Reportagem

Via Saurimo-Dala é “armadilha” fatal

O troço entre Saurimo e o município de Dala, na Estrada Nacional 180, é uma au-têntica armadilha. Os  automobilistas que circulam na-quela via estão desgastados com os prejuízos causados nas viaturas,  devido ao mau estado em que se encontra o troço.

Destroços de viaturass e contentores atirados nas bermas dão conta de uma estrada que precisa de intervenção para se evitar danos materiais e perda de vidas humanas
Fotografia: Lino Vieira|Luena|Edições Novembro

O grupo de jornalistas da Comunicação Social Pública que deslocou recentemente do Luena para a cidade de Saurimo numa formação  sobre as técnicas jornalísticas, constatou  a situação e ouviu o clamor de muitos cidadãos que solicitam a intervenção imediata do Executivo para acabar com este sofrimento.
Despida do seu tapete asfáltico em alguns troços, a Estrada Nacional 180 já não oferece condições para a locomoção nem para mercadoria e muito menos para passageiros. A via que no passado era muito frequentada, hoje apresenta só viaturas a cada dez ou 15 quilómetros.
Depois de deixarmos a localidade do Luele, onde termina o asfalto, numa extensão de pouco mais de dois quilómetros, encontrámos um camião capotado e, se-gundo a informação de alguns populares no local de acidente, o ajudante do camião foi evacuado  para o hospital municipal  do Dala devido a uma fractura que contraiu no acidente.
A história deste acontecimento é bastante triste, pois  dois camiões capotaram por duas vezes no mesmo troço.
Tudo aconteceu quando o primeiro camião que saiu de Luanda em direcção à cidade do Luena, depois de transpor o viaduto sobre o rio Luachimo, numa extensão de três quilómetros, desequilibrou-se e cuspiu o contentor para fora da estrada.
Como alternativa, o fretador viu-se obrigado a fazer o transbordo da mercadoria para um outro camião contentorizado e que, depois de andar 200 metros, também capotou.
Adriano António, motorista do segundo camião, não nos poupa nas suas declarações depois de ter percebido que estava diante de um grupo de jornalistas. Desabafou, insultou até quando não tinha mais palavras para soltar e por fim atribuiu também a responsabilidade do mau estado das vias aos jornalistas, por estes, segundo ele, serem cúmplices de muitas mentiras e promessas que nunca foram cumpridas. “Vocês também são culpados desta desgraça porque nunca informaram com  verdade. Esta estrada está muito de-gradada desde Malanje até ao Luena e quando os camionistas reclamam, vocês fazem ouvidos de mercador”.   Disse mais: “Se não divulgarem a realidade desta estrada para o Governo reabilitar, vão sentir a falta de muitas coisas”.
Visivelmente inconforma-do com o péssimo estado das estradas no leste de Angola, Adriano António não escondeu a sua insatisfação e atirou-se  aos jornalistas.
Perguntado sobre de quem era a responsabilidade dos  danos  causados na sua viatura, respondeu:  “Uma Estrada Nacional com estes aspectos e, os sem-vergonha obrigam os cidadãos a pagar a taxa de circulação como se as estra-das estivessem em bom estado”, desabafou depois de ter gesticulado, como quem diz “vão lá prà...”.
Mesmo sabendo que a Estrada Nacional está a ser reabilitada, começando por Malanje, o camionista disse que, enquanto decorrem as obras de reabilitação, o Instituto de Estrada de Angola (INEA ) devia destacar alguns grupos para atacar os troços mais críticos e facilitar a normal circulação de pessoas e bens.
   O proprietário da mercadoria é um cidadão de nacionalidade mauritana, que se recusou a  revelar o seu nome. Além de lamentar os prejuízos na sua mercadoria mostrou-se inconformado com a atitude do comandante da Polícia Nacional do município do Dala, por este ter cobrado dez mil kwanzas por hora para a protecção da mercadoria durante o transbordo.
O camião capotou fora da comunidade e havia suspeitas de ter havido uma sabotagem por parte da população, por isso o comandante aceitou o pedido do proprietário da mercadoria e destacou para o local três agentes da Polícia, mas em troca estabeleceu um valor monetário como garantia para a segurança do produto.
A reportagem do Jornal de Angola procurou ouvir o comandante sobre a inquietação apresentada pelo comerciante estrangeiro, mas este por sua vez já não se encontrava no local. Contactados os agentes que faziam a protecção, eles afirmaram que cumpriam uma ordem do chefe, mas que desconheciam qualquer negócio entre o comandante e o proprietário da mercadoria.
  Transportar a mercadoria de Luanda para o leste é um deus-me-acuda, muitos camionistas deixaram de circular neste troço devido aos danos causados nas viaturas, o que não tem sido fácil de  compensar, mesmo praticando taxas muito altas na cobrança de aluguer. 
Vários comerciantes perderam mercadorias inteiras nesta via, o que pudemos constatar durante a viagem. Destroços de viaturas e contentores atirados nas bermas, dão conta de uma estrada que precisa de intervenção para se evitar danos materiais e humanos.
A reportagem do Jornal de Angola constatou o difícil acesso que a estrada oferece para chegar ao destino. O desespero toma conta dos automobilistas e passageiros durante a viagem.
Existem dois troços mais complicados na estrada que liga Luena-Saurimo, que dificultam o tráfego que em condições normais devia ser feito em duas horas. Os troços que tiram o sossego dos automobilistas estão entre Luele, Luachimo e Caianza, província da Lunda-Sul.
A transportadora Macon deixou de operar nesta via por causa do mau estado da estrada. Para chegar a  Saurimo  ou vice-versa,  o cidadão tem de recorrer aos chamados “heróis da estrada” (Land Cruiser), assumindo todos os riscos que a estrada oferece.

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