Reportagem

Viagens sem fronteiras

João Dias | Joanesburgo

Afinal é mesmo verdade. Não precisamos de visto para cá estar. A supressão de vistos é uma realidade”. Foi com estas palavras que Manuel Pedro, jovem funcionário público angolano, manifestou ontem o seu contentamento, ao transpor, com a mulher e filhos, sem visto no passaporte ordinário, a fronteira sul-africana, no Aeroporto Internacional Oliver Tambo, em Joanesburgo.

Manuel Pedro e a esposa já viajaram sem vistos
Fotografia: Francisco Bernardo| Edições Novembro

Manuel Pedro, visivelmente satisfeito, disse que tinha sérias dúvidas que fosse transpor a fronteira sem complicações.
A equipa de reportagem do Jornal de Angola, que acompanhou Manuel Pedro e família, do Aeroporto 4 de Fevereiro ao "Oliver Tambo", também transpôs a fronteira sem dificuldades, com passaportes ordinários sem vistos.
Mas, antes da partida, procuramos conversar e perscrutar a expectativa do nosso interlocutor. Ele conta que, quando foi anunciada a medida, seguida de uma visita oficial do Presidente da República à África do Sul, solidificou-se a certeza de que afinal a medida ia ser mesmo concretizada. Ainda assim, o melhor era ver para crer, embora tivesse comprado os bilhetes na Loja da South Africa Airways (SA), na Ingombota, junto do Hotel Epic Sana.
Dias antes, tinha tratado os passaportes da mulher e dos dois filhos menores, no Serviço de Migração e Estrangeiros (SME). Com os documentos em mão, esperou ansioso pelo dia da viagem, propositadamente escolhido para coincidir com o dia em que angolanos e sul-africanos pudessem deslocar-se num e noutro país, sem vistos nos passaportes ordinários.
 “É aventura, não é?”, questiona, mas prossegue, irónico: “agora, já posso fazer reservas antecipadas e comprar bilhetes em promoção".

Chegada a Joanesburgo
Acompanhado da mulher e dois filhos, um deles bebé, Manuel Pedro, que chegou a Joanesburgo às 18h45, no voo da SA, está expressamente feliz, por realizar uma viagem que tinha projectado há muito tempo, mas cuja materialização a política de vistos impedia. “Não sei se seria possível, se a política de vistos não tivesse sido mudada”, sublinha.
Assim como os repórteres do Jornal de Angola, o casal está ansioso por transpor a fronteira. Chegou a tão esperada hora de passar para o outro lado. Olha para todos os que têm em mão o passaporte com capa preta, o passaporte ordinário de Angola, e acompanha, com redobrada atenção, a abordagem feita pelo agente de migração aos outros passageiros angolanos.
Nota-se-lhe o nervosismo. Tranquilizo-o, afinal, estamos na mesma condição. Aventuramo-nos nesta onda de viajar sem visto e, como é óbvio, também estamos nervosos. Passamos a fronteira, passamos no teste. Que alívio!
Do outro lado da fronteira, aguardamos pela família, que chega à cabine onde está o funcionário da migração. Manuel Pedro entrega o seu passaporte, o da mulher e os dos filhos, um bebé e um menino de 5 anos, e aguarda.
O agente limita-se a capturar os dados biométricos da pequena família e passa, meticulosamente, em revista um e outro passaporte e, para isso, não faz mais de dez minutos.
A Manuel Pedro, tal como o fez com os repórteres do Jornal de Angola, o agente limita-se a perguntar quanto tempo é que ficam por aqui, o que vieram fazer, se têm carta de chamada ou ainda onde se vão hospedar, sem esquecer a papelada, relacionada com os filhos, que atesta a paternidade. Depois disso, ecoa o bater do carimbo sobre o passaporte e a tão esperada expressão: “seja bem vindo e boa estadia”.
Manuel Pedro vem feliz ao nosso encontro, respira de alívio e regozijado: “isso é mesmo bom”. Outros passageiros partilham a sua alegria.
“Estava mesmo nervoso. Receava alguma complicação da parte do agente de migração. Afinal, é mesmo verdade. Não precisamos de visto para cá estar! A supressão de vistos é uma verdade, é efectiva”, diz.
A mulher de Pedro, de parcas palavras, mal sustém a expectativa. O filho, Julinho, vive instantes de encantamento e inquietude com a sofisticação das luzes de natal espalhadas pelo interior do Aeroporto. Placas publicitárias fazem-lhe viver uma espécie de experiência contemplativa.
O menino fixa o olhar, minutos a fio, nas placas de informação sobre o horário de voo ou na aeromoça que passa. Tudo isso tem uma razão de ser: A primeira viagem para fora das idiossincrasias do bairro que o viu nascer, o Avô Kumbi, no Golfo. 
“Esta medida já devia ter sido aplicada há muito tempo. Afinal, não nos esqueçamos que estamos dentro de um dos blocos económicos mais importantes, a SADC”, refere, por seu lado, Manuel Barros, jovem professor, demonstrando a importância e impacto desta medida para os dois povos.
Fala da União Europeia e, por isso, reclama: “aqui, na nossa região, devia existir, há mais tempo, uma espécie de espaço Schengen, de modo a proporcionar o direito de ir e vir sem constrangimentos. Aliás, este é um novo paradigma pelo qual os países se deviam orientar e construir e Angola deve evitar fechar-se em excesso”, opina Manuel Barros.

  Movimento intenso nas fronteiras

A reportagem do Jornal de Angola chegou ao Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro pela manhã. O movimento era intenso; fora do que tem sido habitual.
O porta-voz do SME, Orlando Muongo, associa o movimento à supressão de vistos em passaportes ordinários, entre Angola e a África do Sul. Ele tem certeza que muitos angolanos se preparam para viver esta “experiência” inaugural, daí estar certo que a medida é mesmo real e veio para durar.
Apesar disso, não tem dados disponíveis. “Só vamos poder fornecer dados dos passageiros angolanos que viajaram com passaportes ordinários e sem vistos daqui a mais alguns dias”, diz o responsável do Serviço de Migração e Estrangeiros. Quando eram 11h30, chegou o voo da SAA (South Africa Airways), proveniente da África do Sul. A Reportagem do Jornal de Angola constatou, junto dos responsáveis da companhia, que o avião atingiu a lotação, embora não avançassem o número exacto de passageiros sem visto. O mesmo ocorreu com o voo que seguiu para Moçambique.
A reportagem apurou junto da SA que as reservas e bilhetes estão esgotados até 10 de Dezembro. “Já não temos lugares. Está tudo ocupado, da económica à executiva”, sublinha uma funcionária da companhia.

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