Reportagem

Viajar de comboio continua a ser um “Deus nos acuda”

Samuel António | Luena

Viajar no comboio do Caminho-de-Ferro de Benguela tornou-se, nos últimos meses, uma luta sem tréguas. Vários passageiros ficam em longas filas à espera de um “milagre”, para conseguir um bilhete de passagem.

O intervalo de tempo entre um e outro comboio acumula centenas de passageiros nas várias estações e por falta de espaço acabam por perder a viagem
Fotografia: Daniel Benjamim | Edições Novembro

Nesta batalha, que começa logo nas primeiras horas da manhã, encontramos Martins Cadivonga, que em termos de contagem figurava na última posição da fila dos homens. E quando isso acontece(último da fila), para  o passageiro conseguir o bilhete de passagem, a sua esperança  torna-se cada vez mais distante.
O cidadão, vindo de Benguela, em visita familiar, disse que o regresso para a sua zona de origem tem sido dificultado, pois, das duas vezes que tentou não conseguiu, devido a enchente verificada na bilheteira.
Martins Cadivonga sublinhou que o número de pessoas que pretende viajar tem aumentado, cada dia, e o CFB está sem capacidade para responder a procura, já que o aumento de mais comboios poderia minimizar a situação.
Já na fila das mulheres en-contramos Margarida Upale, uma comerciante residente no Luena, que se dedica à ven-da de tomate, cebola, batata rena e feijão. Desgastada com a situação disse que as três frequências semanais não resolvem o problema, num universo de  estações desde Lobito até a vila  fronteiriça  do  Luau.
Margarida Upale tira o produto a partir do Bié para comercializá-lo no Luena. O sucesso do seu negócio não depende unicamente do seu esforço, mas, também, da oferta dos serviços que o CFB vai dando para garantir a viagem.O comboio é o único meio de transporte capaz de atender as preocupações da maioria da população, na medida em que, além de praticar a tarifa mais baixa, transporta grandes quantidades de carga e maior número de passageiros.
Devido ao mau estado das vias e do aumento da tarifa da transportadora aérea TAAG, o Caminho-de-Ferro de Benguela, para além de ser uma alternativa para alguns, tornou-se uma opção para a maioria da população que vive ao longo da linha férrea.Mas por falta de capacidade do CFB em atender a procura, esta ansiedade da população tem sido frustrada. A reportagem do Jornal de Angola apurou que o intervalo que se dá entre um e outro comboio, acumula dezenas de passageiros em várias estações e por falta de espaços nas carruagens acabam por perder a viagem.
A pouca oferta em relação a procura contraria a ansiedade desta população que aposta seriamente no Caminho-de-Ferro de Benguela, como o único meio para satisfação das suas necessidades.
Varias pessoas contactadas pelo Jornal de Angola defendem que a circulação de comboio deve ser diária, para evitar enchentes nas estações e dar maior comodidade aos passageiros que, por falta de lugares, acabam por viajar de pé.
Os mais de 300 quilómetros da linha férrea entre Luena e Luau passam por quatro municípios, com grandes potencialidades, em termos agrícolas e de pesca artesanal, pois que o número de  passageiro nestas localidades tende aumentar cada vez mais.
A reportagem do Jornal de Angola esteve no comboio de sexta-feira, numa viagem de ida e volta de Luena ao Luau. Durante o percurso de aproximadamente 15 horas, constatou quão difícil viajar de comboio. Para além de empurrões, a higiene nos quartos de banho deixa muito a desejar.
Passageiros contactados apelam à direcção do CFB a manter a organização para evitar as doenças e excesso de pessoas dentro dos comboios.O cheiro nauseabundo que os quartos de banho libertam espalha-se, completamente, no interior das carrua-
gens, o que pode representar  um atentado a saúde dos passageiros. Por isso, a tomada de medidas deve ser urgente, para corrigir a triste situação pelo que passam os passageiros durante a viagem.
Um outro problema que está na base de muitas reivindicações tem a ver com  o abandono de passageiros  em plenas estações. O Jornal de Angola apurou que os maquinistas de comboio dão muito pouco tempo para os passageiros subirem, principalmente nas estações pequenas denominadas de apeadeiros. Os  comboios  já vêm  com a lotação esgotada a partir das estações anteriores, o que impossibilita o embarque normal de elevado número de pessoas que pretendem viajar.
O representante do CFB no Moxico, Fernando António Prata, disse que a solução do problema de enchentes passa pela nova programação dos comboios e o aumento de mais carruagens. “Estamos a sugerir ao Conselho da Administração que o comboio que chega nas  segunda-feira seja destacado para fazer ligações entre Luena e Luau  e vice-versa”,referiu.
O responsável considerou que a actual programação facilita muito o congestionamento de passageiros, pois que o longo intervalo entre uma e outra ligação,  permite  acumular muitos passageiros, já que a  capacidade de 62 lugares por cada carruagem,  não satisfaz a demanda.
Fernando Prata afirmou que não se resolve o problema dos passageiro com o único comboio que parte do Lobito percorrendo mais de 60 estações de Lobito até a fronteira do Luau,  numa extensão de 1. 311 Quilómetros. Falando sobre  o mau estado das casas de banho, Fernando António sublinhou que o problema está a ser analisado, pois que o Conselho da Administração enviou, recentemente,  alguns equipamentos e localmente foi seleccionado algum pessoal para manter  a higiene no interior dos comboios.
De Janeiro a Maio deste ano, os Caminhos-de-Ferro de Benguela transportaram 230 mil e 500 passageiros adultos, 21 mil 178 crianças, totalizando 258 mil 778 passageiros.
Ainda no mesmo período foram transportados 34 mil toneladas de cargas, das quais, três mil 408 de gás butano, três mil 900 de combustíveis e 21 mil 804 de produtos diversos.
Em relação a 2017, foram transportados 370 mil 243 passageiros entre adultos e crianças, 31 mil 404  toneladas entre gaz butano e combustiveis.
Na semana passada, o governador Manuel Gonçalves Muandumba constatou as condições de acomodação no interior das carruagens e não gostou do estado das casas de banho e sugeriu medidas para ultrapassar a situação.
Gonçalves Muandumba defendeu o aumento de mais carruagens e vagões para  mercadorias, construção de uma nave no perímetro da estação, para albergar os passageiros e a colocação de  responsáveis  para assegurar o pleno funcionamento das estações de Cangumbe, Leua,Cameia e Luacano.

Tempo

Multimédia