Reportagem

Variedade biológica angolana é das mais ricas do continente

Manuela Gomes |

A diversidade biológica angolana é uma das mais ricas de África. Esta deve-se a vários factores, dos quais se destacam a própria superfície do país, a sua posição geográfica, a diversidade de ecossistemas que possui (terrestres, marinhos e costeiros) e o facto de Angola ter sido uma zona de refúgio na última época glaciar.

A palanca negra gigante goza de protecção especial em Angola e mesmo assim ainda figura entre as espécies mais ameaçadas
Fotografia: DR

O país possui uma Estratégia e Plano de Acção Nacional para a Biodiversidade, que propõe medidas que visam assegurar a conservação e o uso sustentável das componentes da diversidade biológica, que permitem a partilha justa e equitativa dos benefícios provenientes da utilização dos recursos biológicos. Para além de aspectos de melhoria da legislação e do reforço institucional, a Estratégia e Plano de Acção Nacional para a Biodiversidade cobre diversas outras áreas, com relevância para as alterações climáticas. Desde a sua criação, permitiram a identificação de sectores chave para o conhecimento e para a conservação da biodiversidade angolana.
Este ano, o Mundo assinala o Dia da Biodiversidade em ligação com turismo, uma vez que 2017 foi declarado pela Assembleia-Geral das Nações Unidas como o “Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento”. 
Em declarações ao Jornal de Angola a propósito da efeméride, o ambientalista Vladimir Russo, director executivo da Fundação Kissama, considera que Angola continua a ser um país rico em matéria de diversidade de espécies da flora e da fauna, muitas das quais ainda por identificar e conhecer. Vladimir Russo caracterizou a biodiversidade em vários aspectos, ressaltando que nos últimos anos têm sido realizados trabalhos de investigação que permitem, por um lado, conhecer e compreender determinadas espécies (principalmente insectos, répteis e plantas), e por outro lado, permitem uma melhor compreensão do estado da biodiversidade.
Outro factor que importa realçar é a caça furtiva. Esta prática tem aumentado vertiginosamente, sustentando os mercados de carne de caça e o tráfico de espécies, particularmente aves, além de dentes de marfim, peles e ossos.
Segundo Vladimir Russo, o resultado desta prática é visível em praticamente todas as estradas nacionais do país, onde a carne de caça de várias espécies de animais está à venda. Destas espécies destacou os pequenos roedores, mamíferos de pequeno e médio porte, répteis como pangolins e cágados, e símios.O ambientalista alerta para outros factores que caracterizam o estado da biodiversidade em Angola, a começar pelo uso desregrado dos recursos naturais, quer pelo derrube de árvores, para desenvolvimento agrícola e expansão urbana, quer por queimadas que colocam pressão sobre os ecossistemas dos animais, que resultam na diminuição dos indivíduos e num aumento do conflito entre seres humanos e animais, destacando-se o confronto com elefantes, hipopótamos e crocodilos.
Apesar de ter havido algum investimento na protecção da vida selvagem, particularmente dentro das áreas protegidas, há cada vez mais pressão sobre os recursos naturais, facto que põe em perigo a sobrevivência de muitas espécies. Vladimir Russo citou a Palanca Negra  Gigante e as tartarugas marinhas entre as espécies consideradas emblemáticas que mais têm sofrido com esta situação, devido à sua vulnerabilidade. A Palanca Negra Gigante é afectada pela caça furtiva com armadilhas e armas de fogo, enquanto as tartarugas marinhas são capturadas pelas redes de pesca e na altura da desova. O manatim africano é outra espécie ameaçada pela caça furtiva e pela diminuição do caudal dos rios e lagoas.
Vladimir Russo lembrou ainda que existem mais espécies que estão sob ameaça, com destaque para as aves. O ambientalista considera que, embora não existam estudos concretos, é notória a degradação de importantes habitats para as aves, como por exemplo o Saco dos Flamingos e o Ilhéu dos Pássaros em Luanda, a floresta da Kumbira no Cuanza Sul e o Monte do Moco no Huambo. Estes dois últimos locais albergam muitas espécies endémicas de Angola. “É altura de desenvolver a componente de recursos humanos para que se possa fazer uma melhor gestão da nossa biodiversidade, particularmente aquela que existe dentro das áreas de conservação”, apelou. Vladimir Russo disse  que os fiscais devem ter mais formação, equipamento e salários condignos. “Não adianta continuar a criar parques para cumprir no papel as Metas de Aichi, mas sim fortalecer a rede nacional de áreas protegidas para perpetuar a existência da vida selvagem no nosso país, cuja gestão pode, no futuro, ajudar no fomento do turismo”, concluiu o ambientalista.

