria da população. Seja cozido, torrado, assado, em forma de pão ou bolo e em outras receitas. Em Caluquembe é quase um sacrilégio dispensar uma boa espiga de milho fresco.

Papel social


António Domingos é chefe de produção da fábrica. Ele conta a nossa reportagem que apesar de ser uma novidade para toda a gente, o trabalho decorre sem constrangimentos.“Os processos são simples. Procuramos atender a toda a gente e tem sido esse o segredo. Muitos camponeses trazem o milho de regiões muito distantes para transformarem-no aqui”.
Diz que com o dinheiro que aufere na fábrica está a investir na sua própria criação de gado bovino, galinha, porcos e cabritos.
Chiloia Francisco Casimiro, 25 anos, conseguiu conseguiu o seu primeiro emprego na fábrica. “Sou pai de quatro filhos e sustento a minha mãe que perdeu o marido muito cedo. Por isso, a instalação desta fábrica tem sido um contributo valioso para o bem-estar de todos da região”.
O papel social da fábrica é quase uma marca. A própria selecção da força de trabalho contou com o apoio da Administração Municipal de Caluquembe. As primeiras 50 vagas foram preenchidas por jovens habitantes de Caluquembe. Com a expansão do projecto, mais jovens terão emprego, segundo a promessa feita pela CEMAKE Agro-industrial, que elogia o empenho e a vontade de aprender  dos jovens de Caluquembe .

Produção valorizada

Com o funcionamento da indústria transformadora de farinha de milho a produção na comuna de Negola passou a ser mais valorizada. O administrador municipal de Caluquembe, José Arão Nataniel, diz que a fábrica está localizada num triângulo que permite fazer o aproveitamento do milho que vem de Caconda, Cacula, Quilengues, Chicomba como também absorver o que vem da Matala.
O programa de apoio e fomento da prática da produção do campo está a motivar que os empresários, agricultores e famílias camponesas aumentem a produção. Hoje as pessoas produzem o milho em grandes quantidades, o que torna imperioso a participação dos empresários na criação de indústrias para facilitar a transformação para o consumo.
José Arão Nataniel está confiante no sucesso da aposta do Executivo   na produção nacional. “O nosso país é rico na produção do milho. Aliás, a Huíla, desde a muito que constitui um bastião forte na produção de alimentos e o processo reponde os desafios do Executivo de valorizar a produção do campo”.
O gestor público afirma que aos poucos os resultados dos investimentos quer públicos quer privados vão acabar por se evidenciar. “Os municípios produzem em grandes quantidades, mas na maior parte dos casos não há como escoar essa produção. É uma situação que desmotiva qualquer um. A existência de indústrias de transformação é um factor motivador, porque o produtor, além de produzir para o seu autosustento, vende o excedente e com o dinheiro compra outros bens necessários para melhorar as técnicas de cultivo. Assim a economia cresce”.

Crédito às famílias

A  partir do próximo mês, 21 associações e cooperativas de Caluquembe vão beneficiar de um crédito financeiro convertido em equipamentos e sementes, tendo em vista a campanha agrícola 2016-2017. O administrador municipal de Caluquembe, José Arão Nataniel, disse que o processo de cedência de crédito já começou e tem um valor global de 41 milhões de kwanzas, que está a ser disponibilizado pelo Banco de Comércio e Indústria (BCI).
Explica que o financiamento permite aumentar a capacidade de produção de cereais como milho, massango, massambala, jinguba, gergelim e soja, bem como café, batata rena e doce. O crédito vai permitir também a aquisição de fertilizantes, sementes, instrumentos de trabalho como enxadas, charruas, catanas, limas e gado de tracção animal. O valor é reembolsável nos prazos estabelecidos, com juros bonificados.
Nos anos anteriores, os camponeses e agricultores locais beneficiaram de financiamentos do Bancos Sol e do BPC.  Os empresários, camponeses e agricultores de Caluquembe, têm produzido com grande entusiasmo devido aos diferentes incentivos à produção.

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