Reportagem

Viagem guiada ao Aeroporto Deolinda Rodrigues

Adão Diogo | Saurimo

O verde artístico e cinzento realçam o visual do aeroporto na parte exterior, servido por um parque de estacionamento com capacidade para cerca de cem viaturas, porém economicamente sub-aproveitado por falta de cancelas electrónicas e outros dispositivos para regular a entrada e saída de veículos.

Fotografia: Edições Novembro

Na sala de embarque, mergulhada em silêncio, apenas três passageiros aguardam pela chegada de uma aeronave do tipo Embraer, da companhia aérea privada SJL, que com regularidade transporta passageiros na rota Luanda-Saurimo e vice versa.
A conversa com a simpática senhora Txambeno An-gusta ajuda a afastar a tristeza inicial que lhe era visível no rosto devido ao internamento de uma filha, num dos hospitais da maior cidade de An-gola, Luanda. Na primeira fila das dezenas de cadeiras instaladas na sala de embarque, ampla, arrumada, limpa e climatizada, um expatriado observa descontraído, através da parede de vidro, a placa de estacionamento, enquanto o terceiro passageiro, um na-cional, sentado na última fila junto à parede, "queima o tempo" a manusear um telemóvel, sem tirar os auriculares dos ouvidos.

Serviços

As áreas destinadas ao check- in, segurança e controlo por RX estavam às moscas. No espaço destinado ao Serviço de Migração e Estrangeiros (SME), um diligente agente em serviço do seu gabinete de trabalho acompanha, com olhar atento, o movimento de entrada e saída de pessoas.
No hall, amplo, junto à es-cada de acesso ao restaurante, filas curtas de passageiros e de outros utentes aguardam a sua vez para utilizar os dois multicaixas ali instalados. A venda de bilhetes de passagem e informações aos clientes nos balcões de três lojas ali instaladas decorre num ambiente calmo. As estimativas apontam para uma aflu-ência média diária acima de 100 passageiros.
Uma pista sólida, com 3.600 metros de comprimento e pavimento "bem conservado", permite à infra-estrutura aeroportuária, de classe três, receber aviões de pequeno, médio e grande porte para o transporte de passageiros e carga com rapidez e em condições de total segurança, garantiu a directora local da Empresa Nacional de Exploração de Aeroportos e Navegação Aé-rea (ENANA), Maria Perpétua Januário.

Gestão segura

Perpétua Januário aponta a necessidade de instalar guaritas aéreas, ao longo do perímetro que limita a área de concessão, para melhorar a vigilância e combater tentativas de vandalismo, traduzidas, essencialmente, na remoção da rede metálica de vedação por meliantes apostados na busca do lucro fácil. O desmantelamento de grupos de meliantes há dois anos, na sequência de estratégias concertadas e aumento das forças policiais, devolveu ordem e segurança ao local.
Na parte da área de estacionamento do recinto in-terno, uma aeronave IL 76, de fabrico russo, aparentemente intacta, com os motores cobertos, pertencente às Organizações Santos Bikuku (OSB), está ali imobilizada há mais de um ano.
Ao lado do "pássaro gi-gante de ferro", três outras aeronaves, do tipo Antonov, da mesma empresa, segun-
do Maria Perpétua, aguar-dam por autorização do Instituto Nacional de Aviação Civil (INAVIC) e de outras es-
truturas competentes para entrarem no mercado do transporte aéreo comercial. Revelou que os investimentos feitos pelas OSB, em ma-téria de aviação, já justificam a edificação de um hangar, para relançar as suas actividades.

Transtornos à navegação

Maria Perpétua referiu, desconfortada, que a cedência de espaços a particulares, para construírem moradias numa área utilizada por aeronaves, como rota obrigatória, durante a aterrissagem e descolagem, sem consultar a ENANA, gera preocupações em termos de segurança.
A área cedida estreitou a margem de segurança e a presença de uma torre grafada com as iniciais IU, no início da via de acesso ao aeroporto, aumentou o risco. Por precaução, os operadores da torre emitem sucessivos alertas às tripulações, a fim de realizarem com rigor e em segurança as manobras necessárias de entrada e saída da pista.
Alertou que estudos e análises técnicas efectuados por especialistas em segurança aérea provam que a presença do prédio "é um transtorno à navegação, por estar na zona de enfiamento da pista". Explicou que em circunstâncias normais, as zonas habitadas e obstáculos "devem reservar uma área deserta de oito quilómetros da pista."

Controlo interno

Referiu que o sucesso reputado do trabalho das equipas multidisciplinares reflecte uma cooperação efectiva entre os seus membros, cujo número é ainda escasso para o volume e complexidade do trabalho de um aeroporto. Do controlo por RX, os técnicos detectam facas, via de regra, em posse de cidadãos chineses e vietnamitas, além de produtos inflamáveis, em bagagem de mão, levadas por passageiros. Reconhece grandes mudanças na preservação das regras, reflexo da tomada de consciência por parte dos passageiros sobre a importância de viajar em segurança.
"Aliás, os sistemas de RX e outros dispositivos afins, aliados a uma fiscalização atenta sobre a situação migratória e outros requisitos legais impostos, aumentam o grau de dificuldade para infringir as regras e escapar impune, ao transpor as áreas de controlo”, garantiu.
Maria Januário garantiu ainda que as condições climáticas de região permitem aos aviões escalarem com re-gularidade a região. Em circunstâncias de agravamento do cenário, os aeroportos das províncias vizinhas da Lunda-Norte e Moxico funcionam como escape.

Concorrência obriga à redução dos preços do transporte aéreo

Inaugurado a 12 de Agosto de 2012, o histórico do aeroporto tem apenas o registo de "dois incidentes, provocados por aves". Referiu satisfeita que desde finais do ano passado o número de voos aumentou, com o licenciamento de duas companhias privadas, nomeadamente a FliyAO e SJL, quebrando o monopólio detido pela TAAG durante vários anos.
As valências trazidas pela concorrência no domínio do transporte aéreo forçou a companhia de bandeira a reduzir o custo da passagem para Luanda em Akz.39 mil, contra os 63 mil cobrados anteriormente. As empresas homólogas cobram, pelo mesmo trajecto, preços que variam entre 29 mil e 30 mil kwanzas.
Por parte da FlyAO, instalada em Saurimo há cerca de seis meses, o seu representante, Sabino Gesse, ressaltou o grande interesse das pessoas pelos seus serviços. Realiza cinco voos semanais, utilizando uma aeronave com capacidade para 50 passageiros. O preço de 30 mil kwanzas, que cobra actualmente por viagem na rota Saurimo/Luanda, resultou de dois reajustes, a partir do tecto de 42 mil estipulados no início da actividade na região.
Sabino Gesse reconhece que a diferença de mil kwanzas cobrados a menos, pela sua congénere SJL, com uma presença diária em Saurimo, é uma "isca poderosa, que influencia o sentido de opção do passageiro, mas está longe de azedar as boas relações entre as duas companhias."
Apesar da chefe de escala da TAAG e do delegado da SJL alegarem falta de autorização pelo superior hierárquico para prestarem declarações à imprensa, passageiros que utilizam os serviços desta última enaltecem o "preço e regularidade nos voos", mas criticam o incumprimento dos horários programados.

 

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