Biodiversidade rica

Com uma superfície de 1.246.700 quilómetros quadrados, Angola é um país situado na costa atlântica da África Austral, que faz fronteira a Norte com o Congo e a República Democrática do Congo (RDC), a Leste com a RDC e a Zâmbia, a Sul com a Namíbia e a Oeste com o Oceano Atlântico. Possui um clima variado entre tropical húmido no Norte e tropical seco a desértico no Centro e Sul. O país alberga uma biodiversidade muito rica, com biomas como o deserto do Namibe no Sudoeste, passando pela Bacia do Kwanza inteiramente angolana com as suas florestas e savanas abertas, a Bacia de Cubango, no Sudeste, e a floresta tropical na Bacia do Zaire no Norte e Nordeste. 
A biodiversidade angolana é uma das mais importantes do continente africano. Foram estimadas mais de 5.000 espécies de plantas, sem contar com a vasta riqueza da província de Cabinda, sendo 1.260 endémicas, tornando Angola o segundo país de África mais rico neste tipo de plantas. A diversidade de mamíferos é também uma das mais ricas do continente, com 275 espécies reconhecidas, onde se destacam a célebre palanca negra gigante (Hippotragus niger variani), a pacaça (Syncerus caffer nanus), o elefante da savana e florestas (Loxodonta africana africana e Loxodonta africana cyclotis), o gorila (Gorilla gorilla), o chimpanzé (Pan troglodytes), o manatin africano (Trichechus senegalensis) e o guelengue do deserto (Oryx gazella), entre outros.
A excepcional biodiversidade em Angola deve-se à combinação de um certo número de factores, como a vasta dimensão do país, a sua posição geográfica intertropical, a variação em altitude e o tipo de biomas. A diversidade climática, combinada com igual variação geológica e de solos, contribuiu para a formação de zonas bio-climáticas que compreendem a densa floresta tropical e a ausência de vegetação no deserto. Estes diferentes habitats favorecem um elevado nível de diversidade biológica.
Habitats como a Floresta do Maiombe albergam uma enorme e rica variedade de espécies animais e vegetais e constituem um património de valor internacional. Nestas florestas, vivem chimpanzés, gorilas e um amplo leque de outros mamíferos, aves e insectos.

Áreas de conservação

Actualmente, existem em Angola 13 áreas de conservação da natureza, nomeadamente os Parques Nacionais da Quiçama, Maiombe, Cameia, Bicuar, Cangandala, Mupa, Iona, Mavinga, Luengue-Luiana, a Reserva Natural Integral do Ilhéu dos Pássaros e Luando, a Reserva Natural Parcial do Namibe e Búfalos e o Parque Natural Regional da Chimalavera, perfazendo 12,58 por cento do território nacional. Entretanto, de forma a garantir a gestão sustentável dos recursos naturais por biomas e eco-sistemas que ultrapassam as fronteiras nacionais, foram estabelecidas várias áreas de conservação transfronteiriça, nomeadamente, o Parque Nacional do Iona, na província do Namibe (interliga o Parque de Skeleton na Namíbia), o Parque Nacional de Maiombe, na província de Cabinda (interliga outras áreas de conservação nos dois Congos), os parques nacionais de Mavinga, Luengue e Luiana, na província de Cuando Cubango (prestes a integrar o projecto KAZA) e a área de Mussuma, na província de Moxico (interliga o Parque de Liuwa Plain, na Zâmbia).

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