Reportagem

Vegetação e valas de betão travam a erosão em Saurimo

Adão Diogo|Saurimo

No bairro Txizaínga, arredores de Saurimo, na Lunda-Sul, já é notório o estancamento de uma ravina de cerca de mil metros.

Fotografia: Adão Diogo | Edições Novembro Lunda-sul

As valas a céu aberto e os taludes cobertos por manta geoteste (uma estrutura de fibras e linhas) com vegetação plantada, para impedir a desagregação e arrasto de solos, assinalam o trabalho já realizado, numa superfície de mais 600 metros, sustendo a erosão na maior parte do barranco de um quilómetro, no âmbito de um contrato de execução de obras a cargo da empresa ENGEVIA.
O motor da pá niveladora ronca forte, para vencer a gravidade a partir do leito da ravina, onde a deposição de pedras antecede os restantes processos previstos, num projecto em que a engenharia devolve o equilíbrio ambiental, sem ignorar a estética.
As impressões positivas sobre os passos dados acentuam a confiança que as estruturas competentes têm na empresa que executa a obra. É uma resposta prática e eficaz aos sucessivos apelos das autoridades da província, para acudir as comunidades dos bairros Txizaínga e Fina onde a acção da ENGEVIA, é notória.
Segundo o director provincial da Construção, Cláudio Esmeraldino Pemessa, a província tem catalogadas mais de 50 ravinas. O município de Saurimo encabeça a lista, com um número acima de 20 pontos identificados, nos bairros periféricos e próximo de estradas nacionais. O assunto é do conhecimento das estruturas centrais e os investimentos tímidos para o combate acentuam o grito de socorro em certas comunidades, como Luavur, Fina e Shoprite .
Da cabine da máquina imobilizada, no acesso em construção, para facilitar a entrada de camiões até ao leito, a uma profundidade de aproximadamente 50 metros, o encarregado de obras Bernardo Sangaie segue com o trabalho, "que corresponde à fase crítica da empreitada".
"Estamos a regularizar o acesso para o interior da ravina, a fim de facilitar a circulação”, referiu o técnico, que, em dez anos, participou na reabilitação de estradas de 17 províncias do país. Apesar de coincidências em termos de procedimentos, considera que o processo de contenção de ravinas abarca meandros complexos.
O vaivém das máquinas, que no início da empreitada durava 20 horas, passou para dez. Duas valas de betão a céu aberto, com acesso às habitações, convergem num ponto em que a ravina começa a ganhar profundidade.
O barulho dos cilindros e o seu efeito sobre o solo, durante a compactação do terreno, causou algum susto à comunidade e trouxe as inevitáveis rachaduras nas paredes das casas próximas ao local das obras, erguidas maioritariamente à base de adobe. A transformação da imagem de abandono em paisagem que “enche os olhos” custou mesmo o derrube, para já controlado, de algumas casas.

Feliz beneficiário

Do pátio frontal à casa do pai, que ganhou um anexo de construção definitiva, por ter parte do quintal e de uma modesta casa destruídas por uma máquina, Guerra Coragem acompanha com satisfação o movimento de trabalhadores, empenhados na conclusão da obra, que devolveu segurança à comunidade.
“Antes de derrubarem a casa, os trabalhadores da ENGEVIA edificaram um anexo, à base de blocos de cimento, com as dimensões do edifício anterior. Depois de colocarem o tecto, portas e janelas, fizeram a entrega”, confirmou.
As valas de drenagem regularizaram o curso das enxurradas, evitando possíveis danos provocados pela força da água da chuva. Dos taludes cobertos por estruturas de fibra e linha, que formam a manta geoteste, as plantas esboçam o verde lactente para no futuro evitar o desagregamento e arrasto do solo.
O morador explica que o sentimento de satisfação na comunidade é geral. O medo de inundação e desabamento fazem parte do passado, porque a população testemunha as mudanças positivas que o bairro regista, depois de uma aposta “mal compreendida no início”.

Empregos e espaços verdes

Os trabalhos de requalificação de espaços verdes que decorrem na cidade de Saurimo melhoram a imagem de urbanidade e a segurança dos munícipes. Destaca-se ainda a criação de passeios, entre os espaços verdes, e a instalação de bancos corridos, com encosto, para oferecerem comodidade aos moradores. O estucador Mário Dias, espalha areia para nivelar um espaço triangular, antes de assentar os blocos empilhados com o formato de hexágono.
A iniciativa do Governo garantiu emprego ao jovem e cinco outros colegas, através de uma sub-empreiteira contratada, que ajuda a alterar, para melhor, o figurino rudimentar da cidade, criado pelos anteriores paisagistas. Trabalhos do género decorrem na rotunda da loja Nosso Super, onde os largos espaços em betão deslustravam a vegetação plantada.
O jovem António Elavoco trocou a vassoura pelo plantador, um instrumento que usa todos os dias para limpar o jardim, na conhecida rotunda de Santo António, sob gestão da empresa Sê Fénix, onde trabalha há dois meses. Contou para a adaptação ao novo trabalho a colaboração de colegas experientes, para manter o jardim verde, limpo e arrumado.
Atrasos no pagamento de salários e falta de inscrição no Instituto de Segurança Social (INSS) ressaltam entre as inquietações apontadas. Uma funcionária dá o seu contributo há três anos. Referiu que estão há quatro meses sem salário.
“Quem reclamar corre o risco de ser despedido”, facto confirmado por outros colegas.

Jovens ganham experiência

Através da ENGEVIA, os jovens Neves Eduardo e Paulo Carlos Chiuque ganharam, em seis meses, experiência na área de Topografia. O primeiro participa em trabalhos de levantamento e o seu colega fixa estacas nos pontos definidos pelos operadores, numa jornada que inicia às seis horas e termina às 17.
Arroz, feijão, peixe e o frango formam a essência da dieta alimentar definida pelos gestores da empresa. A suspeita de consumo da mesma refeição, confeccionada com uma antecedência de três dias, é, para alguns, a razão de queixas recorrentes de dores no estômago e desarranjos intestinais.
Apesar deste constrangimento, os trabalhadores ressaltam o rigor no cumprimento das normas de segurança, reflectidas na ocorrência de zero acidentes de trabalho e na compreensão dos moradores. Notam que, às vezes, fica restrito o acesso a determinados pontos, por força da actividade que realizam.
O risco de “descer e subir a vala”, evitado pelos adultos, é, para os pequenos Graça Zango, 11 anos, Jamba Daniel Calandjindji, 10, e Daniel Caximuna, seis, motivo de diversão. Deslizam para o leito através da parede de betão e transpõem o obstáculo usando as mãos e os pés, sem receio de escorregarem e embaterem com a cabeça ou outra parte do corpo. Descrevem com alguma precisão os tempos sofridos,quando o volume das “águas das chuvas partiam casas e faziam crescer a ravina”.
Graça Zango acha que a “situação melhorou”. As máquinas removeram parte da terra no interior da ravina. Notou que o entulho à base de terra e pedras deu lugar à construção de valas e acessos às casas.

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